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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">Arbor</journal-id>
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				<journal-title>ARBOR Ciencia, Pensamiento y Cultura</journal-title>
				<abbrev-journal-title>Arbor</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">0210-1963</issn>
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				<publisher-name>Consejo Superior de Investigaciones Cient&#x00ED;ficas</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="publisher-id">arbor.2014.766n2001</article-id>
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			<subject>HISTORIA, CULTURA Y DEPORTE DE PORTUGAL / HISTORY, CULTURE AND SPORT FROM PORTUGAL</subject>
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				<article-title>A ALUSÃO A ROMANCES NAS LETRAS PORTUGUESAS DOS S&#x00C9;CULOS XV-XVII</article-title>
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					<trans-title>THE ALLUSION TO ROMANCES IN THE PORTUGUESE LYRICS OF THE XV-XVII</trans-title>
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				<alt-title alt-title-type="running-head">PORTUGUESE LYRICS</alt-title>
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					 <surname>Ara&#x00FA;jo</surname>
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			<aff id="U1">Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Universidade Nova de Lisboa</aff>
			
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				<year>2014</year>
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			<year>2014</year>
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			<volume>190</volume>
			<issue>766</issue>
			
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					<license-p>Este es un art&#x00ED;culo de acceso abierto distribuido bajo los t&#x00E9;rminos de la licencia Creative Commons Attribution-Non Commercial (by-nc) Spain 3.0.</license-p>
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			<abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Las preocupaciones de Ochocientos con respecto al establecimiento de la idea de literatura llevaron al (re)descubrimiento de versos de romances peninsulares en varias obras de autores portugueses contempor&#x00E1;neos de Garcia de Resende, Lu&#x00ED;s de Camões y D. Francisco Manuel de Melo (incluyendo ellos mismos). Superadas la perspectiva romanticista y la de la filolog&#x00ED;a de la &#x00E9;poca, as&#x00ED; como revisadas las teor&#x00ED;as de la intertextualidad de finales del siglo XX, el estudio incide sobre estas interpolaciones en las letras portuguesas. Las interpreta como dispositivos de alusi&#x00F3;n con efectos musicales, po&#x00E9;ticos y sem&#x00E1;nticos tan diversos cuanto precisos e imprescindibles desde el punto de vista de la econom&#x00ED;a creativa de las obras que las presentan. A trav&#x00E9;s de la combinatoria identificaci&#x00F3;n de los romances aludidos / interpretaci&#x00F3;n del sentido y funci&#x00F3;n de las incrustaciones deslinda significados textuales que no son perceptibles mediante una lectura meramente lineal. </p>
			</abstract>
			
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>The nineteenth-century concern with establishing the idea of literature led to the (re)discovery of specific verse lines from peninsular ballads in various works of Portuguese authors contemporary with Garcia de Resende, Lu&#x00ED;s de Camões and Francisco Manuel de Melo (including themselves). With the Romantic perspective and that of the philology of the era now behind us, and having revised the main theories on Intertextuality formulated in the late 20th century, this essay focuses on these interpolations in the Portuguese Literature context. They are interpreted here as allusive devices with musical, poetic and semantic effects as diverse and precise as they are essential from the standpoint of view of the creative poetic paradigm in which they flourished. Through the combinatorial identification between the referred ballads and the interpretation of the meaning and function of the incorporations we are given textual meanings that are not immediately perceived by a first reading.</p>
			</trans-abstract>
			
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>PALABRAS CLAVE</title>
				<kwd>alusi&#x00F3;n</kwd>
				<kwd>literatura portuguesa</kwd>
				<kwd>romancero antiguo</kwd>
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				<title>KEYWORDS</title>
				<kwd>allusion</kwd>
				<kwd>Portuguese literature</kwd>
				<kwd>peninsular old ballads</kwd>
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		<title></title>
		<p>Autores portugueses contemporâneos de Garcia de Resende, Lu&#x00ED;s de Camões e Francisco Manuel de Melo, incluindo os três homens de letras, criaram obras de g&#x00E9;neros distintos interpolando hemist&#x00ED;quios e versos de baladas mais ou menos reelaborados por si. Ao incorporarem estas expressões po&#x00E9;ticas pr&#x00E9;vias, instauraram intencionalmente uma relação criativa entre os textos que produziam e os romances aos quais as formas pertenciam para suscitarem efeitos po&#x00E9;ticos e semânticos tão diversos quanto precisos e necess&#x00E1;rios à elaboração das suas obras. Utilizaram-nas, portanto, sob formas nem sempre literais e quase invariavelmente como dispositivos de alusão com efeitos m&#x00FA;ltiplos e imprescind&#x00ED;veis do ponto de vista da economia criativa.  </p>
		
		<p>A percepção cr&#x00ED;tica do fen&#x00F3;meno posterior à sua voga resultou inicialmente das preocupações filol&#x00F3;gicas oitocentistas de identificação das fontes constitutivas da literatura. No afã caracter&#x00ED;stico do s&#x00E9;culo XIX, os eruditos de então detectaram a presença de versos de romances em obras de criação individual e coleccionaram os testemunhos, contribuindo de forma &#x00ED;mpar para a elaboração do cat&#x00E1;logo geral de referências. Para o acervo colaborou Ferdinand Wolf, ao dedicar-se às literaturas peninsulares e às suas fontes romanc&#x00ED;sticas (Wolf, <xref ref-type="bibr" rid="CIT57">1856</xref> e Wolf, Hoffmann, <xref ref-type="bibr" rid="CIT58">1856</xref>); Wilhelm Storck, realçando os vincos tradicionais de certas composições camonianas (Stork, <xref ref-type="bibr" rid="CIT53">1885</xref>); Te&#x00F3;filo Braga, compilando argumentos para a tese da genuinidade da literatura nacional (Ara&#x00FA;jo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT02">2005</xref>); concorreu sobretudo Carolina Michaëlis de Vasconcelos, procurando suprir a inexistência de antigas colecções portuguesas de romances (Michaëlis de Vasconcelos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT37">1885</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT38">1890-1892</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT33">1892</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT34">1897</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT35">1901</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT36">1907-1909</xref>).  </p>
		
		<p>A fil&#x00F3;loga, ao longo dos seus trabalhos, escrutinou meticulosamente os f&#x00F3;lios do <italic>Cancioneiro Geral </italic>de Garcia de Resende (Resende, <xref ref-type="bibr" rid="CIT46">1990-2003</xref>) e de outras obras publicadas at&#x00E9; 1663 e deles extraiu aproximadamente 280 referências feitas por cerca de 50 autores (Di Stefano, <xref ref-type="bibr" rid="CIT15">1982</xref>, 27). À medida que as apurou, reviu os achados anteriores – como mostram as suas referências a Wolf, Storck, Braga e mesmo a Garrett, embora o subs&#x00ED;dio do poeta não tenha sido relevante neste aspecto – e foi dando not&#x00ED;cias da sua investigação at&#x00E9; a reunir e completar nas p&#x00E1;ginas da prestigiada revista <italic>Cultura espa&#x00F1;ola</italic>, a convite de Ram&#x00F3;n Men&#x00E9;ndez Pidal<xref ref-type="fn" rid="NOTE01">1</xref>. </p>
		
		<p>Os artigos de Michaëlis de Vasconcelos, compilados posteriormente sob o t&#x00ED;tulo <italic>Romances Velhos em Portugal </italic>(Michaëlis de Vasconcelos, 1980), reflectiram o estado do conhecimento de então sobre o romanceiro, pelo que exigem atenção cr&#x00ED;tica. Mas ainda assim continuam a constituir nos nossos dias o invent&#x00E1;rio de referência dos engastes de versos de baladas nas criações portuguesas deste per&#x00ED;odo e a servir de base e de repto à investigação actual. </p>
		
		<p>As preocupações da fil&#x00F3;loga não foram as que surgiram posteriormente e, por isso, pouco ou nada D. Carolina se deteve no significado e na funcionalidade da utilização dos versos das baladas, bem como no papel constitutivo desempenhado pelo procedimento nas obras em que se manifesta. Este novo interesse foi favorecido pelas ulteriores perspectivas da filologia e dos estudos liter&#x00E1;rios em geral, assim como pelo maior conhecimento das tradições antiga e moderna do romanceiro. Beneficiando deste quadro, desenvolveu a combinat&#x00F3;ria identificação dos temas aludidos / interpretação do sentido e função das interpolações e atrav&#x00E9;s da equação deslindou significados textuais que eram impercept&#x00ED;veis ao leitor comum dos nossos tempos.  </p>
		
		<p>A perspectiva surgiu sobretudo a partir da segunda metade do s&#x00E9;culo XX, no contexto dos estudos sobre a poesia cancioneiril e o teatro. Eugenio Asensio ter&#x00E1; sido um dos primeiros a articular a identificação dos materiais pr&#x00E9;vios com a interpretação da sua presença e a conceptualizar o fen&#x00F3;meno como um processo criativo de efeitos est&#x00E9;ticos (Asensio, <xref ref-type="bibr" rid="CIT03">1957</xref>). Outros aprofundaram o filão cr&#x00ED;tico. Por exemplo, Giuseppe Di Stefano destacou a “stilizzazione” operada por Gil Vicente sobre determinadas formas romanc&#x00ED;sticas incorporadas pelo dramaturgo (Di Stefano, <xref ref-type="bibr" rid="CIT14">1967</xref>, 91-100). Aida Fernanda Dias realçou a funcionalidade amplificadora das incorporações na l&#x00ED;rica portuguesa dos s&#x00E9;culos XV e XVI (Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT16">1974</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT17">1978</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="CIT18">1998</xref>). Pere Ferr&#x00E9; mostrou que certas interpolações no teatro de Anrique da Mota e de Gil Vicente obedeceram a um processo de parodização das fontes e foram um forte mecanismo de comicidade (Ferr&#x00E9;, 1980-1982, 55-67 e <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">2003</xref>, 97-109). E, para não alongar as referências, eu pr&#x00F3;pria analisei este procedimento como dispositivo de humor e por vezes de mordacidade social e pol&#x00ED;tica em peças vicentinas, de Ant&#x00F3;nio Prestes (Ara&#x00FA;jo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT01">2004</xref>) e de Francisco Manuel de Melo, assim como em textos epistolares de Lu&#x00ED;s de Camões e nas <italic>Lendas da &#x00CD;ndia</italic> de Gaspar Correia<xref ref-type="fn" rid="NOTE02">2</xref>.  </p>
		
		<p>Ora, partindo desta tradição cr&#x00ED;tica dedicada a engastes pontuais e considerando os contributos te&#x00F3;ricos que a seguir refiro, proponho agora a revisão da diversidade das interpolações reunidas por D. Carolina como fen&#x00F3;meno essencialmente alusivo, cuja realização obedeceu a uma tipologia de estrat&#x00E9;gias po&#x00E9;ticas diversificadas e gerou um quadro preciso de efeitos. Como veremos, embora ele se encontre inscrito nos textos, os versos interpolados remetem sempre (ou quase sempre) para elementos das baladas que extravasam os expl&#x00ED;citos.  </p>
		
		<p>O dispositivo da alusão liter&#x00E1;ria teve uma das suas primeiras teorizações na influente Agudeza y arte de ingenio, no “Discurso XXXIV” (Graci&#x00E1;n, <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1669</xref>, fols. 221-225). Definiu-o Graci&#x00E1;n como a “agudeza” que exige não s&#x00F3; o conhecimento de textos pr&#x00E9;vios, mas sobretudo a ex&#x00ED;mia arte de o aplicar em novos contextos a fim de produzir frutuosas e inesperadas correlações. Observou que a incorporação de um fragmento pode comportar a alteração de uma ou mais palavras e a modificação da pr&#x00F3;pria l&#x00ED;ngua, bem como do significado da referência, sublinhando que estas intervenções favorecem o conceito.  </p>
		
		<p>O contributo de Graci&#x00E1;n revela-se particularmente luminoso – tendo tamb&#x00E9;m em vista o procedimento dos autores portugueses, como veremos –, mas foi sobretudo nas &#x00FA;ltimas d&#x00E9;cadas de Novecentos que o recurso alusivo se tornou objecto de reflexão. Nesta altura, a sua teorização assentou em princ&#x00ED;pios vinculados ao dialogismo bajtiniano e às suas derivações e pol&#x00E9;micas bem conhecidas dos anos 60 e imediatos, como registou nos finais do s&#x00E9;culo Joseph Pucci num estudo dedicado à Allusion and Power of the Reader in the Western Literary Tradition (Pucci, 1998). Posteriormente, ultrapassado o extremismo das posições dos primeiros te&#x00F3;ricos da intertextualidade, outros pensaram o procedimento criativo e propuseram bases cr&#x00ED;ticas que se afiguram pertinentes tamb&#x00E9;m no âmbito dos estudos sobre a relação da literatura individual com os corpora colectivos pr&#x00E9;vios. Observemos. </p>
		
		<p>“Aludir”, etimologicamente “jogar com”, neste caso, palavras, consiste num procedimento l&#x00FA;dico – no sentido de ludus proposto a partir de Huizinga (Huizinga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT28">2004</xref>) no âmbito da reflexão filos&#x00F3;fica sobre o jogo. Deste ponto de vista, constitui uma actividade organizada por um conjunto de ditames preestabelecidos e reconhecidos pelos intervenientes que instiga à reinvenção mais ou menos surpreendente de relações. Ora foi precisamente a sua qualidade de dispositivo gerador de conexões que mais interessou os &#x00FA;ltimos te&#x00F3;ricos da alusão liter&#x00E1;ria, nomeadamente um dos seus melhores conhecedores, Allan H. Pasco. O professor, depois de recordar a definição cl&#x00E1;ssica de Paul Fontanier, que na verdade coincide com a descrição ret&#x00F3;rica de Morier (Morier, <xref ref-type="bibr" rid="CIT39">1981</xref>), “«L’allusion […] consiste à faire sentir le rapport d’une chose qu’on dit avec une autre qu’on ne dit pas, et dont ce rapport meme reveille l’idee»” (Pasco, <xref ref-type="bibr" rid="CIT41">1973</xref>, 461), salientou que o fen&#x00F3;meno corresponde a uma articulação entre pelo menos dois termos distintos, gizada e estimulada pelo texto, mas dependente do conhecimento do receptor e da sua competência de s&#x00ED;ntese interpretativa dos dois elementos. O conceito, retomado mais tarde pelo mesmo autor em Allusion: A Literary Graft (Pasco, <xref ref-type="bibr" rid="CIT42">2002</xref>), acentua dois aspectos da alusão que, a meu ver, são cruciais para a inteligência do dispositivo nas obras dos autores portugueses.  </p>
		
		<p>Por um lado, o mecanismo encontra-se perfeitamente inscrito no texto. Com efeito, a evocação das baladas ou de alguns dos seus elementos integra estas criações individuais na medida em que hemist&#x00ED;quios e versos do incipit ou de zonas interm&#x00E9;dias dos romances surgem plenamente incrustados e articulados no novo texto sob formas mais ou menos adaptadas (como consignava a teorização de Graci&#x00E1;n) de acordo com as necessidades lingu&#x00ED;sticas, semânticas ou po&#x00E9;ticas da nova composição. Fazem de tal modo parte do texto que nas primeiras edições das obras – ao contr&#x00E1;rio de muitas impressões posteriores que, a meu ver, as destacam indevidamente – as expressões de origem romanc&#x00ED;stica nem sequer foram assinaladas graficamente. Apesar de os editores epocais conhecerem muito provavelmente o estatuto de mat&#x00E9;ria pr&#x00E9;via das formas, não as realçaram na impressão, justamente por compreenderem o seu valor constitutivo e a sua natureza de patrim&#x00F3;nio comum.  </p>
		
		<p>Por exemplo, Manuel de Lira editou em 1595 as trovas bilingues camonianas “Disparates seus na &#x00CD;ndia” (Camões, <xref ref-type="bibr" rid="CIT05">1595</xref>, 167v-168v) sem destacar os dois versos de romances que conheceria, pelo menos, a partir da sua edição do Cancionero de romances de 1550 feita em Lisboa, em 1581<xref ref-type="fn" rid="NOTE03">3</xref>. Um deles consiste na forma que prov&#x00E9;m de um dos temas do ciclo de Fern&#x00E1;n Gonz&#x00E1;lez, “villas y castillos tengo, todos a mi mandar son” (Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">1967</xref>, 227) e o outro corresponde ao incipit das versões dos Cancionero e demais Romanceiros, não dos folhetos de cordel (Catal&#x00E1;n, <xref ref-type="bibr" rid="CIT10">1997</xref>, 64, nota 112), do romance velho de cativos, “Mi padre era de Ronda, y mi madre de Antequera” (Cancionero de romances, 167, 284). Tamb&#x00E9;m não os assinalou o impressor da importante fam&#x00ED;lia de livreiros Crasbeeck (Camões, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">1598</xref>), como ambos não destacaram a outra expressão romanc&#x00ED;stica engastada nas trovas do poeta, “que se mataran com tres / &amp; lo mismo haran com quatro” de um dos tema sobre o cerco de Zamora que começa “Riberas de Duero arriba cabalgan dos çamoranos” (Rodr&#x00ED;guez Mo&#x00F1;ino, <xref ref-type="bibr" rid="CIT48">1997</xref>, nºs. 31, 663, 736). O primeiro verso, introduziu-o Camões em castelhano, numa estrofe com versos em português e uma expressão em latim, fazendo apenas uma alteração no &#x00FA;ltimo voc&#x00E1;bulo imposta por necessidade rim&#x00E1;tica – transformou “son” na forma “sone” para concordar com “bone”. O &#x00FA;ltimo referido, que surge em segundo lugar nas trovas, não parece ter suscitado qualquer intervenção, pois com excepção da copulativa, o verso &#x00E9; o do folheto de Praga referido (e mesmo esta consta da versão do impresso volante de Madrid). O outro, transformou-o o poeta em discurso indirecto, modificando e aportuguesando a pessoa verbal, tamb&#x00E9;m (como o primeiro) por imperativos da nova composição, “que seu padre era de Ronda, / &amp; su madre de Antequera”.  </p>
		
		<p>O dispositivo radica no texto tamb&#x00E9;m por ser na nova composição que &#x00E9; sintetizada a relação alusiva. Vejamos esta articulação nos “Disparates”. O verso do romance &#x00E9;pico sobre o conde Fern&#x00E1;n Gonz&#x00E1;lez exprime a afirmação pessoal do poder do her&#x00F3;i, mas sobretudo a atitude feudal de confronto do nobre vassalo frente ao rei, como &#x00E9; bem expl&#x00ED;cito na forma romanc&#x00ED;stica anterior a esta, “que yo no he miedo al rey, ni a cuantos con &#x00E9;l son”, bem como noutros temas do mesmo ciclo, nomeadamente no que relata o seu encontro com Sancho Ord&#x00F3;&#x00F1;ez em Carri&#x00F3;n (Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">1967</xref>, 227). Interpolado nas trovas camonianas de cr&#x00ED;tica aos seus contemporâneos que, sendo beneficiados pela fortuna na &#x00CD;ndia, “chamão logo al Rey cõpadre” (Camões, <xref ref-type="bibr" rid="CIT05">1595</xref>, 167v), o seu sentido de origem &#x00E9; parodizado e a alusão resulta numa s&#x00E1;tira com alcance não meramente social, de costumes, mas igualmente pol&#x00ED;tico, por relacionar em imagem invertida os v&#x00ED;nculos nobreza/poder real de contextos hist&#x00F3;ricos tão distintos. O segundo inicia as “palabras de gran soberbia” dos cavaleiros de Zamora, ricamente vestidos e armados, que saem a combater os castelhanos com tanta arrogância quanta cobardia. Engastado na estrofe sobre os portugueses que se vangloriam dos seus feitos b&#x00E9;licos, mas que na guerra “mostrão as costas”, reforça a configuração dos contemporâneos do poeta e amplia-a sugerindo que estes nem ao combate sa&#x00ED;am. A &#x00FA;ltima expressão balad&#x00ED;stica de auto-identificação do sujeito do romance d&#x00E1; in&#x00ED;cio ao relato feito pelo pr&#x00F3;prio do seu cativeiro entre mouros, no qual descreve as suas desventuras enquanto escravo. Incorporado na estrofe dedicada aos que pretendem fazer-se passar pelo que não são, ao “rafeyro velho / que se quer vender por galgo”, evoca em imagem invertida com not&#x00F3;rio efeito hilariante e mordaz a v&#x00ED;tima do romance, associa parodicamente o cristão vertido em escravo ao farsante indigente.  </p>
		
		<p>Por outro lado, como vimos Allan Pasco sugerir, o dispositivo assenta igualmente na competência do receptor. Os autores dos s&#x00E9;culos XV-XVII utilizaram-no porque sabiam poder contar com a capacidade de “leitura liter&#x00E1;ria” do seu p&#x00FA;blico, para usar a expressão de Rifaterre (Rifaterre, <xref ref-type="bibr" rid="CIT47">1979</xref>, 163) convergente com a noção de intertextualidade de Laurent Jenny (Jenny, <xref ref-type="bibr" rid="CIT29">1979</xref>, 5), utilizadas geralmente no âmbito do universo liter&#x00E1;rio dominado pelo escrito. No per&#x00ED;odo em apreço, a recepção liter&#x00E1;ria decorreu frequentemente num contexto de transmissão oral, em pequenas comunidades, tendo sido menos comum a leitura individual e solit&#x00E1;ria, como sublinharam entre outros Margit Frenk (Frenk, <xref ref-type="bibr" rid="CIT23">1982</xref>, 101-123) e Ricardo Senabre (Senabre, <xref ref-type="bibr" rid="CIT50">1991</xref>, 194), mas o processo hermenêutico não ter&#x00E1; sido diferente. Ali&#x00E1;s, a circunstância tê-lo-&#x00E1; at&#x00E9; favorecido: como os romances aludidos faziam parte do acervo memorial colectivo, pelo menos do que era comum aos letrados de então (apreendido pela audição ou leitura dos impressos romanc&#x00ED;sticos e pelo canto), a percepção das suas formas e a sua interpretação nas novas composições ter&#x00E1; sido mais frutuosa nesta partilha, nesta comunidade. O p&#x00FA;blico, desfrutando das criações dos seus contemporâneos ou dos autores que continuavam a despertar o seu interesse, detectava as expressões pr&#x00E9;vias mais ou menos manipuladas do ponto de vista discursivo e semântico e logo entendia o seu significado e a sua funcionalidade no novo contexto. Ou seja, compreendia a relação dial&#x00E9;ctica dos dois termos, o romance e a nova composição, porque era capaz de fazer uma interpretação não meramente linear da obra. O processo torna-se mais claro à luz das etapas estabelecidas por Plett no contexto da sua teorização sobre a recepção intertextual (Plett, <xref ref-type="bibr" rid="CIT43">1993</xref>, 79). Vejamos: num primeiro momento, os que liam ou escutavam a nova composição interrompiam o cont&#x00ED;nuo da interpretação face ao reconhecimento de uma forma pr&#x00E9;via guardada na sua mem&#x00F3;ria; logo a compreendiam por anamnese do romance de origem e imediatamente a integravam com as devidas alterações na linearidade da percepção da obra. Encontrava-se assim garantido o sucesso funcional do dispositivo e a efic&#x00E1;cia da estrat&#x00E9;gia criativa. </p>
		
		<p>Como observ&#x00E1;mos nos “Disparates”, os autores portugueses, ao recorrerem a versos da abertura dos romances e de zonas interm&#x00E9;dias – na verdade, mais destas do que do incipit, como tamb&#x00E9;m notou Giuseppe Di Stefano (Di Stefano, <xref ref-type="bibr" rid="CIT15">1982</xref>, 31-32) – para aludirem a determinados elementos das baladas, intervieram frequentemente nas formas que engastavam. Com efeito, v&#x00E1;rias interpolações não são transcrições literais das expressões po&#x00E9;ticas antigas que conhecemos, nem muito provavelmente das que soavam nas vozes da &#x00E9;poca, uma vez que a mem&#x00F3;ria colectiva actual não as conservou. Assim, mesmo admitindo que algumas possam corresponder (como veremos) a uma lição que não mereceu letra impressa nem a conservação memorial e pelo canto atrav&#x00E9;s dos s&#x00E9;culos, a grande parte das divergências nasceu no laborat&#x00F3;rio criativo dos autores devido a imperativos de adaptação das formas pr&#x00E9;vias ao novo contexto liter&#x00E1;rio. Vejamos os principais traços desta po&#x00E9;tica gerada pelas necessidades formais e semânticas do novo contexto e da intencionalidade significativa do autor. </p>
		
		<p>A l&#x00ED;ngua predominante do artif&#x00ED;cio alusivo foi a dos romances fixados pelas primeiras edições das baladas, a qual, como &#x00E9; sabido, era bastante familiar aos letrados portugueses e usada frequentemente no seu trabalho criativo. No entanto, apesar da preponderância do castelhano (em boa verdade, com muitos lusismos), o idioma dos autores e p&#x00FA;blico foi utilizado, quer parcialmente atrav&#x00E9;s da substituição de alguns voc&#x00E1;bulos, quer de forma integral, trajando todo o verso.  </p>
		
		<p>A maior parte dos casos de ocorrência m&#x00ED;nima do português não ter&#x00E1; resultado da iniciativa autoral, mas de vicissitudes tipogr&#x00E1;ficas, uma vez que a desarmonia lingu&#x00ED;stica não apresenta, salvo uma ou outra excepção, qualquer significado po&#x00E9;tico, semântico ou funcional. Assim ter&#x00E1; sucedido com o engaste vicentino do hemist&#x00ED;quio “los hijos de do&#x00F1;a Sancha” (Obras de Gil Vicente, <xref ref-type="bibr" rid="CIT40">1928</xref>, fol. LVv) do romance sobre a querela de do&#x00F1;a Lambra (Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT07">1945</xref>, fol. 163v): sem que se entreveja qualquer justificação, surge com o t&#x00ED;tulo honor&#x00ED;fico feminino em português.  </p>
		
		<p>As interpolações totalmente em português devem ter sido, em princ&#x00ED;pio, da lavra dos autores, do seu trabalho de tradução, mas alguma delas pode reflectir os pren&#x00FA;ncios da tradição nesta l&#x00ED;ngua. Penso que um exemplo deste fen&#x00F3;meno minorit&#x00E1;rio reside no engaste de “Passeava-se Silvana / por um corredor um dia” n’ O Fidalgo Aprendiz (Melo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT32">2007</xref>, 145), uma vez que a forma po&#x00E9;tica, embora não tenha sido fixada pelos impressores antigos, &#x00E9; uma das de abertura mais frequente de “Silvana” (Ferr&#x00E9;, <xref ref-type="bibr" rid="CIT21">2000-2004</xref>, III, 324-340) e de poemas contaminados por este romance, nomeadamente um conjunto de versões do “Conde Alarcos” (Ferr&#x00E9;, <xref ref-type="bibr" rid="CIT21">2000-2004</xref>, II, 332-490)<xref ref-type="fn" rid="NOTE04">4</xref>. Mas suponho que a generalidade manifesta o burilar lingu&#x00ED;stico dos autores, at&#x00E9; por incluir frequentemente outro tipo de intervenções criativas, sendo menos comuns os casos de tradução literal do verso romanc&#x00ED;stico, como o da interpolação presente no “Memorial a El Rei nosso Senhor D. João, o quarto” de Francisco Manuel de Melo (Melo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT31">2006</xref>, 713-714). O poeta, para salientar o abandono da propriedade para a qual chamava a atenção do monarca, introduziu a f&#x00F3;rmula “de ũa parte a cerca o Douro, / da outra penha talhada” que &#x00E9; a versão portuguesa literal da descrição elogiosa de Zamora feita pelo rei Fernando frente às reivindicações sucess&#x00F3;rias de sua filha Urraca, “de una parte la cerca el Duero, de otra pe&#x00F1;a tajada” (Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">1967</xref>, 213).  </p>
		
		<p>Em qualquer caso, a utilização das duas l&#x00ED;nguas não distinguiu autores ou per&#x00ED;odos no arco temporal dos s&#x00E9;culos XV-XVII, ao ponto de ambas figurarem por vezes no mesmo fragmento, como sucede na alusão de Ant&#x00F3;nio Prestes a um dos romances sobre a perda de Alhama pelos mouros, “Moro alcayde, moro alcayde, el de la barva vellida” (Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">1967</xref>, 248). O dramaturgo, incrustando este incipit e uma forma presente em hemist&#x00ED;quios subsequentes, “porque Alhama era perdida” e “porque es Alhama perdida”, impregnou a fala da personagem Sensualidade dirigida ao Diabo do sentido de admoestação dos dois primeiros versos da balada e das nefastas consequências que o seu interlocutor colheria se não a introduzisse no castelo do seu pretendido Cavaleiro:  </p>
		
		<p>Moro alcaide, moro alcaide </p>
		
		<p>el de la barba vellida </p>
		
		<p>s’ eu por vos não for metida </p>
		
		<p>n’ el castillo de Belsayde </p>
		
		<p>dou Alfama por perdida </p>
		
		<p>(Autos de Prestes, “Auto da Ave-Maria”, <xref ref-type="bibr" rid="CIT04">2008</xref>, 79). </p>
		
		<p>O incipit em castelhano no in&#x00ED;cio da fala da personagem de um auto predominantemente em português, consiste numa estrat&#x00E9;gia de captatio benevolentiae do p&#x00FA;blico conhecedor de romances para sublinhar o estatuto subtextual da expressão e a consequente comparação em imagem invertida do Diabo e do mouro que de certo modo foi v&#x00ED;tima da perda de Alhama. Lançado o jogo alusivo, o seu final foi realizado na l&#x00ED;ngua em que a figura profere sempre as suas alocuções. </p>
		
		<p>Mas independentemente da l&#x00ED;ngua usada, os autores intervieram mais ou menos profundamente nas expressões que utilizaram. Frequentemente, restringiram-se à adaptação de elementos m&#x00ED;nimos, como o j&#x00E1; observado da alteração da pessoa verbal. Mas, como veremos de seguida em dois casos em português e dois em castelhano, tamb&#x00E9;m desenvolveram liberdades criativas sobretudo alterando a ordem de constituintes dos versos, articulando hemist&#x00ED;quios não sequenciais, assim como desmembrando e recompondo parcialmente f&#x00F3;rmulas romanc&#x00ED;sticas com versos de invenção pr&#x00F3;pria, para al&#x00E9;m de terem recriado, sobretudo os &#x00FA;ltimos cultores do artif&#x00ED;cio, alguns versos em formas que modificam inclusivamente o sentido das expressões pr&#x00E9;vias, recorrendo contudo ao seu significado.  </p>
		
		<p>Uma composição de s&#x00E1;tira e folgar de Pedro de Almeida bem representativa do riso mordaz, por vezes insultuoso (Dias, <xref ref-type="bibr" rid="CIT18">1998</xref>, 360), do Cancioneiro Geral exemplifica o primeiro procedimento. Refiro-me ao poema de ridicularização da rapidez com que João Rodrigues de S&#x00E1; substituiu o seu barrete por uma carapuça de veludo, cedendo à cr&#x00ED;tica de Dona Ana d’Eça a quem dedicava em vão certas preferências (Resende, <xref ref-type="bibr" rid="CIT46">1990</xref>, II, 444-445). Termina, dizendo: “S’o barrete bem volava, / la egua mijor corria”.  </p>
		
		<p>A expressão po&#x00E9;tica não tem paralelo directo nas antigas versões impressas dos romances, embora os poemas quinhentistas da balada sobre o repto de B&#x00FA;car a Valência e a c&#x00E9;lere fuga do mouro à veloz perseguição de Cid incluam dois versos que visualizam o dinamismo do encalço atrav&#x00E9;s do movimento das montadas dos cavaleiros. A glosa de Francisco de Lora contempla “Do la yegua pone el pie Bavieca pone la pata” (Catal&#x00E1;n, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1969</xref>, 147-148) e o Cancionero s.a., para al&#x00E9;m desta forma, “la yegua, que era ligera, muy adelante passava” (Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT07">1945</xref>, 179r). Os versos de Pedro de Almeida podem ter sido uma recriação profunda destes com a deslocação e tradução do voc&#x00E1;bulo “yegua” do primeiro para o segundo termo da expressão, o que consistiria numa alusão mordaz à senhora.  </p>
		
		<p>Mas &#x00E9; poss&#x00ED;vel que reflictam a reelaboração da forma de uma versão não impressa da balada, cuja existência foi admitida por Diego Catal&#x00E1;n (Catal&#x00E1;n, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1969</xref>, 150), pois encontram relação noutras ocorrências distintas. Por um lado, têm semelhança com o verso incrustado em Ulyssipo, “Se o cavalo bem corria a egua melhor voava” (Vasconcelos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT56">1618</xref>, fol. 155). Por outro, têm-na com uma expressão po&#x00E9;tica do romance recolhida no s&#x00E9;culo XX, em diferentes trabalhos de campo, numa das &#x00E1;reas mais conservadoras da tradição moderna portuguesa, Bragança: “se a Babeca corre muito, o meu cavalo voava” (Tavares Teixeira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT54">1906</xref>, 306; Martins, <xref ref-type="bibr" rid="CIT30">1928/1987</xref>, 233, reimpressas in Ferr&#x00E9;, <xref ref-type="bibr" rid="CIT21">2000-2004</xref>, I, 160-162).  </p>
		
		<p>Neste caso, a alteração de Pedro de Almeida foi outra, consistiu na inversão da ordem dos verbos. Quer a forma po&#x00E9;tica de Jorge Ferreira de Vasconcelos, quer as transmontanas, tal como a do poeta do Cancioneiro Geral, fazem referência à &#x00E9;gua na segunda parte da expressão, mas apenas a deste poeta antepõe “voar” a “correr”. Assim, tenha ele recriado a partir das formas de Francisco de Lora e Martin Nucio ou da hipot&#x00E9;tica versão que desconhecemos directamente na tradição antiga, procedeu a uma modificação da sequência po&#x00E9;tica pr&#x00E9;via, para al&#x00E9;m de ter substitu&#x00ED;do o nome do cavalo Babieca por “barrete” (palavras foneticamente pr&#x00F3;ximas) – aspecto que não apoia a possibilidade de o poeta ter aludido à forma registada pelo seiscentista Gonzalo Correas como proverbial, “Si el caballo bien corr&#x00ED;a, la yegua mejor volaba” (Correas, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">1992</xref>, 451). Atrav&#x00E9;s desta recriação, o poeta provocou seguramente o riso no p&#x00FA;blico conhecedor do romance e introduziu uma alusão de forte efeito jocoso. Associou as atitudes dos visados ao desempenho quinhentista das alim&#x00E1;rias dos cavaleiros medievais – de Babieca do ardiloso Cid e da &#x00E9;gua do mouro covarde. </p>
		
		<p>Observa-se o artif&#x00ED;cio criativo da justaposição de hemist&#x00ED;quios não sequenciais, por exemplo, na Comedia de Rubena, quando Benita aludiu ao romance que circulava na imprensa do s&#x00E9;culo XVI em diferentes versões, mas sempre com a abertura “Tiempo es, el cavallero, tiempo es de andar de aqu&#x00ED;” ou “... de ir de aqu&#x00ED;”). Benita entoa na peça “Tiempo era cavallero / que se m’ acorta el vestir” (Vicente, 1924, fol. LXXXVIIIv.). A primeira parte coincide com o hemist&#x00ED;quio inicial do romance sobre o fruto dos amores il&#x00ED;citos de uma donzela com um cavaleiro e a segunda corresponde ao quarto da mesma balada, por exemplo, na versão de um folheto de Praga, integrado no verso “que me cresce la barriga e se me acorta el vestir” (Pliegos de Praga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT44">1960</xref>, II, LXXVI, 281). O p&#x00FA;blico compreendeu imediatamente a intencionalidade da alusão de Benita ao romance: a de afirmar o conhecimento que tinha dos dissimulados favores amorosos de Rubena a um jovem cl&#x00E9;rigo e da gravidez da sua senhora, assim como a de associar a mordacidade da criada ao riso das donzelas do romance. Mas porque articulou Gil Vicente diferentes hemist&#x00ED;quios, criando uma expressão po&#x00E9;tica em si mesmo enigm&#x00E1;tica? Se atendermos à cena em que ela decorre, logo a recriação revela a sua acuidade formal e semântica. O di&#x00E1;logo entre as duas figuras &#x00E9; um debate de entreditos, no qual a criada sugere implicitamente o estado da senhora e esta dissimula-o com diagn&#x00F3;sticos diversos e com o pedido da presença de Genebra para a “bendezir / del quebranto” (Vicente, 1924, fol. LXXXVIIIv.). A invenção vicentina composta pela articulação dos dois hemist&#x00ED;quios separados por dois suprimidos, que completam o sentido dos utilizados, constitui o xeque-mate subentendido do jogo de simulação e entreditos em que ela pr&#x00F3;pria colabora com intencionalidade c&#x00F3;mica e cr&#x00ED;tica. </p>
		
		<p>O terceiro procedimento, a fragmentação de uma expressão pr&#x00E9;via e a sua recomposição parcial com novos versos, encontra-se, entre outros casos, no final das trovas que João Rodrigues de S&#x00E1; dirigiu à sua senhora para provar a intensidade da sua paixão e contradizer os “motos” enviados por castelhanos à sua dama (Resende, <xref ref-type="bibr" rid="CIT46">1990</xref>: 434-440). Termina a composição invocando directamente estes senhores: </p>
		
		<p>Agora depois d’ achar </p>
		
		<p>em meus erros o que neles </p>
		
		<p>nom podês dissimular, </p>
		
		<p>nisto m’ havês de salvar: </p>
		
		<p>em serem pr&#x00F3;prios aqueles </p>
		
		<p>que sam pera perdonar. </p>
		
		<p>A referência do poeta do Cancioneiro Geral pode ter sido a expressão autonomizada que no s&#x00E9;culo XVII foi acolhida no Vocabulario de refranes y frases proverbiales, em duas modalidades, “Los yerros por amor dinos son de perdonar” e “Yerros de amor dinos son de perd&#x00F3;n” (Correas, 278 e 514). Mas atendendo a um aspecto contextual e a outro extracontextual da alusão, inclino-me a considerar que ela visava o romance com grande fortuna editorial no s&#x00E9;culo XVI, “Media noche era por filo, los gallos quieren cantar” ou “... querian cantar” (vide, por exemplo, Pliegos de Praga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT44">1960</xref>, I, folh. V, 33 e Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT07">1945</xref>, fol. 83-90, respectivamente).  </p>
		
		<p>A interpolação surge num poema em que o sujeito, ao proclamar o seu amor como des&#x00ED;gnio vital da sua existência e os favores da senhora como galardão pessoal, apresenta a configuração cancioneiril da figura de Conde Claros, bem expressa no pedido que o amante da balada faz ao pajem, quando espera no c&#x00E1;rcere a execução da sentença por ter privado intimamente com a princesa:  </p>
		
		<p>- Por Dios te ruego, el paje, en amor de caridad, </p>
		
		<p>que vayas a la princesa de mi parte a le rogar </p>
		
		<p>que suplico a su alteza que ella me salga a mirar, </p>
		
		<p>que en la hora de mi muerte yo la pueda contemplar, </p>
		
		<p>que si mis ojos la veen la muerte no me penar&#x00E1; </p>
		
		<p>(Pliegos de Praga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT44">1960</xref>, I, folh. V, 33). </p>
		
		<p>Por outro lado, todos os engastes portugueses da forma – com excepção talvez da que se encontra na Menina e Moça (Michaëlis de Vasconcelos, 1980, 155-158) – aludem ao verso do romance, desde os do Auto do Procurador, do Auto de Rodrigo e Mendo, ao de Ulyssipo, ao do camoniano El Rei Seleuco e ao da composição seiscentista de D. Francisco de Portugal que apresentarei em &#x00FA;ltimo lugar. Claro que nenhum dos dois argumentos nega a possibilidade de Rodrigues de S&#x00E1; ter mencionado as frases proverbiais de Gonzalo Correas, mas a sua articulação leva-me a considerar muito prov&#x00E1;vel a alusão ao romance. </p>
		
		<p>Na versão da balada de um folheto de Praga, a expressão &#x00E9; proferida por duas vezes (com uma pequena variação) pelo arcebispo quando este visita o sobrinho, Conde Claros, no c&#x00E1;rcere e lhe manifesta compreensão pelo delito: </p>
		
		<p>- P&#x00E9;same de vos, el conde, cuanto me pode pesar, </p>
		
		<p>que los yerros con amores dignos son de perdonar. </p>
		
		<p>De vos me pesa, el buen conde, porque ass&#x00ED; os quieren tratar, </p>
		
		<p>que los yerros que heziste dignos son de perdonar. </p>
		
		<p>(Pliegos de Praga, <xref ref-type="bibr" rid="CIT44">1960</xref>, I, folh. V, 33) </p>
		
		<p>Admitindo que João Rodrigues de S&#x00E1; pretendeu aludir à benevolência do cl&#x00E9;rigo e atrav&#x00E9;s dela à figura de amante cancioneiril, o poeta cindiu a f&#x00F3;rmula romanc&#x00ED;stica e reelaborou-a parcialmente com a integração de versos pr&#x00F3;prios (que invocam o motivo dos erros e o utilizam como argumento de benevolência), para expor um contradit&#x00F3;rio com o recurso à auctoritas da expressão po&#x00E9;tica pr&#x00E9;via proferida pelo arcebispo e reiterar a sua profissão amorosa. A recriação, ao contr&#x00E1;rio das anteriores, &#x00E9; desenvolvida em contexto s&#x00E9;rio, mas a alusão suscita igualmente fortes efeitos.  </p>
		
		<p>Finalmente, consideremos a reelaboração desta &#x00FA;ltima expressão romanc&#x00ED;stica sob a mão de D. Francisco de Portugal, para observarmos um exemplo de intervenção po&#x00E9;tica que altera em todos os planos a forma pr&#x00E9;via recorrendo contudo à sua referência. A expressão surge no “Romance XVI” (Portugal, <xref ref-type="bibr" rid="CIT45">1652</xref>, 74-75), que se constituiu a partir não da parcimoniosa utilização do artif&#x00ED;cio, como se verifica suceder anteriormente a este per&#x00ED;odo, mas da exuberância da estrat&#x00E9;gia que, neste fulgor, &#x00E9; bem representativa do seu esgotamento e da enorme voga do Romanceiro Novo. Aparece integrada numa longa cadeia de alusões a diferentes baladas (a qual exige naturalmente estudo pr&#x00F3;prio) e na zona interm&#x00E9;dia de uma s&#x00E9;rie de outras referências a “Conde Claros”. Vejamo-la no contexto do fragmento relacionado com este romance. </p>
		
		<p>Depois de o poema desenvolver um conjunto de advertências e considerações em torno da inconstância amorosa dirigidas ao pensamento autonomizado do sujeito que parte em direcção à dona mobile, diz o seguinte ao seu destinat&#x00E1;rio: </p>
		
		<p>De muger prendada, y noble </p>
		
		<p> quien no havia de confiar? </p>
		
		<p> Bol&#x00F3;os, minti&#x00F3; y dex&#x00F3;os </p>
		
		<p> qual si fuera gavil&#x00E1;n. </p>
		
		<p>Divertida en otros gustos </p>
		
		<p> que hermosa, y falsa estar&#x00E1;! </p>
		
		<p> Sin que en cosa vuestra piense </p>
		
		<p> de placer, o de pesar.  </p>
		
		<p>Tan grandes facilidades </p>
		
		<p> ning&#x00FA;n sagrado hallar&#x00E1;n: </p>
		
		<p> que yerros son solo en amores </p>
		
		<p> indignos de perdonar. </p>
		
		<p>[...] </p>
		
		<p>Muerto en mudanças os lloro </p>
		
		<p> de v&#x00F3;s cien mil veces ay! </p>
		
		<p> Conde Claros de firmezas, </p>
		
		<p> Como podeis reposar? </p>
		
		<p>O verso que associa a senhora à ave altera o discurso do segundo hemist&#x00ED;quio da f&#x00F3;rmula “salto diera de la cama que parece un gavil&#x00E1;n” (Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT07">1945</xref>, fol. 83-90) por uma equivalente, mas transfere o fr&#x00E9;mito er&#x00F3;tico do Conde para a figura feminina. Modificado, explica a causa e caracteriza depreciativamente o comportamento da senhora, assim como implicitamente isenta o amante preterido da responsabilidade pela mudança da senhora. O p&#x00FA;blico de então, conhecedor do tema, não ter&#x00E1; repudiado o deslocamento criativo, uma vez que tamb&#x00E9;m recordava a disposição er&#x00F3;tica da donzela da balada,  </p>
		
		<p>mas dexame ir alos ba&#x00F1;os alos ba&#x00F1;os a ba&#x00F1;ar </p>
		
		<p>cuando yo sea ba&#x00F1;ada estoy a vuestro mandar.  </p>
		
		<p>Compreendeu que ele decorria da perspectiva do novo contexto e percepcionou o seu significado na nova composição, assim como percebeu a alusão ao verso sobre os erros por amor profundamente recriada do ponto de vista discursivo e semântico. A introdução do adv&#x00E9;rbio de exclusão (“solo”) e do prefixo negativo (“indignos”) elevam os devaneios femininos à m&#x00E1;xima imoralidade e retira-os do alcance da magnanimidade transcendente e humana, segundo o t&#x00ED;tulo da obra que acolhe o poema, Divinos e Humanos Versos. O &#x00FA;ltimo engaste da s&#x00E9;rie, que relaciona surpreendentemente o amante com o Conde, tamb&#x00E9;m &#x00E9; realizado atrav&#x00E9;s de dois procedimentos lingu&#x00ED;sticos com significativo efeito. A substituição do voc&#x00E1;bulo “amores” da expressão pr&#x00E9;via, “conde claros con amores no podia reposar”, por “firmezas”, faz recair sobre o persistente amante a intensidade da inquietação er&#x00F3;tica da figura da balada. Ao mesmo tempo, a transformação do verso em forma interrogativa acentua a ang&#x00FA;stia do que não &#x00E9; correspondido na sua constância amorosa. </p>
		
		<p>Os quatro modos de intervenção autoral mais profunda exemplifiquei-os com três interpolações em contexto l&#x00ED;rico e uma em situação dram&#x00E1;tica, sem indicar engastes provenientes de textos em prosa, historiogr&#x00E1;ficos, epistolares ou outros. A amostragem parece an&#x00F3;mala depois de ter afirmado a generalidade do fen&#x00F3;meno alusivo, mas nem a desproporção entre as primeiras e a segunda reflecte a distinta preferência dos dois g&#x00E9;neros pelo romanceiro, nem a falta de engastes em obras em prosa decorre da inexistência de versos de baladas neste tipo de textos. A assimetria entre as incorporações na l&#x00ED;rica e no teatro corresponde à distinta incidência do fen&#x00F3;meno de manipulação discursiva nos dois g&#x00E9;neros, que competem entre si quase em paridade na utilização alusiva das baladas (embora o teatro com ligeira vantagem). A ausência dos &#x00FA;ltimos adv&#x00E9;m do desequil&#x00ED;brio destes face aos anteriores, mas deriva sobretudo da escassez de recriação dos engastes alusivos ao n&#x00ED;vel da linguagem. Nos g&#x00E9;neros em prosa, a evocação &#x00E9; quase sempre realizada mediante a incrustação quase literal dos versos, sendo o novo contexto que dita a reconfiguração do sentido do subtexto – ali&#x00E1;s como frequentemente no teatro. </p>
		
		<p>A intervenção dos dramaturgos nos versos de origem &#x00E9; bem mais expressiva (como vimos e mostram os estudos monogr&#x00E1;ficos citados), mas tamb&#x00E9;m não &#x00E9; proeminente. Como estes autores os utilizaram sobretudo nas suas obras de tem&#x00E1;tica c&#x00F3;mica e preferiram expressões de romances &#x00E9;pico-hist&#x00F3;ricos e cl&#x00E1;ssicos, a introdução de formas po&#x00E9;ticas pouco manipuladas foi artif&#x00ED;cio bastante e eficaz para gerar efeitos burlescos e jocosos, pelo contraste que instaurava. Quando por&#x00E9;m recorreram a versos de baladas novelescas, geralmente recriaram-nos de forma ex&#x00ED;mia no sentido de suscitarem ressonâncias semânticas e po&#x00E9;ticas, como verific&#x00E1;mos no &#x00FA;ltimo exemplo vicentino.  </p>
		
		<p>Os l&#x00ED;ricos submeteram os materiais pr&#x00E9;vios a maior reinvenção criativa pela necessidade de adaptarem f&#x00F3;rmulas de um g&#x00E9;nero de linguagem substantivada (embora, como se sabe, essencialmente figurativa) a um contexto de tonalidade emocional, algumas vezes c&#x00F3;mica, outras s&#x00E9;ria. Por&#x00E9;m, nos casos em que utilizaram versos &#x00E9;pico-hist&#x00F3;ricos com intencionalidade cr&#x00ED;tica e de riso, tamb&#x00E9;m pouco ou nada os alteraram pelo mesmo motivo que os dramaturgos quase não os reelaboraram, segundo vimos nos “Disparates” camonianos e no poema de Francisco Manuel de Melo dirigido a D. João IV – apesar de surgirem casos como o de Pedro de Almeida. </p>
		
		<p>No seu conjunto, as interpolações alusivas referidas ilustram os grandes vectores da diversidade funcional da estrat&#x00E9;gia. Revelam a utilização par&#x00F3;dica com finalidades de cr&#x00ED;tica jocosa e de s&#x00E1;tira de alcance social, militar e pol&#x00ED;tico (caso dos “Disparates seus na &#x00CD;ndia”), assim como o uso em contexto s&#x00E9;rio com a intenção de intensificar conte&#x00FA;dos de &#x00ED;ndole emocional. Boa parte delas exemplifica a função estruturante da alusão romanc&#x00ED;stica na construção de cenas dram&#x00E1;ticas (como a da Com&#x00E9;dia de Rubena), de composições l&#x00ED;ricas (recorde-se a de D. Francisco de Portugal), ou de figuras, como Rubena, o sujeito do poema de João Rodrigues de S&#x00E1; e a inconstante senhora de D. Francisco de Portugal. Algumas demonstram que, no teatro, tanto surgiram integradas no discurso das personagens para impregnar as alocuções de ressonâncias semânticas geralmente hilariantes (lembremos a de Sensualidade), como introduziram momentos musicais com efeitos não meramente est&#x00E9;ticos, segundo se observou na Com&#x00E9;dia de Rubena. Outras ainda reflectem que o artif&#x00ED;cio alusivo acumulou outras funções ret&#x00F3;ricas e argumentativas, nomeadamente a captatio benevolenciae (especialmente o de Ant&#x00F3;nio Prestes) e a auctoritas (em particular, o do poeta humanista João Rodrigues de S&#x00E1;).  </p>
		
		<p>Abeiramo-nos assim da pergunta final sobre o enquadramento po&#x00E9;tico e ideol&#x00F3;gico da alusão a romances. O procedimento reflectiu a persistência do recurso medieval a textos pr&#x00E9;vios memoriais. Como os seus antecessores, os letrados quinhentistas continuaram a utilizar criativamente os corpora partilhados com gente menos instru&#x00ED;da, como alegou, por exemplo, Maxime Chevalier, ao justificar a presença de contos tradicionais em diversas obras de autoria individual (Chevalier, <xref ref-type="bibr" rid="CIT11">1995</xref>, 116-117).  </p>
		
		<p>Mas porque recorreram estes criadores de uma profunda renovação cultural a narrativas po&#x00E9;ticas consideradas por si pr&#x00F3;prios hist&#x00F3;rias em verso muito antigas? Autores como Jorge Ferreira de Vasconcelos e Diogo do Couto manifestaram plena consciência do arca&#x00ED;smo dos cantos a que aludiam, designando-os explicitamente por “Romances Velhos”. Em certa medida, a coexistência do velho e do novo neste per&#x00ED;odo de inovações ter&#x00E1; favorecido a conservação do artif&#x00ED;cio, no entanto o vigor do recurso aponta para novos vectores ideol&#x00F3;gicos e po&#x00E9;ticos. </p>
		
		<p>Por um lado, como bem salientou Margit Frenk na linha de Am&#x00E9;rico Castro (Frenk, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">1997</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="CIT25">2006</xref>), o interesse e gosto erudito renascentista pelos g&#x00E9;neros tradicionais e a utilização (essencialmente aristocr&#x00E1;tica) do legado medieval, tido então por avoengo, correspondeu a um movimento semelhante ao da voga da literatura pastoril, repleta de pastores elegantemente r&#x00FA;sticos. Obedeceu à idealização epocal, de base neoplat&#x00F3;nica, do primitivo e do natural e à consequente valorização de tudo quanto, para a inteligência quinhentista, reservava manifestações do primordial, livre dos v&#x00ED;cios civilizacionais. A descoberta do Novo Mundo, como se sabe, favoreceu o aparecimento de mitos como o da “Idade de Ouro” e do “Bom selvagem” e logicamente, como realçou a especialista, “el aprecio por los brotes del ingenio y la fantas&#x00ED;a del vulgo (refranes, cantares, juegos infantiles). Toda Europa pasa entonces por esa misma experiencia vital” (Frenk, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">1997</xref>, 16).  </p>
		
		<p>Com efeito, muitos autores portugueses manifestaram expressamente o gosto pelas antigas hist&#x00F3;rias em verso mais ou menos ver&#x00ED;dicas e com sabor agrad&#x00E1;vel pela sua simplicidade.  </p>
		
		<p>Jorge Ferreira de Vasconcelos, h&#x00E1; pouco referido, deu eco, na sua Comedia Eufrosina, às palavras de Martin Nucio retomadas por Esteban de N&#x00E1;jera, sobre o apreço geral pelas baladas. Escreveu o impressor de Antu&#x00E9;rpia, a prop&#x00F3;sito do seu Cancionero de romances, “cualquiera persona para su recreaci&#x00F3;n y pasatiempo holgar&#x00ED;a de lo tener, porque la diversidad de historias que hay en &#x00E9;l dichas en metros y con mucha brevedad ser&#x00E1; a todos agradable” (Cancionero de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">1967</xref>). O editor de Zaragoza, pouco depois, utilizou a mesma expressão, serem agrad&#x00E1;veis a “cualquier persona para su recreaci&#x00F3;n y pasatiempo” (Silva de romances, <xref ref-type="bibr" rid="CIT52">1970</xref>, 47). Por seu lado. o dramaturgo português, disse-o atrav&#x00E9;s do cortesão Zel&#x00F3;tipo quando aconselhou bons modelos po&#x00E9;ticos a Cariofilo e destacou os “Romances Velhos, que sam apraziveis” (Vasconcelos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT55">1560</xref>, 173). Como se sabe, neste mesmo fragmento dram&#x00E1;tico, Zel&#x00F3;tipo critica o caudal de glosas de baladas sa&#x00ED;das das mãos de poetastros, mas a referência servia sobretudo para desclassificar a habilidade po&#x00E9;tica do escudeiro, igualando-a à dos versejadores populares que, diz o cortesão aludindo ao local de muitas publicações de romances e glosas, assim ganhavam as suas migalhas montando “tenda em Medina del Campo” (ibidem).  </p>
		
		<p>Tamb&#x00E9;m o sucessor de João de Barros e guardador-mor da Torre do Tombo de Goa deixou v&#x00E1;rios testemunhos deste apreço (Couto, <xref ref-type="bibr" rid="CIT13">1780</xref>). Vale a pena ler um deles, por manifestar a consciência da antiguidade e valia das narrações po&#x00E9;ticas, mas tamb&#x00E9;m por exemplificar a competência epocal de leitura do artif&#x00ED;cio alusivo que expus anteriormente. O fragmento surge depois da referência a uma falsa not&#x00ED;cia sobre o pagamento, feito pelo vice-rei D. Constantino de Bragança, de uma nau mandada construir por si para regressar a Lisboa, utilizando o er&#x00E1;rio real. Diz assim:  </p>
		
		<p>E tanto, que lhe contrafizeram aquelle Romance Velho que diz: Mira Nero de Tarpea a Roma como se ardia em Mira Nero da janella la nave como se hazia. No que não tiveram razão, porque nem a elle lhe cabia tal nome, por ser muito alheio, e differente da sua natureza, nem a sua n&#x00E1;o foi feita com encargos com que outras depois se fizeram por alguns Capitães, nem com os aparelhos e madeiras das ribeiras de ElRey” (Couto, 1783, 433). </p>
		
		<p>Diogo do Couto alongou-se na defesa de D. Constantino, mas como se observa exprimiu consideração por aqueles poemas velhos, nomeadamente pelo romance que j&#x00E1; fora cantado por Sempronio a Calisto (D&#x00ED;az-Mas, <xref ref-type="bibr" rid="CIT19">2006</xref>, 376) e circulava tamb&#x00E9;m em folheto (Rdr&#x00ED;guez Mo&#x00F1;ino, <xref ref-type="bibr" rid="CIT48">1997</xref>, nºs. 629, 664.5, 870 e 1077), distinguindo-o da par&#x00F3;dia feita pelos seus contemporâneos. Al&#x00E9;m disso, como dizia, o histori&#x00F3;grafo expôs claramente a leitura da alusão jocosa, ou seja, da relação criada entre o vice-rei e a figura de Nero com intenção de associar quem teria delapidado a coroa a quem tinha destru&#x00ED;do a cidade imperial. </p>
		
		<p>Não obstante estes exemplos e outros que poderia trazer à colação, o recurso a romances correspondeu tamb&#x00E9;m, num n&#x00FA;mero de casos não menos despiciendo, ao progressivo movimento de des-idealização do universo cavalheiresco de onde provinham os materiais po&#x00E9;ticos que se manifestou, como lembrava Pere Ferr&#x00E9;, na Celestina e no Lazarillo (Ferr&#x00E9;, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">2003</xref>, 97-98), assim como, acrescentemos, no Don Quijote de la Mancha. Segundo se observou em muitas interpolações, a utilização alusiva das baladas foi frequentemente par&#x00F3;dica, reconfigurando em imagem invertida personagens e temas medievais. Ora, que representar&#x00E1; esta estrat&#x00E9;gia criativa senão a profunda reformulação conceptual do legado e a nova ideologia renascentista? </p>
		
		<p>O artif&#x00ED;cio prolongou-se, como vimos, por Seiscentos, como ali&#x00E1;s a utilização de outros materiais de base tradicional, como mostrou recentemente Pedro Serra no seu estudo sobre a interpolação de prov&#x00E9;rbios na obra de D. Francisco Manuel de Melo (Serra, <xref ref-type="bibr" rid="CIT51">2003</xref>, 61-71). O intencional alargamento das letras à burguesia urbana, em boa medida proveniente de meios r&#x00FA;sticos, levou os poetas e dramaturgos a integrarem, nas suas criações, materiais conservados pelo vulgo e a articularem-nos com os eruditos – um procedimento bem conhecido da m&#x00E1;quina po&#x00E9;tica barroca de produção de contradições. No entanto, a estrat&#x00E9;gia alusiva a romances foi cedendo nesta altura ao seu pr&#x00F3;prio esgotamento e dando passo à voga de um tipo de composições que era cada vez menos parecido com os poemas conservados pela mem&#x00F3;ria e cada vez mais brunido pelas agudezas e conceitos engenhosos (Frenk, <xref ref-type="bibr" rid="CIT25">2006</xref>, 77-78). Ser&#x00E1; necess&#x00E1;rio esperar pelo s&#x00E9;culo XIX para os homens de letras redescobrirem o g&#x00E9;nero e utilizarem-no como mat&#x00E9;ria criativa.</p>

					 
		</sec>
		
	</body>

	<back>
	
		<sec id="notas">
			 <title>NOTAS</title>
			 <fn-group>
				<fn id="NOTE01"><label>1</label><p><italic>Vide </italic>a “Advertência Preliminar» escrita em Dezembro de 1909 que abre a colecção dos artigos publicada inicialmente em 1934 e depois em 1980 (p&#x00E1;gina sem numeração).</p></fn>
				<fn id="NOTE02"><label>2</label><p>“Alusões Epistolares Camonianas ao Romanceiro Velho”, <italic>in </italic>Manuel Calder&#x00F3;n (org.), <italic>Homenagem Stephen Reckert</italic>, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (no prelo) e <italic>Romances de tradição antiga: o g&#x00E9;nero e as suas manifestações em Portugal</italic> [Relat&#x00F3;rio referente ao semin&#x00E1;rio Problemas de Literatura Tradicional (Curso de Mestrado em Estudos Portugueses) apresentado no âmbito das provas para acesso ao t&#x00ED;tulo de Agregada no Ramo de Estudos Portugueses, Especialidade em Literatura Tradicional e Oral], Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, p. 81.</p></fn>
				<fn id="NOTE03"><label>3</label><p>O livreiro português apenas suprimiu as duas versões finais da colecção de Antu&#x00E9;rpia, segundo a descrição que Rodr&#x00ED;guez Mo&#x00F1;ino fez desta edição hoje muito rara. Não incluiu “Llanto haze el rey David” e “Con ravia esta el rey David” (Rodr&#x00ED;guez Mo&#x00F1;ino, <xref ref-type="bibr" rid="CIT49">1973</xref>: I, 221-222).</p></fn>
				<fn id="NOTE04"><label>4</label><p>Noutro local, procedi ao estudo desta alusão de Francisco Manuel de Melo: “Entreditos da Corte Amorosa de Dom Gil”, <italic>in Mundo &#x00E9; Com&#x00E9;dia. Actas do</italic> <italic>Congresso Internacional D. Francisco Manuel de Melo </italic>– <italic>Mundo &#x00E9; Com&#x00E9;dia</italic>, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1-3 de Abril de 2009 (no prelo).</p></fn>
			
				
			
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			<title>BIBLIOGRAF&#x00CD;A</title>

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			  <chapter-title>“O sentido de algumas evocações vicentinas a romances velhos” e “Memórias literárias portuguesas de romances sobre a perda de Alhama”</chapter-title> 
			  <source>Portugal e Espanha: Diálogos e Reflexos Literários</source> 
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			  <comment>pp. 11-65 e 67-91</comment>
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			<ref id="CIT02"> 
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			  <comment>(2ª. ed., 1970)</comment>
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			  <chapter-title>A «máquina de gregos e romanos» e as «nossas velhas»</chapter-title>
			  <source>Conversas Civis. Estudos sobre D. Francisco Manuel de Melo</source>
			  <publisher-loc>Salamanca</publisher-loc>
			  <publisher-name>Luso-Española de Ediciones</publisher-name>  
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			  <collab>Silva de Romances</collab> 	  		  
			  <year>1970</year>
			  <source>Silva de romances (Zaragoza, 1550-1551)</source>
			  <comment>ed. y estúdio de Antonio Rodríguez Moñino</comment>
			  <publisher-loc>Zaragoza</publisher-loc>
			  <publisher-name>Cátedra Zaragoza-Ayuntamiento</publisher-name>  
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				  <surname>Storck</surname>
				  <given-names>Wilhelm</given-names>
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			  <year>1885</year>
			  <source>Luis de Camoens Sämmtliche, 6 vols.</source>
			  <publisher-loc>Paderborn</publisher-loc>
			  <publisher-name>Druck und Verlag von Ferdinand Schöningh</publisher-name>  
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				  <surname>Tavares Teixeira</surname>
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			  <year>1906</year>
			  <article-title>Romanceiro transmontano</article-title>
			  <source>Revista Lusitana</source>
			  <volume>IX</volume>
			  <fpage>277</fpage>
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				  <surname>Vasconcelos</surname>
				  <given-names>Jorge Ferreira de</given-names>
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			  <year>1560</year>
			  <source>Comedia Eufrosina. De novo revista &#x0026; em partes acrece[n]tada</source>
			  <publisher-loc>Coimbra</publisher-loc>
			  <publisher-name>João de Barreyra</publisher-name>  
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				  <surname>Vasconcelos</surname>
				  <given-names>Jorge Ferreira de</given-names>
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			  <year>1618</year>
			  <source>Comedia Ulysippo de Jorge Ferreira de Vasconcellos, Nesta segunda impressão apurada, &#x0026; correcta de algus erros da primeira</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>Na Officina de Pedro Craesbeeck</publisher-name>  
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				  <surname>Wolf</surname>
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			  <year>1856</year>
			  <source>Proben portuguiesischer und catalanischer Volksromanzen</source>
			  <publisher-loc>Wien</publisher-loc>
			  <publisher-name>Aus Der Kaiserlich-Koniglichen Hof-Und Staatsdrucherei</publisher-name>  
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					  <surname>Wolf</surname>
					  <given-names>Ferdinand</given-names>
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					  <surname>Hofmann</surname>
					  <given-names>Conrad</given-names>
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			  <year>1856</year>
			  <source>Primavera y Flor de Romances, 2 vols.</source>
			  <publisher-loc>Berlin</publisher-loc>
			  <publisher-name>A. Asher y Comp</publisher-name>  
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