<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD Journal Publishing DTD v3.0 20080202//EN" "journalpublishing3.dtd">
<article article-type="research-article" dtd-version="3.0" xml:lang="pt" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink">


	<front>
		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="publisher-id">Arbor</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>ARBOR Ciencia, Pensamiento y Cultura</journal-title>
				<abbrev-journal-title>Arbor</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="epub">0210-1963</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Consejo Superior de Investigaciones Cient&#x00ED;ficas</publisher-name>
			</publisher>
		</journal-meta>
		<article-meta>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">arbor.2014.766n2005</article-id>
			<article-id pub-id-type="doi">10.3989/arbor.2014.766n2005</article-id>
			 
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
				<subject>HISTORIA, CULTURA Y DEPORTE DE PORTUGAL / HISTORY, CULTURE AND SPORT FROM PORTUGAL</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>	 	 
				
			<title-group>
				<article-title>SINTOMAS DE “REGIONALISMO CR&#x00CD;TICO”: SOBRE O “DECORATIVISMO” NA PINTURA DE AMADEO DE SOUZA CARDOSO</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>SIGNS OF “CRITICAL REGIONALISM”: ON THE “DECORATIVE-STYLE” IN THE  PAINTING OF AMADEO DE SOUZA CARDOSO</trans-title>
				</trans-title-group>
				<alt-title alt-title-type="running-head">REGIONALISMO CR&#x00CD;TICO</alt-title>
			</title-group>
			
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author" corresp="yes"> 
					<name>
					 <surname>Leal</surname>
					 <given-names>Joana Cunha</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="U1"/>
				</contrib>
			</contrib-group>
			
			<aff id="U1">Instituto de Hist&#x00F3;ria da Arte. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Universidade Nova de Lisboa</aff>
			
			<author-notes>
				<corresp id="cor1">e-mail: <email xlink:href="j.cunhaleal@fcsh.unl.pt">j.cunhaleal@fcsh.unl.pt</email>
				</corresp>
			</author-notes>
			
			
			<pub-date pub-type="epub">		<!-- NEW!! -->
				<day>30</day>
				<month>04</month>
				<year>2014</year>
			</pub-date>
			
			
			<pub-date pub-type="collection">
			<year>2014</year>
			</pub-date>
			
			<volume>190</volume>
			<issue>766</issue>
			
			<elocation-id content-type="doi">10.3989/arbor.2014.766n2005</elocation-id>

			 <history>
				<date date-type="received">
					<day>11</day>
					<month>09</month>
					<year>2012</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>08</day>
					<month>10</month>
					<year>2013</year>
				</date>
			 </history>
			 
			<permissions>
				<copyright-statement>&#x00A9; 2014 CSIC</copyright-statement>
				<copyright-year>2014</copyright-year>
				<license license-type="open-access" xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc/3.0/">
					<license-p>Este es un art&#x00ED;culo de acceso abierto distribuido bajo los t&#x00E9;rminos de la licencia Creative Commons Attribution-Non Commercial (by-nc) Spain 3.0.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			
			<abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>Se analiza c&#x00F3;mo la historiograf&#x00ED;a portuguesa dimension&#x00F3; la relaci&#x00F3;n que la pintura de Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918) establece entre las indagaciones internacionales del modernismo y su regional “portugalidad”. Somos conducidos as&#x00ED; a la idea de que el origen portugu&#x00E9;s introduce en la obra de Amadeo, por putativa insuficiencia cultural y est&#x00E9;tica, un ingenuo provincianismo desprovisto de instancia cr&#x00ED;tica. Ese provincianismo lo har&#x00ED;a apropiarse decorativamente de los c&#x00E9;lebres discos simult&#x00E1;neos de Robert Delaunay. Este art&#x00ED;culo pretende discutir esa tesis, procurando demostrar que, lejos de la distorsi&#x00F3;n que se le atribuye, la apropiaci&#x00F3;n “decorativa” que Amadeo hace de ese elemento se inscribe en un plano de resistencia cercano a la idea de “regionalismo cr&#x00ED;tico”. Sobreviene, por fin, la hip&#x00F3;tesis, desarrollada a partir del an&#x00E1;lisis de una tele de 1917, de que la invisibilidad de tales s&#x00ED;ntomas de resistencia sea sobre todo deudora de una perspectiva que asocia el modernismo a la superaci&#x00F3;n de la representaci&#x00F3;n en las artes pl&#x00E1;sticas.</p>
			</abstract>
			
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This article discusses at its outset the way Portuguese art history acknowledged and debated the relation that Amadeo Souza Cardoso’s painting establishes between international modernism and its regional Portuguese provenance. This debate imposed the idea that Amadeo’s national origins brought about, by way of the putative Portuguese disregard of main cultural and aesthetic standards, a trace of provincialism, eventually making his work unable of any critical stance. This provincialism is diagnosed on the basis of Amadeo’s decorative appropriation of Robert Delaunay’s simultaneous color circles. This article discusses this thesis, demonstrating that, far from the reactionary drive associated to it, Amadeo’s decorative interpretation of such element must, instead, be understood as a symptom of resistance, one that can be acknowledged as approaching the idea of “critical regionalism”. A final hypothesis suggests that the invisibility of this symptom arises from a perspective that associates modernism to the overcoming of representation in art.</p>
			</trans-abstract>
			
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>PALABRAS CLAVE</title>
				<kwd>Modernismo</kwd>
				<kwd>provincianismo</kwd>
				<kwd>decorativismo</kwd>
				<kwd>regionalismo cr&#x00ED;tico</kwd>
				<kwd>historiograf&#x00ED;a del arte</kwd>
			</kwd-group>
			
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>KEYWORDS</title>
				<kwd>Modernism</kwd>
				<kwd>Provincialism</kwd>
				<kwd>Decorativeness</kwd>
				<kwd>Critical Regionalism</kwd>
				<kwd>Historiography (of Art History)</kwd>
			</kwd-group>
		</article-meta>
	</front>		
	

	<body>
	
		<sec id="S0">
		<title></title>
		
		<p>“La estrategia fundamental del regionalismo critico consiste en reconciliar el impacto de la civilizacion universal con elementos
derivados indirectamente de las peculiaridades de un lugar concreto.</p>
		<p>De lo dicho resulta claro que el regionalismo critico depende del mantenimiento de un alto nivel de autoconciencia critica.”</p>
		<p>(Frampton, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">1985</xref>, 44)</p>
		
		</sec>
				
		
		<sec id="S1">
		<title>I. </title>
		
		<p>Trazer um conceito da teoria e da cultura arquitect&#x00F3;nica, como o de “regionalismo cr&#x00ED;tico”, para a an&#x00E1;lise da obra de Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918)<xref ref-type="fn" rid="NOTE01">1</xref>, surge neste artigo como um pretexto para revisitar a obra do pintor, sem d&#x00FA;vida um dos mais relevantes do modernismo português<xref ref-type="fn" rid="NOTE02">2</xref>. A proposta que aqui faço não visa a discussão sobre o alcance e a propriedade do uso desse conceito fora do campo da arquitectura. Ela &#x00E9; antes motivada pelo que creio ser uma necess&#x00E1;ria revisitação dos debates em torno da obra de Amadeo, especialmente da que produziu em Portugal nos &#x00FA;ltimos anos da sua vida. Ou seja, as telas que pintou entre o deflagrar da 1ª Guerra Mundial (que o impediu de regressar a Paris, onde se estabelecera desde 1907) e as v&#x00E9;speras do Armist&#x00ED;cio de 1918 (Amadeo morreu em Espinho cerca de um mês antes do termo da Guerra).  </p>
		
		<p>Os anos da Guerra são reconhecidos como anos-chave na produção de Amadeo de Souza Cardoso. J.-A. França d&#x00E1; conta, no estudo inaugural que dedicou ao pintor em 1957, de que esse momento corresponde a uma quebra radical na dinâmica das relações que mantinha em Paris, e que desse centro irradiavam para o resto da Europa e para os Estados Unidos (cf. Silver, <xref ref-type="bibr" rid="CIT29">1999</xref>, 51-59). Sublinha, no entanto, que “o fio das experiências” não foi interrompido<xref ref-type="fn" rid="NOTE03">3</xref>. Mais recentemente, M. Helena de Freitas acentua o facto de o pintor ter encontrado uma compensação no “virar de p&#x00E1;gina” que a Guerra representou: </p>
		
		<p>“A abafar dentro dos limites geogr&#x00E1;ficos impostos pelas suas montanhas e no contexto do arrefecimento mundano provocado pelo horror da guerra, Amadeo concentra-se na sua pintura. &#x00C9; na produção realizada a partir de então que lhe podemos reconhecer maior energia e criatividade individual” (Freitas, <xref ref-type="bibr" rid="CIT14">2006</xref>, 53) </p>
		
		<p> Precisamente nestes anos Amadeo far&#x00E1; as suas &#x00FA;nicas exposições individuais, mostrando os seus trabalhos, em Dezembro de 1916, no Porto, e depois em Lisboa, no Salão da Liga Naval. Finalmente, e este ser&#x00E1; um dado central para a discussão que pretendo desenvolver, este foi tamb&#x00E9;m o per&#x00ED;odo de uma intensa relação com Robert e Sonia Delaunay. Como bem se conhece, a permanência de Amadeo entre a quinta de Manhufe e a praia de Espinho não correspondeu exactamente a um retiro cartuxo. O seu isolamento foi largamente quebrado pelo contacto com os Delaunay que, em 1915, a Guerra fizera tamb&#x00E9;m aportar a Lisboa e fixar-se em Vila do Conde. O c&#x00ED;rculo das relações de Amadeo recuperou, por essa via, o pintor português Eduardo Viana e em breve se alargaria a Almada Negreiros<xref ref-type="fn" rid="NOTE04">4</xref>, tendo este n&#x00FA;cleo de amizades gerado diversos projectos. O mais relevante desses projectos seria a ideia de uma <italic>Corporation Nouvelle</italic> destinada a promover exposições internacionais itinerantes onde o trabalho dos pintores portugueses e dos Delaunay seria acompanhado pela poesia de Apollinaire e Blaise Cendrars (cf. Ferreira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">1972</xref> e O’Neill, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">1999</xref>, 61-77).  </p>
		
		<p>As expectativas do pintor nesses anos voltaram-se igualmente para a criação de uma obra que, com Sonia e à semelhança do que esta j&#x00E1; criara para a <italic>Prosa do Transiberiano</italic>, acompanhasse a poesia de Cendrars (cf. Ferreira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">1972</xref>).  </p>
		
		<p>Tais projectos nunca chegaram a concretizar-se, deixando Amadeo insatisfeito com a falta de interesse do casal Delaunay para levar a bom termo estas iniciativas conjuntas. Especialmente castigador foi o incumprimento da exposição do colectivo da <italic>Corporation Nouvelle</italic> agendada para Barcelona, para a qual Amadeo chegara a enviar uma s&#x00E9;rie de telas aos Delaunay. Como sintetisa Rosemary O’Neill: </p>
		
		<p>“In a series of letters in May 1916, Souza Cardoso urged the Delaunays to exhibit in Barcelona. He sent five of his works to them in Vigo on 13 May in hopes the exhibition would be realized (…). But Sonia and Robert Delaunay had already sent their works in April to Stockholm for an exhibition at the Nya Konstgalleriet. Over the next two months, Souza Cardoso pressed them to return his works if the exhibition in Barcelona proved unfeasible. Souza Cardoso acknowledge the return of his paintings in a letter dated 11 July 1916, but this incident strained their friendship.” (O’Neill, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">1999</xref>, 75-76).  </p>
		
		</sec>
		
		
		<sec id="S2">
		<title>II. </title>
		
		<p>Os sintomas de “regionalismo cr&#x00ED;tico” que trago para t&#x00ED;tulo deste artigo apelam à observação e discussão de um outro problema, que vem a ser o da relação, o do encontro-confronto, entre as pesquisas internacionais do modernismo que Amadeo acompanhou, e a referência ao seu remoto lugar de pertença, ou seja à sua regional “portugalidade”. Esta questão &#x00E9;, como veremos, central num dos debates mais s&#x00E9;rios que sobre a pintura de Amadeo se fez<xref ref-type="fn" rid="NOTE05">5</xref>. Protagonizado por J.-A. França, esse debate reporta-nos à ideia de que origem portuguesa introduz na obra de Amadeo, por insuficiência cultural e est&#x00E9;tica, um ing&#x00E9;nuo provincianismo desprovido de instância cr&#x00ED;tica. Esse provincianismo f&#x00E1;-lo-ia apropriar-se de elementos centrais da pintura de Robert Delaunay, concretamente os discos simultâneos, decorativamente. </p>
		
		<p>Este artigo pretende discutir essa tese, procurando demonstrar que, longe do reaccionarismo que França lhe atribui<xref ref-type="fn" rid="NOTE06">6</xref>, a apropriação que Amadeo faz desse elemento se inscreve num plano de resistência aproxim&#x00E1;vel da ideia de regionalismo cr&#x00ED;tico<xref ref-type="fn" rid="NOTE07">7</xref>. Esta discussão não partir&#x00E1;, por isso, das representações do colorido folclore minhoto que povoam as telas de Amadeo e deram margem à elevação da sua pintura no quadro  da pol&#x00ED;tica cultural do Estado Novo. &#x00C9; que, como desde logo adverte Kenneth Frampton, h&#x00E1; que distinguir a perspectiva do regionalismo cr&#x00ED;tico das f&#x00F3;rmulas de gratificação garantidas do populismo, ou nas suas palavras: </p>
		
		<p>“es necesario distinguir entre el regionalismo critico y los ingenuos intentos de revivir las formas hipot&#x00E9;ticas de los elementos locales perdidos. El principal vehiculo del populismo, en distinci&#x00F3;n por contraste con el regionalismo cr&#x00ED;tico, es el signo comunicativo o instrumental. Este signo trata de evocar no una percepci&#x00F3;n cr&#x00ED;tica de la realidad, sino m&#x00E1;s bien la sublimaci&#x00F3;n de un deseo de experiencia directa a trav&#x00E9;s del suministro de informaci&#x00F3;n. Su objetivo t&#x00E1;ctico es conseguir, de la manera m&#x00E1;s econ&#x00F3;mica posible, un nivel preconcebido de gratificaci&#x00F3;n en t&#x00E9;rminos de comportamiento. A este respecto, la fuerte atracci&#x00F3;n del populismo por las t&#x00E9;cnicas ret&#x00F3;ricas y la imaginer&#x00ED;a de la publicidad no es en modo alguno accidental. A menos que uno se proteja contra semejante contingencia, confundir&#x00E1; la capacidad de resistencia de una practica cr&#x00ED;tica con las tendencias demag&#x00F3;gicas del populismo.” (Frampton, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">1985</xref>, 44-45) </p>
		
		<p>Vejamos então os termos da questão. </p>
		
		<p>Quando, na d&#x00E9;cada de 1960, Jos&#x00E9;-Augusto França lança a discussão sobre a “portugalidade” de Amadeo f&#x00E1;-lo assumindo uma cuidadosa distância em relação à sua apropriação pelo Regime. As suas considerações tomam como ponto de partida a apreciação que, em 1925, Ant&#x00F3;nio Ferro (o futuro respons&#x00E1;vel pela pol&#x00ED;tica cultural do regime de Salazar) fez da sua obra. Nas palavras de Ferro, Amadeo &#x00E9; “o grande percursor” que, tendo tomado “a s&#x00E9;rio” o cubismo em 1912 “Nunca deixou de ser português. Atrav&#x00E9;s da geometria intencional dos seus quadros, atrav&#x00E9;s do colorido berrante da sua arte, adivinhava-se Portugal, o alegre Portugal das Romarias, dos bairros populares, do c&#x00E9;u azul, dos trajos festivos…” (Ferro, <xref ref-type="bibr" rid="CIT07">1925</xref>)<xref ref-type="fn" rid="NOTE08">8</xref> </p>
		
		<p>A resposta de França à versão populista da portugalidade de Amadeo &#x00E9; largamente enfatizada na 3ª edição do estudo pioneiro que dedicou ao pintor e que surge com o t&#x00ED;tulo Amadeo de Souza-Cardoso: o português à força<xref ref-type="fn" rid="NOTE09">9</xref>. França consolidava assim o seu distanciamento em relação ao “nacionalismo caseiro que a certa altura (…) pretendeu tomar Amadeo à sua conta”, e que encontrava “at&#x00E9;, nas palavras de Almada Negreiros (…), achando que toda a sua arte reflecte o seu rincão natal”. A ser português, Amadeo s&#x00F3; o poderia ter sido “à força”, no quadro da leitura alimentada pela “imag&#x00ED;stica oficiosa” do Regime de Salazar (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 14-15). </p>
		
		<p>Mas o estudo de França vai mais longe. Para o historiador, a questão da portugalidade de Amadeo não se detinha realmente na percepção da sua obra como representando signos de identidade (conte&#x00FA;dos populares, colorido berrante) que o Regime convertera alegremente numa narrativa nacionalista. Tal como vinha sendo formulado desde os anos 1960, o problema ganha uma dimensão mais profunda, estruturante, que implicava sobretudo reconhecer a “portugalidade” de Amadeo como introduzindo uma importante falha no seu projecto pict&#x00F3;rico. Como antecipei, Amadeo seria português graças à manifesta e fatal incapacidade de superar a sua pertença regional, o seu provincianismo<xref ref-type="fn" rid="NOTE10">10</xref>. França sublinha, pois, a ideia de que o pintor não cumpriu a expectativa que o seu percurso internacional legitimara<xref ref-type="fn" rid="NOTE11">11</xref>. Os eixos centrais desta tese surgiam j&#x00E1; bem identificados nas p&#x00E1;ginas da revista Col&#x00F3;quio: revista de artes e letras (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT11">1968</xref>, 17-20) e são plenamentamente desenvolvidos na 2ª edição do estudo que dedica a Amadeo, publicada então com o t&#x00ED;tulo Amadeo ou o S&#x00E9;culo XX (1972). Est&#x00E1;vamos j&#x00E1; longe das primeiras leituras da obra de Amadeo como “1ª descoberta de Portugal no s&#x00E9;culo XX”<xref ref-type="fn" rid="NOTE12">12</xref>, essas mesmas que tinham autorizado a apresentação do pintor como representante &#x00FA;nico de “uma modernidade autêntica, quer dizer, como consciência pictural ajustada às exigências da contemporaneidade”<xref ref-type="fn" rid="NOTE13">13</xref> e que continuarão a ecoar na historiografia posterior. </p>
		
		<p>A tese da falha de Amadeo domina o &#x00FA;ltimo cap&#x00ED;tulo das reedições do estudo que venho citando. Nele o historiador ultrapassa a s&#x00ED;ntese do debate feita em 1968, para dar à questão uma dimensão hist&#x00F3;rica mais aprofundada e agravar o tom da sua cr&#x00ED;tica. Neste cap&#x00ED;tulo, intitulado “Amadeo ou a Lenda da Arte Moderna Portuguesa”, França abre interrogações centrais: “Poder-se-&#x00E1; a prop&#x00F3;sito [de Amadeo] falar dum evolutivo ‘cubismo português’ (…)?” e “Esse cubismo ‘a posteriori’, que cubismo realmente foi? Que dose de inspiração portuguesa, mesmo que posta em marcha pelos Delaunays das feiras e naturezas-mortas minhotas, nele entrou em cores, desordem e alguma poss&#x00ED;vel alegria de f&#x00E9;rias, embora forçadas?” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 144). </p>
		
		<p>Para o historiador a conclusão &#x00E9; clara: </p>
		
		<p> “Nacionalizar parcelarmente um movimento est&#x00E9;tico &#x00E9; reduzi-lo num processo de adjectivação que ele deve repudiar para se definir; mas verdade &#x00E9; que cada cultura tem jeitos nacionais que se impõem na franja “kitsch” que lhe &#x00E9; reservada com maior ou menor gosto, sensibilidade e inteligência. Assim em termos met&#x00F3;dicos de hip&#x00F3;tese, se pode admitir que se passou com o cubismo que, a certa altura, Amadeo praticou.” (Idem) </p>
		
		<p>França classifica o encontro de Amadeo com os desenvolvimentos internacionais do cubismo como uma apropriação defeituosa, incompleta e justific&#x00E1;vel pela inadequação gen&#x00E9;tica de uma posição perif&#x00E9;rica, regional, em relação ao lugar central, justo, que outros pintores ocupariam (estranhamente Juan Gris &#x00E9; um exemplo mencionado). Esta sua perspectiva est&#x00E1; directamente associada ao perfil assim&#x00E9;trico que atribui à relação de Amadeo com os Delaunay, muito particulamente com Robert Delaunay. Esta assimetria &#x00E9; um dado fundamental no argumento que aqui me proponho desenvolver a partir da an&#x00E1;lise que França faz da apropriação por Amadeo dos c&#x00E9;lebres discos &#x00F3;rficos. </p>
		
		<p>Na narrativa de J.-A. França, a obra de Robert Delaunay &#x00E9; apresentada como territ&#x00F3;rio de pesquisas pict&#x00F3;ricas centrais (geogr&#x00E1;fica, hist&#x00F3;rica e esteticamente falando), pesquisas que a apropriação perif&#x00E9;rica, kitsch, estaria destinada a distorcer, como acontece no caso da obra de Amadeo (mas tamb&#x00E9;m, como acabar&#x00E1; por reconhecer, no caso de Sonia Delaunay). E o primeiro sinal dessa distorção surge logo em 1913, ano em que Amadeo conheceu os Delaunay: as telas abstractas que então pintou – “meia d&#x00FA;zia de obras em que a cor vivia exaltadamente” – ecoam j&#x00E1; as “ideias picturais” do pintor francês, e incorporam pela primeira vez os seus discos, mas não atingem as suas “reverberações luminosas” (e bem, o valor est&#x00E9;tico que reconhece a estes &#x00FA;ltimos)<xref ref-type="fn" rid="NOTE14">14</xref>. </p>
		
		<p>Essa aproximação à “via delaunayana” viria a ser retomada por Amadeo no per&#x00ED;odo de comunhão do ex&#x00ED;lio da Guerra no Norte de Portugal. &#x00C9; a partir de 1915 que os discos simultâneos entram em força na sua pintura. J.-A. França d&#x00E1; bem conta desta assimilação, chamando desde logo a nossa atenção para os “v&#x00E1;rios graus de uso e de significado compositivo” que os discos vão adquirindo nas sucessivas telas de Amadeo: “Quadro a quadro, (…) os ‘discos’ [inserem]-se nas composições, pontuando-as com a sua vibração crom&#x00E1;tica, assim intervindo na unidade e na variedade da figuração. Enfeite de avental ou articulação de braço, alvo ou sinal no espaço” eles vão povoando os trabalhos, assumindo sempre, e isto &#x00E9; absolutamente fundamental, uma dimensão, um car&#x00E1;cter, que classifica como decorativo (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 139). </p>
		
		<p>O termo decorativo vem, na tradição historiogr&#x00E1;fica de J.-A. França, impregnado do sentido pejorativo que o projecto da Arquitectura Moderna muito contribuiu para consolidar, mas que sobressai, logo em 1912, na versão que Gleizes e Metzinger dão do pr&#x00F3;prio cubismo, ao tomar o trabalho decorativo como ant&#x00ED;tese da pintura<xref ref-type="fn" rid="NOTE15">15</xref>. Entende França que nas telas de Amadeo os discos adquiriram um estatuto decorativo – i.e. dependente ou ao serviço do que por meio deles se representa: avental ou articulação de braço, alvo ou sinal no espaço – em oposição à situação funcional-estrutural, entendida como estritamente auto-referencial, que atribui aos originais de Delaunay, “fisicamente agenciados para traduzir uma an&#x00E1;lise espectral da luz” (Idem)<xref ref-type="fn" rid="NOTE16">16</xref>. Essa oposição &#x00E9;, crê, assim&#x00E9;trica. Ou seja, trata-se antes do mais de um “deslizamento de funções” que J.-A. França &#x00E9; muit&#x00ED;ssimo eficaz em elucidar: </p>
		
		<p>“Assim se verifica um deslizamento de funções, senão uma contradição delas: aquilo que era, por via da luz-agente, essencial à composição, seu elemento estrutural, passou a ser, quando a luz deixa de ter papel no quadro, seu elemento decorativo. O “disco” de Delaunay, patenteado no âmbito de uma determinada diligência pictural, viu-se perdido ou achado em outra situação que dele fazia outra coisa.” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 139) </p>
		
		<p>Semelhante deslizamento &#x00E9; equacionado no âmbito de uma moldura cr&#x00ED;tica talhada não s&#x00F3; para distinguir a função estrutural da decorativa (i.e. suplementar, adicional), mas tamb&#x00E9;m para valorizar a primeira e desvalorizar a segunda, numa elaboração discursiva que joga a l&#x00F3;gica bipolarizadora de oposições “cl&#x00E1;ssicas” como profundo/superficial, estrutural/decorativo (ou ornamental) ou original/c&#x00F3;pia (e que se estende ainda, noutros contextos, por exemplo, à distinção entre forma/mat&#x00E9;ria ou forma/conte&#x00FA;do). Donde, e necessariamente, a apropriação que Amadeo faz dos discos delaunayianos est&#x00E1; situada no p&#x00F3;lo negativo do par e o seu deslizamento &#x00E9;, seguindo o mote, descendente. O que aparentemente poderia minorar a derrocada total de Amadeo acresce, afinal, para França, à falha irremedi&#x00E1;vel do seu projecto pict&#x00F3;rico. &#x00C9; que Amadeo não teve consciência desse deslizamento por “superficialidade de acção”, ou nas palavras do historiador: </p>
		
		<p>“Amadeo não teve, com certeza, consciência disso: o entorce fundamental que imprimiu a um elemento gramatical, subordinando-o a um outro jogo semântico, foi-lhe indiferente, na medida em que não precisava dele tal como o seu mestre ocasional precisava. Por superficialidade de acção? Sem d&#x00FA;vida – mas, não lhe sendo pr&#x00F3;pria aquela que Delaunay definia e realizava, como censurar-lhe o procedimento? Na verdade Amadeo limitou-se a fazer seu um bem alheio, sem esp&#x00ED;rito de disc&#x00ED;pulo como sem pl&#x00E1;gio. E não foi o &#x00FA;nico a fazer assim.” (Idem)<xref ref-type="fn" rid="NOTE17">17</xref></p>
		
		<p>&#x00C9; então que, seguindo a mesma l&#x00F3;gica antin&#x00F3;mica, reencontramos em força o argumento da oposição centro/periferia, o argumento que contrasta a inadequação da proveniência regional de Amadeo ao lugar central das pesquisas que um pintor como Robert Delaunay legitimamente asseguraria e que o distancia tanto do pintor português, quanto, crê França, do trabalho de sua mulher S&#x00F3;nia (cuja origem “russa” &#x00E9; então sublinhada): “O que aconteceu foi, imediatamente, uma coisa muito simples: ser francês Delaunay e não o ser qualquer dos outros…” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 140)<xref ref-type="fn" rid="NOTE18">18</xref>. </p>
		
		<p>Assim justifica J.-A. França a maior proximidade de S&#x00F3;nia com os artistas portugueses (que para al&#x00E9;m de Amadeo inclu&#x00ED;am, em estreita proximidade, Eduardo Viana): alheios ao “luminismo pr&#x00F3;prio de Delaunay”, souberam acordar o “valor decorativo dos ‘discos’ (…) com certo gosto nacional, dum folclore alto de cores, onde vibravam ainda lembranças de bailados, passados dos anos de antes da guerra para os do p&#x00F3;s-guerra (…) que, de um modo ou de outro, o ‘disco’-sinal simbolizava, em gestos de ‘sport’ ou de aviação…”<xref ref-type="fn" rid="NOTE19">19</xref></p>
		
		<p>Como j&#x00E1; se adiantou, não foi a valorização de referentes nacionais, como o colorido do folclore, que França converteu em motivo de an&#x00E1;lise e discussão na obra de Amadeo. Antes, o “portuguesismo” de Amadeo revelaria um desajustamento estrutural (ou mesmo orgânico) da sua pr&#x00E1;tica pict&#x00F3;rica, particularmente agravado pela superficial e desmedida ambição do pintor. Assim, o trabalho de Amadeo &#x00E9; contrastado com a genuinidade do compromisso naturalista, e com a mod&#x00E9;stia certeira, que o historiador encontra na obra de Eduardo Viana<xref ref-type="fn" rid="NOTE20">20</xref>, tal como &#x00E9; contrastado, no p&#x00F3;lo oposto, como vimos, com a modernidade estruturada e s&#x00F3;lida que encontrara em Robert Delaunay. No primeiro caso, Amadeo estaria “fora de jogo” por conta da sua formação parisiense e da sua ambição desmedida, no segundo por irremedi&#x00E1;vel “insuficiência portuguesa”. Voltamos pois ao in&#x00ED;cio, porque o decorativismo dos discos de Amadeo encontraria, como vimos, a sua raiz na incapacidade do pintor em superar a sua pertença regional. </p>
		
		<p>Uma &#x00FA;ltima nota “encerra” a cr&#x00ED;tica de J.-A. França: o facto desse decorativismo, em toda a sua superficialidade, com todo o grau de inconsciência pict&#x00F3;rica que o historiador lhe atribui, justificar igualmente a incessante experimentação do pintor. A voragem com que Amadeo aborda diferentes propostas pict&#x00F3;ricas – &#x00E9; c&#x00E9;lebre a f&#x00F3;rmula como se apresenta na entrevista ao jornal O Dia de 4 de Dezembro de 1916: “Impressionista, cubista, futurista, abstraccionista? De tudo um pouco.” – sem de qualquer delas retirar a possibilidade de construção de uma (putativamente desej&#x00E1;vel) coerência est&#x00E9;tica ou de inscrição num (putativamente existente) discurso interno da pintura, &#x00E9; lida como uma rendição à “admiração exterior”, ou “espanto provinciano” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT11">1968</xref>, 19). Como escreve: </p>
		
		<p>“O ritmo desta evolução de Amadeo pelas etapas da pintura ocidental não pode deixar de nos preocupar. Ela traduz, sem d&#x00FA;vida, uma ambição, mesmo uma avidez que &#x00E9; contr&#x00E1;ria a grande empenho de consciência est&#x00E9;tica. Se isso &#x00E9; inegavelmente, uma caracter&#x00ED;stica do pr&#x00F3;prio artista (e cada qual &#x00E9; como &#x00E9;…), pode tamb&#x00E9;m ser tomado como uma caracter&#x00ED;stica de pintor português então subitamente lançado nas encruzilhadas da modernidade, sem preparação anterior, sem ‘tempo’ pr&#x00F3;prio que o proteja de uma admiração exterior – senão de um espanto provinciano.” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 141) </p>
		
		<p>Imposs&#x00ED;vel ler estas palavras sem as remeter para Fernando Pessoa quando declara, em 1928, o provincianismo como “mal superior português” e o define como consistindo “em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.” (Pessoa, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2001</xref> [1928], 371)<xref ref-type="fn" rid="NOTE21">21</xref>. Pessoa esclarece ainda os três sintomas flagrantes do provinciano: “o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade; e na esfera mental superior, a incapacidade da ironia.” </p>
		
		</sec>
		
		<sec id="S3">
		<title>III. </title>
		
		<p>O enquadramento cr&#x00ED;tico que J.-A. França d&#x00E1; à obra de Amadeo (reitero aqui que França &#x00E9;, de entre os historiadores da arte portugueses, um dos que mais profundamente olhou e debateu a obra deste pintor) foi directamente questionado, pela primeira vez, por Eduardo Lourenço. Ainda que brevemente, o autor de <italic>O Labirinto da Saudade</italic> discutiu a tese da falha de Amadeo, do “reflexo arqu&#x00E9;tipo de Amadeo”, num pequeno ensaio que permaneceu in&#x00E9;dito at&#x00E9; 1981, intitulado “Os c&#x00ED;rculos dos Delaunay ou o estatuto da nossa pintura” (Lourenço, <xref ref-type="bibr" rid="CIT20">1981</xref>, 127-137). O texto remete-nos para a tese da “apropriação de uma t&#x00E9;cnica e de um motivo sem a motivação” por parte do pintor português, mas f&#x00E1;-lo introduzindo uma interrogação necess&#x00E1;ria à sua (ainda t&#x00ED;mida) problematização: </p>
		
		<p>“Mais do que uma secreta impotência, estar&#x00E1; eivado o nosso reflexo pictural pr&#x00F3;prio de algum v&#x00ED;cio estrutural ou ser&#x00E1; antes a leitura discut&#x00ED;vel da nossa produção art&#x00ED;stica (e cultural) que nos inculca a ideia do seu car&#x00E1;cter marginalizante? A &#x00F3;ptica com que nos julgamos parece não deixar ou consentir ilusões: &#x00E9; sempre de um ponto ideal, extr&#x00ED;nseco à nossa aventura hist&#x00F3;rica espec&#x00ED;fica que a mais dinâmica cr&#x00ED;tica de arte se situa para apreciar e situar as propostas sucessivas da nossa Pintura.” (Idem, 133) </p>
		
		<p>Esta ideia de que poder&#x00E1; haver uma “leitura discut&#x00ED;vel” da nossa produção art&#x00ED;stica, de que estamos presos a uma perspectiva que não nos permite ilusões porque corresponde invariavelmente a um ponto de vista ideal e externo, foi trabalhada nos anos 1990 para o largo espectro da cultura portuguesa por Boaventura Sousa Santos<xref ref-type="fn" rid="NOTE22">22</xref>: </p>
		
		<p>“Na ausência de adequada inovação te&#x00F3;rica, corre-se o risco de analisar a sociedade portuguesa pela negativa, por aquilo que ela não tem quando comparada quer com as sociedades centrais, quer com as sociedades perif&#x00E9;ricas. Tal negatividade &#x00E9; uma outra forma de desconhecimento e por isso tamb&#x00E9;m campo f&#x00E9;rtil de an&#x00E1;lises m&#x00ED;ticas e estipulações de exotismo, que são neste caso feitas da inadequação dos instrumentos anal&#x00ED;ticos” (Santos , <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1994</xref>, 53) </p>
		
		<p>No campo da historiografia da arte esta advertência tem sido ignorada. Como esclarece Mariana Pinto dos Santos, o discurso historiogr&#x00E1;fico português tem-se pautado por duas posturas s&#x00F3; superficialmente antag&#x00F3;nicas: </p>
		
		<p>“a que afirma um atraso cr&#x00F3;nico na arte portuguesa e a que afirma uma especificidade na arte portuguesa. S&#x00F3; na aparência são antag&#x00F3;nicas porque na verdade justificam-se e alimentam-se uma à outra: caricaturizando, a arte est&#x00E1; atrasada, logo estamos isolados ou à parte do centro onde tudo anda sobre rodas numa evolução perfeita, esse isolamento torna a nossa arte especial e com caracter&#x00ED;sticas essenciais, que por vezes at&#x00E9; produzem epifen&#x00F3;menos equipar&#x00E1;veis ou mesmo precursores do que se passa l&#x00E1; fora (…). Subjacentes a estas posturas permanece um modelo operativo de hist&#x00F3;ria enquanto evolução linear. Um modelo actualmente sujeito a problematização em introduções, mas sem que esta se reflicta no trabalho historiogr&#x00E1;fico propriamente dito.” (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT27">2010</xref>) </p>
		
		<p>Esta articulação entre o atraso provinciano e a especificidade portuguesa ganhou, apesar de tudo, no discurso de J.-A. França sobre a obra Amadeo de Souza Cardoso uma espessura dada pela leitura formal das obras e pelo seu empenho em discutir o enquadramento, ou desenquadramento, estil&#x00ED;stico da sua pintura. Como vimos, França segue uma l&#x00F3;gica bipolarizadora que assentou os seus pressupostos cr&#x00ED;ticos na desvalorização do uso decorativo que Amadeo faz dos discos &#x00F3;rficos de Robert Delaunay. Para França, como tamb&#x00E9;m vimos, Amadeo incorreu no provincianismo definido por Fernando Pessoa, ou seja, a relação assim&#x00E9;trica que teria establecido com a obra de Delaunay elucidaria o facto de “pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela” (Pessoa, <xref ref-type="bibr" rid="CIT24">2001</xref> [1928], 371). </p>
		
		<p>&#x00C9; precisamente a ideia da assimetria desta relação que importa aqui desmontar (1) num plano hist&#x00F3;rico, mais gen&#x00E9;rico, discutindo para tanto a hip&#x00F3;tese de Boaventura de Sousa Santos, e (2) num plano pict&#x00F3;rico, recorrendo para tanto à leitura de uma das obras mais emblem&#x00E1;ticas da produção tardia de Amadeo – Entrada, 1917 (obra que venho mantendo sob observação continuada e, por assim dizer, privilegiada). </p>
		
		<p>A trabalho de Boaventura Sousa Santos opera no sentido de desmistificar a pertença regional portuguesa, seja na versão periferização e do atraso, assumida at&#x00E9; às &#x00FA;ltimas consequências pela formulação de França, seja na versão de uma mitificada psicologia nacional<xref ref-type="fn" rid="NOTE23">23</xref>. A sua hip&#x00F3;tese de trabalho assenta na ideia de que “a cultura portuguesa &#x00E9; uma cultura de fronteira” </p>
		
		<p>“não porque para al&#x00E9;m de n&#x00F3;s se conceba o vazio, uma terra de ningu&#x00E9;m, mas porque de algum modo o vazio est&#x00E1; do lado de c&#x00E1; (…). E &#x00E9; por isso que no nosso trajecto hist&#x00F3;rico cultural da modernidade fomos tanto o Europeu como o selvagem, tanto o colonizador como o emigrante. A zona de fronteira &#x00E9; uma zona h&#x00ED;brida, bab&#x00E9;lica, onde os contactos se pulverizam e se ordenam segundo micro-hierarquias pouco suscept&#x00ED;veis de globalização. Em tal zona são imensas as possibilidades de identificação e de criação cultural, todas igualmente superficiais e igualmente subvert&#x00ED;veis (…)” (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1994</xref>, 134)<xref ref-type="fn" rid="NOTE24">24</xref></p>
		
		<p>A fronteira oferece um espaço-tempo de negociação, male&#x00E1;vel, que confere à cultura portuguesa “um enorme cosmopolitismo”, precisamente porque a ausência de um centro identific&#x00E1;vel nos permeabiliza, impedindo, e aqui chego a um ponto fundamental, a consolidação do provincianismo que s&#x00F3; uma homogeneização pode garantir<xref ref-type="fn" rid="NOTE25">25</xref>. Esta proposta &#x00E9; contr&#x00E1;ria à definição pessoana do provincianismo como “mal superior português” que J.-A. França acarinhou. O pr&#x00F3;prio autor nos d&#x00E1; conta do seu desacordo com a tese de Fernando Pessoa porque, sendo embora a descrição do “sintoma” exacta em termos gerais, ela não se acorda com a dimensão fronteiriça da cultura portuguesa. “Em meu entender”, escreve Boaventura Sousa Santos, </p>
		
		<p> “o elemento barroco da cultura portuguesa faz com que a mimesis da ‘civilização superior’ ocorra sempre com uma distância l&#x00FA;dica e um esp&#x00ED;rito de subversão, selectiva, superficial e ambiguamente combinados com a dramatização do pr&#x00F3;prio, do vern&#x00E1;culo, do genu&#x00ED;no.” (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1994</xref>, 134-135) </p>
		
		<p>Uma outra hip&#x00F3;tese vem reforçar esta ideia e, do ponto de vista em que construo a minha perspectiva, merece ser cuidadosamente analisada. Trata-se da ideia de que, para al&#x00E9;m do acentrismo e do cosmopolitanismo, a “dramatização e carnavalização das formas” são caracter&#x00ED;sticas da forma cultural de fronteira pr&#x00F3;pria dos portugueses. O essencial não est&#x00E1;, agora, na constatação de que as apropriações e incorporações culturais tendem a identificar-se mais com as formas do que com os conte&#x00FA;dos dos produtos incorporados, mas na afirmação de que a descolagem entre forma e conte&#x00FA;do gera “uma atitude de distanciação mais l&#x00FA;dica do que profil&#x00E1;ctica, mais feita da consciência da inconsequência do que da consciência da superioridade.” (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1994</xref>, 135)  </p>
		
		<p>Tal separação entre formas e conte&#x00FA;dos incorporados est&#x00E1;, apesar do sentido pejurativo que pode atribuir-se a expressões como “carnavalização das formas”<xref ref-type="fn" rid="NOTE26">26</xref>, longe de nos remeter de novo para a tese de J.-A. França sobre o entorse e o desfazamento com que Amadeo apropria os discos de Robert Delaunay. Noções como as de “distanciação l&#x00FA;dica”, “esp&#x00ED;rito de subversão”, “consciência da inconsequência”, “selectiva, superficial e ambiguamente combinados com a dramatização do pr&#x00F3;prio, do vern&#x00E1;culo, do genu&#x00ED;no” que lhe estão associados, minam completamente a base da acusação de deslumbramento assim&#x00E9;trico e espanto provinciano (de incapacidade de ironia, na versão pessoana) que alicerçam a tese de França.  </p>
		
		<p>Esta questão &#x00E9; central no meu argumento, desde logo porque o regionalismo associado ao local de pertença de Amadeo deixa de poder ser pensado como falha para gerar, pelo contr&#x00E1;rio, potência cr&#x00ED;tica. E o conceito de regionalismo cr&#x00ED;tico convocado logo no in&#x00ED;cio deste artigo surge exactamente para iluminar essa potência, apto que est&#x00E1; a clarificar os sintomas de resistência que creio observar nos novos conte&#x00FA;dos (o decorativismo) que formas estabelecidas (os discos &#x00F3;rficos) adquirem na pintura de Amadeo. Na realidade, a noção de regionalismo cr&#x00ED;tico permite-nos ir muito mais longe do que a pr&#x00F3;pria formulação de Boaventura Sousa Santos, na medida em que, como bem demonstra Pedro Vieira de Almeida, defendendo a pertinência do conceito enquanto ferramenta cr&#x00ED;tica<xref ref-type="fn" rid="NOTE27">27</xref>: </p>
		
		<p>“A formulação avançada por Frampton, ainda que a questionemos, desde logo pressupõe a não existência de qualquer centralidade ou marginalidade. &#x00C9; a pr&#x00F3;pria noção de ‘centralidade cultural’ e ‘marginalidade cultural’ que fica posta em causa.” (Almeida, <xref ref-type="bibr" rid="CIT01">2007</xref>, 87) </p>
		
		<p>Aqu&#x00E9;m do lugar de fronteira em que, aceitando a hip&#x00F3;tese de Boaventura Sousa Santos, a pintura de Amadeo se situa<xref ref-type="fn" rid="NOTE28">28</xref>, importa ainda notar que a distância negativa que França considerou como puro desajustamento face ao cubismo internacional, decorre, antes de mais, de um enquadramento te&#x00F3;rico que faz corresponder a uma forma um &#x00FA;nico conte&#x00FA;do e onde, portanto, o efeito de distanciação não pôde ser concebido como potência cr&#x00ED;tica ou resistência<xref ref-type="fn" rid="NOTE29">29</xref>. O esquema a que França submete o entendimento da hist&#x00F3;ria cultural portuguesa, neste caso da pintura, transporta-nos a uma narrativa tida como &#x00FA;nica e necess&#x00E1;ria. &#x00C9; uma narrativa e que se firma em pressupostos dados como internos, aut&#x00F3;nomos, compondo uma moldura de pensamento que se apresenta naturalizada. Pressupõe, nessa mesma l&#x00F3;gica, a absoluta imparcialidade do historiador-cr&#x00ED;tico. </p>
		
		<p>Como &#x00E9; reconhec&#x00ED;vel, encontramos aqui as bases do paradigma epistemol&#x00F3;gico moderno, a partir do qual se consolidou a base valorativa da cr&#x00ED;tica e da historiografia da arte ao longo de praticamente todo o s&#x00E9;culo XX (cf. Krauss, <xref ref-type="bibr" rid="CIT17">1985</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="CIT16">1996</xref>). Encontramos tamb&#x00E9;m, como seria de esperar, o essencialismo e o pressuposto de auto-referencialidade centrais para a cr&#x00ED;tica modernista que colocou a abstracção como destino maior da hist&#x00F3;ria da pintura (no discurso de França, não obstante, não encontramos a noção greenberguiana central da especificidade do medium). Os escritos que nos ocupam, propõem uma ideia de pintura moderna que, por um lado, parece cativa dos constragimentos gerados pelo contexto hist&#x00F3;rico português (porque a defesa do modernismo foi bandeira da pol&#x00ED;tica cultural do Estado Novo pela mão de Ant&#x00F3;nio Ferro)<xref ref-type="fn" rid="NOTE30">30</xref>. Fixam-se, por outro lado, na plena consagração da ideologia do novo e da auto-referencialidade pict&#x00F3;rica, seguindo uma l&#x00F3;gica teleol&#x00F3;gica e de afirmação de oposições bin&#x00E1;rias comuns (estrutural/ornamental, superficial/profundo, original/c&#x00F3;pia, centro/periferia). Desta se pode dizer que ignora tanto a fundamental arbitrariedade dos termos em questão quanto a sua constante negociação no discurso. S&#x00F3; num universo assim concebido se pode admitir que a re-funcionalização dos dicos &#x00F3;rficos ao serviço da representação por Amadeo – o que França classifica como decorativismo e opõe à situação funcional-estrutural de tratamento da luz que ocupam na pintura de Robert Delaunay – caia fora do campo central de pertinência da hist&#x00F3;ria da pintura moderna, e dos desenvolvimentos do cubismo em particular.  </p>
		
		<p>Mais se poder&#x00E1; notar, num breve parentesis, que, apesar de privilegiar uma hist&#x00F3;ria sociol&#x00F3;gica da arte (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT10">1997</xref> [1974]), França ignora a dimensão “bab&#x00E9;lica” que o modernismo internacional convoca na sua explosão pr&#x00E9;-Guerra, feito como foi do encontro de artistas das mais variadas proveniências<xref ref-type="fn" rid="NOTE31">31</xref>. A preponderância dos artistas imigrados ter&#x00E1; ali&#x00E1;s, defende David Cottington, contribu&#x00ED;do significativamente para a afirmação da ideia de l’art pour l’art em que a concepção de França se filia<xref ref-type="fn" rid="NOTE32">32</xref>. </p>
		
		<p>No lugar de fronteira em que por hip&#x00F3;tese a pintura de Amadeo se situa, o que finalmente se evidencia &#x00E9; uma constante negociação dos termos no discurso. &#x00C9; isso que, finalmente, nos mostram os discos &#x00F3;rficos apropriados por Amadeo. Os discos pintados são convertidos num elemento de representação – i.e. referenciam algo que lhes &#x00E9; exterior pela negociação da sua condição de signo – fruto de uma apropriação autoconsciente e cr&#x00ED;tica que afirma o distanciamento (l&#x00FA;dico) tanto em relação a um certo entendimento da pintura (o de Delaunay) quanto à trama de uma experiência vivida (com Delaunay). &#x00C9; isso que uma tela como Entrada (1917) nos d&#x00E1; a ver.  </p>
		
		</sec>
		
		<sec id="S4">
		<title>IV. </title>
		
		<p>Escrevi j&#x00E1; longamente sobre Entrada (Leal, 2010) debatendo tanto os constragimentos da an&#x00E1;lise formalista de J.-A. França (<xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957]), quanto os desenvolvimentos semi&#x00F3;ticos dessa an&#x00E1;lise protagonizados por P. Lapa (<xref ref-type="bibr" rid="CIT18">1999</xref>). Não se tratava, como não se trata agora, de desmerecer o potencial e a pertinência de tais enfoques, mas de questionar o isolamento, legitimado pela ideia de auto-referencialidade como fim da pintura, que essas leituras desenharam em torno da obra de Amadeo, condenando-se a um empobrecimento, ou mesmo à cegueira<xref ref-type="fn" rid="NOTE33">33</xref>. Em questão est&#x00E1; o modo como historiadores e os cr&#x00ED;ticos se recusaram ver e analisar as relações que a pintura entretece com o mundo que a rodeia, mesmo tendo por objecto de estudo pinturas-colagens que incorporam objectos desse mundo “exterior”, como &#x00E9; o caso de Entrada.  </p>
		
		<p>Vinha tudo isto a prop&#x00F3;sito da ideia de que a 1ª Grande Guerra foi um dado fundamental no percurso de Amadeo Souza-Cardoso, dado que a historiografia, começando embora por sublinhar, rapidamente descarta como se de um factor absolutamente perif&#x00E9;rico se tratasse (cf. França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957] e Freitas, <xref ref-type="bibr" rid="CIT14">2006</xref>). A constatação de que os anos da Guerra foram particularmente f&#x00E9;rteis para o trabalho de Amadeo não traduziu nunca senão a ideia de que esses anos favoreceram pesquisas formais totalmente independentes de factores contextuais, que descartam consequentemente a possibilidade de assumir essas formas como instâncias de representação. Tal situação &#x00E9; exemplarmente demonstrada pelas telas de Amadeo escolhidas para integrar a exposição <italic>1914! La Vanguardia y la Gran Guerra</italic> comissariada por J. Arnaldo para o Museu Thyssen-Bornemiza (Arnaldo, <xref ref-type="bibr" rid="CIT03">2008</xref>). Entrada não constou da selecção exposta. Trata-se, por&#x00E9;m, de uma tela que incorpora uma s&#x00E9;rie de signos leg&#x00ED;veis como referenciando a “entrada” de Portugal e dos Estados Unidos na Guerra, incluindo o epis&#x00F3;dio da extraordin&#x00E1;ria acusação de espionagem que, nesse contexto, recaiu sobre Sonia Delaunay, epis&#x00F3;dio em que Amadeo esteve fortemente envolvido, respons&#x00E1;vel maior que foi pela defesa de Sonia (cf. Ferreira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">1972</xref>).  </p>
		
		<p>Remonta-se assim aos primeiros dias Abril de 1916, quando um denunciador d&#x00E1; como certa, a troco de 3000 francos de recompensa, a passagem de informação encriptada por Sonia Delaunay aos submarinos alemães situados ao largo do Atlântico a partir, precisamente, dos discos simultâneos que integravam as suas pinturas. Entrada mostra-nos a torre e o perisc&#x00F3;pio de um submarino com as cores alemãs – ambos enquadrados pelo jacto de luz que nasce no centro da composição –, e tr&#x00E1;s tamb&#x00E9;m a sugestão de um interior, iluminado por uma lâmpada el&#x00E9;ctrica (desenhada a partir do cat&#x00E1;logo da Wotan)<xref ref-type="fn" rid="NOTE34">34</xref>, separado da escuridão nocturna pelas linhas horizontais de uma persiana dourada. Mostra-nos igualmente os discos que motivaram a acusação, para al&#x00E9;m de incorporar a palavra “entrada” que deu nome à tela (na realidade, sem t&#x00ED;tulo). Mesmo os n&#x00FA;meros que Amadeo inscreve no topo da tela parecem remeter para a soma atribu&#x00ED;vel ao acusador. L&#x00E1; est&#x00E1; tamb&#x00E9;m, e aqui reencontro o jacto de luz central na sua fonte, o perfil de um transatlântico desenhado sobre fundo azul, muito possivelmente o c&#x00E9;lebre Lusitania – as cores da bandeira nacional pintadas sobre um rectângulo de vidro inscrustrado no casco sugerem o nome do barco inglês –, com as suas imponentes quatro torres (duas pintadas, as restantes duas evocadas pelo o n&#x00FA;mero 2) afundado por um submariano alemão, num epis&#x00F3;dio tr&#x00E1;gico que despoletou a intervenção militar dos EUA na Guerra. Por&#x00E9;m, &#x00E9; bom não esquecer que a pr&#x00F3;pria entrada de Portugal na Guerra esteve, no imediato, associada à nacionalização dos barcos alemães retidos nos portos portugueses desde o in&#x00ED;cio do conflito. </p>
		
		<p>Em nenhum momento a sequência meton&#x00ED;mica destes elementos-fragmentos fica cativa ou se esgota na composição de uma montagem narrativa. Não &#x00E9; s&#x00F3; o facto da imagem da persiana dourada poder ser tamb&#x00E9;m legitimamente classificada como a representação das cordas de um instrumento musical, ou o facto do perfil do Lusitânia configurar tamb&#x00E9;m o aspecto de uma qualquer m&#x00E1;quina (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT28">1999</xref>: 176), ou ainda o facto da palavra entrada poder ter sido “extra&#x00ED;da de uma sinal&#x00E9;tica de praça de touros” (Gonçalves, <xref ref-type="bibr" rid="CIT15">2006</xref>, 27) ou de uma casa de espect&#x00E1;culos, porque, na realidade, esta obra assimila um conjunto significativo de outros elementos que não &#x00E9; poss&#x00ED;vel associar (ou que &#x00E9; muito dif&#x00ED;cil associar) ao contexto dos epis&#x00F3;dios narrados. Refiro-me particularmente a uma s&#x00E9;rie de signos recorrentes nas obras de Amadeo mais directamente ligadas ao legado do cubismo: a viola e a sugestão de um violino, naturezas-mortas pintadas como se de papiers coll&#x00E9;s se tratassem, letras e n&#x00FA;meros desenhados a pochoir, um fragmento colado de um papel decorativo de parede. </p>
		
		<p>Negociando os termos do discurso, os signos convocados não cessam al&#x00E9;m do mais de nos lembrar que a representação, assuma ela um car&#x00E1;cter metaf&#x00F3;rico, meton&#x00ED;mico ou literal, conte ela, ou não conte uma hist&#x00F3;ria, &#x00E9; neste caso, antes de mais, pintura. Temos em Entrada uma pintura-colagem onde os planos, as t&#x00E9;cnicas e as texturas – que dão espessura às cores com empastelamentos ou pela mistura de areias nas tintas – variam numa l&#x00F3;gica de acumulação que não deixou nenhum vazio e que admite, para al&#x00E9;m disso, cortes, sobreposições e ocultações desses mesmos planos. As relações positivas e as oposições que entre si estabelecem planos e signos reporta-nos, finalmente, como ali&#x00E1;s maioria das pinturas produzidas neste periodo final da vida de Amadeo, para a assimilação do cubismo não como estilo estabelecido, mas como problem&#x00E1;tica aberta sobre o sentido e as possibilidades da representação e da pintura. </p>
		
		<p>A narrativa que Entrada nos oferece, (des)organizada a partir de elementos-fragmentos que nos reportam a um universo de referências contextuais, reclama a dimensão contextual da portugalidade de Amadeo integrando-a num movimento mais vasto de revisão sobre o sentido e as possibilidades da representação e da pintura. Apenas tomando o abstraccionismo como destino da pintura se poder&#x00E1;, pois, considerar que enferma de algum tipo de entorce ou assimilação periferizadora. E note-se que, como vimos, o que estava em jogo no discurso de J.-A. França era nada mais do que a deslocação dos discos simultâneos para uma função que os arredava da sua “superior” referência lum&#x00ED;nica para um campo onde se materializava precisamente uma função representativa. </p>
		
		<p>Assim, embora concordando com o historiador quanto à ideia de que a discussão da portugalidade de Amadeo não deve ser acantonada na constatação de que a sua obra incorpora signos de identidade (conte&#x00FA;dos populares, colorido berrante), recuso liminarmente quer a ideia do desfazamento e da ingenuidade de Amadeo, quer a ideia da assimetria da relação que o pintor português estabelece com Robert Delaunay. Em primeiro lugar, e mais decisivamente, porque recuso a l&#x00F3;gica valorativa (e preconceituosa) que condena a representação e a arreda do campo de pertinência da hist&#x00F3;ria da pintura moderna, e mesmo modernista<xref ref-type="fn" rid="NOTE35">35</xref>. Em segundo lugar, porque uma observação de telas como Entrada, nos permite verificar que a assimetria equacionada por França, não conforma senão distância, e uma distância que pode, na realidade, ser interpretada como distância cr&#x00ED;tica. Uma distância que, no caso de Entrada, joga tamb&#x00E9;m com referencias às colagens cubistas de Picasso. </p>
		
		<p>Sublinhe-se então, para elucidar este &#x00FA;ltimo ponto, que ao mesmo tempo que potencia a l&#x00F3;gica da colagem, Amadeo reivindica exclusivamente para o seu trabalho os meios da pintura. Vejam-se os f&#x00F3;sforos no canto inferior direito da tela pintados como se de colagens de f&#x00F3;sforos reais se tratassem. Mas veja-se sobretudo o modo como os papier coll&#x00E9;s são evocados em Entrada: os frutos representados sobre os pequenos recortes de papel, a lembrar decisivamente a colagem de Picasso de 1913, intitulada Bowl with Fruit, Violin, and Wineglass (hoje pertencente ao Philadelphia Museum of Art), adquirem na tela do pintor português um aspecto putrefacto que dificilmente pode deixar de entender-se como marcação de uma distância informada. Torna-se, como tal, imposs&#x00ED;vel considerar estes elementos sem admitir que entre as m&#x00FA;ltiplas questões que Amadeo convoca para esta tela, e para al&#x00E9;m do dispositivo narrativo alimentado por referencias contextuais, Entrada conforma um territ&#x00F3;rio de reflexão cr&#x00ED;tica sobre a situação da pintura no seu tempo. </p>
		
		<p>Esta hip&#x00F3;tese &#x00E9; reforçada pelo tratamento dos discos simultâneos. Estes aparecem invariavelmente, nesta como em muitas outras telas deste per&#x00ED;odo, como focos de atracção de pequenos insectos. Na l&#x00F3;gica de colagem que Amadeo reinventa a partir do universo mat&#x00E9;rico da pintura, estes elementos pict&#x00F3;ricos são refuncionalizados e surgem pois, por assim dizer, reduzidos a uma condição de “armadilha” para insectos voadores. Ainda que se admita, com França, a sua reinterpretação decorativa, tal reintrepretação impele-nos afinal a considerar a marcação clara de uma distância cr&#x00ED;tica, certamente l&#x00FA;dica e propriamente ir&#x00F3;nica, do pintor português em relação à “superior” função que os discos adquirem no esquema delaunayano. Uma distância, ali&#x00E1;s, conforme, neste caso, com o grau de desapontamento a que as suas relações com os Delaunay o conduzem ap&#x00F3;s a derrocada dos projectos comuns guizados em 1916. </p>
		
		<p>&#x00C9; pois poss&#x00ED;vel considerar que os meios da pintura empregues por Amadeo possam estar impregnados de uma potência cr&#x00ED;tica alicerçada pelo lugar regional de pertença, um lugar que lhe garantiu, enquanto actor do modernismo internacional, um ponto de observação privilegiado sobre correntes estabelecidas do seu tempo e, como tal, a possibilidade tomar assumir para o seu trabalho uma posição pict&#x00F3;rica distanciada (e de novo cr&#x00ED;tica) dos feitos pict&#x00F3;ricos que a historiografia modernista, ignorando a dimensão problem&#x00E1;tica dos debates em curso, contribuiu cegamente para hegemonizar. </p>
		
		
					 
		</sec>
		
	</body>

	<back>
	
	<ack>
	
	<title>AGRADECIMENTOS</title>
	
	<p>Este artigo foi escrito em 2011 e &#x00E9; o primeiro de uma s&#x00E9;rie de publicações que inclui tamb&#x00E9;m: 2012, “Criação, apropriação, deslocação (sobre a pintura de Amadeo Souza Cardoso)”, <italic>Revista de Hist&#x00F3;ria da Arte</italic>, N. 10 (pr&#x00E1;ticas da teoria), 2012, pp. 111-127 (issn 1646-1762); e 2013, “Trapped bugs, rotten fruits and faked collages: Amadeo Souza Cardoso’s troublesome modernism”, <italic>Konsthistorisk tidskrift/Journal of Art History</italic>, N. 2, pp. 99-114 (Doi: 10.1080/00233609.2013.794859). Esta publicação enquadra-se no âmbito do projecto explorat&#x00F3;rio Modernismos do Sul/Southern Modernisms (EXPL/CPC-HAT/0191/2013) financiado pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia. </p>
	
	</ack>
	
	
	<sec id="notas">
			 <title>NOTAS</title>
			 <fn-group>
				<fn id="NOTE01"><label>1</label><p>Para um resumo da biografia de Amadeo veja-se o Anexo 1. Para o aprofundamento dos dados apresentados consulte-se a <italic>Fotobiografia</italic> publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian (2007).</p></fn>
				<fn id="NOTE02"><label>2</label><p>Utilizo o conceito de Modernismo na sua formulação internacional mais ampla, canonizada na proposta cr&#x00ED;tica de Clement Greenberg em textos como <italic>Modernist Painters</italic> (1961).</p></fn>
				<fn id="NOTE03"><label>3</label><p>J.-A. França escreve concretamente: “A guerra perturbou totalmente os planos de Amadeo, não tanto por interromper o fio das experiências que no pr&#x00F3;prio Verão de 1914 tinham sofrido alteração de rumo mas por deitar abaixo a estrat&#x00E9;gia que ele preparava, a n&#x00ED;vel internacional, e na qual tanto entrava Paris como a Alemanha (e at&#x00E9; a Inglaterra, preparando-se tamb&#x00E9;m então para expor em Londres) – s&#x00ED;tios que o conflito agora separava. A sua &#x00FA;nica realidade passou a ser a sua quinta de Manhufe, que era, para ele, algo de irreal, em comparação com a vida que deixava para tr&#x00E1;s” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 89).</p></fn>
				<fn id="NOTE04"><label>4</label><p>&#x00C9; atrav&#x00E9;s de Almada que Amadeo entra em contacto com o grupo dos “Futuristas” lisboetas, reunidos inicialmente em torno da revista <italic>Orpheu </italic>(França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 119-122 e Ferreira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">1972</xref>).</p></fn>
				<fn id="NOTE05"><label>5</label><p>Entendo por s&#x00E9;rio a qualidade de ter superado a abordagem biogr&#x00E1;fica dedicada ao culto do artista em termos que o sobrepõem à sua obra; os trabalhos que a historiografia dedica a Amadeo, correspondem, na sua maioria, ao que Rosalind Krauss classifica como a “hist&#x00F3;ria do nome pr&#x00F3;prio” (Krauss, <xref ref-type="bibr" rid="CIT16">1996</xref>, 39 e ss).</p></fn>
				<fn id="NOTE06"><label>6</label><p>“Junto de Robert e de Sonia Delaunay, os dois pintores portugueses [Eduardo Viana e Amadeo de Sousa Cardoso] trabalham, por assim dizer, reaccionariamente…” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT11">1968</xref>, 19).</p></fn>
				<fn id="NOTE07"><label>7</label><p>Recorde-se que o t&#x00ED;tulo do artigo de Frampton nos reporta desde logo a uma perspectiva de resistência: “Hacia um regionalismo cr&#x00ED;tico: Seis puntos para uma arquitectura de resistencia”.</p></fn>
				<fn id="NOTE08"><label>8</label><p>Ant&#x00F3;nio Ferro foi jornalista e editor da revista <italic>Orpheu</italic>. Dirigiu o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) do regime de Oliveira Salazar entre 1933 e 1949. &#x00C9; mentor da “pol&#x00ED;tica do esp&#x00ED;rito” que orientou a pol&#x00ED;tica cultural do Estado Novo atendendo ao que genericamente se designa como cultura popular (cf. &#x00D3;, <xref ref-type="bibr" rid="CIT21">1999</xref>).</p></fn>
				<fn id="NOTE09"><label>9</label><p>J.-A. França apresenta esta alteração do t&#x00ED;tulo original do livro de 1957 como problematizando a “categoria ‘portuguesa’ do artista (coisa que o t&#x00ED;tulo da 2ª edição – “Amadeo ou o S&#x00E9;culo XX”, de 1972 –ainda não elucidava). Assim, apesar da violência impl&#x00ED;cita na expressão “à força” (surgida como tradução insatisfat&#x00F3;ria do “malgr&#x00E9; lui” francês), “o t&#x00ED;tulo <italic>Amadeo de Souza-Cardoso, o Português à Força</italic> apareceu com uma definitiva evidência – se entendermos essa força como a do Destino.” E acrescenta: “Para al&#x00E9;m do nacionalismo caseiro que a certa altura (logo em 1925 num artigo de Ant&#x00F3;nio Ferro) pretendeu tomar Amadeo à sua conta (…) havia o Destino que a essa aparência irremediavelmente o amarrou, fazendo-o morrer em Portugal, longe do Paris desnacionalizador.” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 14-15)</p></fn>
				<fn id="NOTE10"><label>10</label><p>Nas palavras de França: “‘à força’ tamb&#x00E9;m porque dessa imagem não chegou a poder desenvencilhar-se, mesmo na grande explosão da sua raiva. No ‘colorido berrante’ dela havia de se adivinhar a sempre referida p&#x00E1;tria… Mas ainda e tamb&#x00E9;m ‘à força’, não por, em primeiras fumaças de imigrante, ter programado voltar mais tarde ao seu ‘luminoso Portugal’, mas porque isso convinha fundamentalmente e sem rem&#x00E9;dio ao processo mitol&#x00F3;gico, em que, pessoal, cultural, social e sacralmente, se definiu (…) Português então ‘malegr&#x00E9; lui’, do que nele havia de ‘parisiense’, isto &#x00E9;, maugrado a sua necessidade de outros impulsos criativos. Para aqu&#x00E9;m da arte de vanguarda que criou, e da ‘febre da vida moderna’ que o atacou. Mas dentro do mito em que cristalizou.” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 15)</p></fn>
				<fn id="NOTE11"><label>11</label><p>Ou como se lê: “E não deixando igualmente de pôr a questão do grau de ‘parisianismo’ do pintor, isto &#x00E9; do seu grau de integração num universo cultural alheio, que a sua obra afinal, provando de mais, não chegar&#x00E1; a provar.” (Idem).</p></fn>
				<fn id="NOTE12"><label>12</label><p>As palavras, bem conhecidas, são de Almada Negreiros e surgem no Folheto-Manifesto integrado no cat&#x00E1;logo da exposição de Amadeo na Liga Naval em Lisboa (cf. Freitas, <xref ref-type="bibr" rid="CIT13">2007</xref>, 248-249).</p></fn>
				<fn id="NOTE13"><label>13</label><p>Seguindo aqui as palavras de Eduardo Lourenço em 1971, num texto que discutirei mais à frente (Lourenço, <xref ref-type="bibr" rid="CIT20">1981</xref>, 135-136).</p></fn>
				<fn id="NOTE14"><label>14</label><p>E ainda: “A t&#x00E9;cnica subtil de Delaunay não poderia, &#x00E9; claro, ser satisfeita por um principiante, alheio a toda a problem&#x00E1;tica pictoral que a tradição impressionista determinara na sensibilidade do ‘orfismo’ autêntico (…)” acrescentando que a cr&#x00ED;tica não dever&#x00E1; sublinhar exageradamente este facto porque Amadeo “fez o que pôde e mereceu elogio pelo resultado obtido, demonstrando mesmo uma inesperada capacidade” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 139).</p></fn>
				<fn id="NOTE15"><label>15</label><p>“Many consider that decorative preoccupations must govern the espirit of the new painters. Undoubtedly they are ignorant of the most obvious signs which make decorative work the antithesis of the picture. The decorative work of art exists only by virtue of its <italic>destination</italic>; it is animated only by the relations established between it and the given objects. (…) A painting carries within itself its <italic>raison d’être</italic>.” (Gleizes e Metzinger, 2004 [1912], 95).</p></fn>
				<fn id="NOTE16"><label>16</label><p>Em 1968, a apropriação dos discos simultâneos &#x00E9; equacionada a partir do contraste entre o “modo” de Eduardo Viana e o de Amadeo nos seguintes termos: “Algures marquei o sentido de adaptação estrutural dos ‘discos’ dos Delaunays que Viana se esforçou por ‘coisificar’, dentro da sua tendência mais sensual; algures tamb&#x00E9;m assinalei o mero sentido decorativo que os mesmos ‘discos’ ganharam nas composições de Amadeo. Num pintor temos então uma valorização interna e no outro uma valorização exterior , do mesmo signo – e em ambos um curioso alheamento do sistema em que o signo originariamente funcionava.” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT11">1968</xref>, 18).</p></fn>
				<fn id="NOTE17"><label>17</label><p>J&#x00E1; em 1968 escrevera: “A an&#x00E1;lise das composições de Viana e de Amadeo dentro do esquema dos ‘discos’ mostra-nos claramente que a originalidade que devemos atribuir-lhes tem um valor negativo. Isto &#x00E9;: atrav&#x00E9;s dela transparece apenas uma ignorância uma ingenuidade mental, perante o fen&#x00F3;meno considerado.” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT11">1968</xref>, 18-19).</p></fn>
				<fn id="NOTE18"><label>18</label><p>H&#x00E1; aqui uma transformação importante da sua posição em 1968 em que os “discos” eram ainda “dos Delaunays” e não apenas de Robert Delaunay.</p></fn>
				<fn id="NOTE19"><label>19</label><p>E escreve mais considerando a obra de Amadeo: “Do folclore, adaptado ao seu Norte, num momento de euforia, à velocidade que por outra via tamb&#x00E9;m o fascinara, Amadeo entendeu assim o uso decorativo dos ‘discos’ vistos em Montparnasse e revistos em Vila do Conde, nos dois p&#x00F3;los da sua vida de nortenho em Paris, em torna-viagem. E em relação a essas duas experiências, elas seriam ainda um sinal de reconhecimento, uma lembrança, um elo, um ex&#x00ED;lio de guerra de Amadeo. Algo que ligava Portugal à Europa, embora s&#x00F3; decorativamente, como podia ser – e antes de em ligação alguma ele poder acreditar, ou de qualquer ligação desejar…” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 140).</p></fn>
				<fn id="NOTE20"><label>20</label><p>“Para Viana era preciso que um “disco” se justificasse como coisa inscrita num circuito de outras, pl&#x00E1;sticamente solid&#x00E1;rias – e se acordasse, p. ex., com o corpo e a cara de uma figura, ou fosse mesmo garantido por um alguidar de bom barro popular, luzindo-lhe no fundo… (…) A “coisificação” essencial da pintura de Viana, altamente interessante como pesquisa pr&#x00F3;pria, mant&#x00E9;m estruturas naturalistas ou substantivas (de certo modo portuguesmente pr&#x00F3;ximas de Malhoa) que, por outro lado, a arredam da pintura de Amadeo” (França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1985</xref> [1957], 141).</p></fn>
				<fn id="NOTE21"><label>21</label><p>Para uma extensão desta questão no quadro do pensamento de J.-A. França, veja-se a an&#x00E1;lise de Catarina Crua ao inqu&#x00E9;rito “O Problema da Cultura Portuguesa” publicado na <italic>Bic&#x00F3;rnio</italic> em 1952 (Crua, <xref ref-type="bibr" rid="CIT04">2011</xref>, 52-52).</p></fn>
				<fn id="NOTE22"><label>22</label><p>Veja-se particularmente o cap&#x00ED;tulo “Modernidade, identidade e cultura de fronteira”. As hip&#x00F3;teses de trabalho que o sociol&#x00F3;go coloca são assaz relevantes. Marcam uma reacção forte contra o discurso identit&#x00E1;rio e o que designa por “excesso de interpretação m&#x00ED;tica” da identidade nacional, abrindo uma perspectiva a que regressarei mais tarde e que foi recentemente pontuada tamb&#x00E9;m pelo trabalho de Silvina Rodrigues Lopes (<xref ref-type="bibr" rid="CIT19">2007</xref>).</p></fn>
				<fn id="NOTE23"><label>23</label><p>“Os discursos convencionais sobre a ‘identidade nacional’ têm sido constru&#x00ED;dos a partir de um <italic>genius loci</italic> mitificado abstracto e mistificador e os mais recentes têm-nos glosado (ou pouco mais) (…), com a excepção, nem sempre conseguida, de Eduardo Lourenço.” (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1994</xref>, 54). Como demonstra Silvina Rodrigues Lopes (<xref ref-type="bibr" rid="CIT19">2007</xref>, 54-86), <italic>Portugal Hoje. O Medo de Existir</italic> de Jos&#x00E9; Gil &#x00E9; um digno herdeiro destes discursos.</p></fn>
				<fn id="NOTE24"><label>24</label><p>Suportando esta ideia est&#x00E1; a constação de que as “culturas nacionais, enquanto substâncias, são uma criação do s&#x00E9;culo XIX, são, como vimos, o produto hist&#x00F3;rico de uma tensão entre universalismo e particularismo gerido pelo Estado. O papel do Estado &#x00E9; duplice: por um lado, diferencia a cultura do territ&#x00F3;rio nacional face ao exterior; por outro lado, promove a homogeneidade cultural no interior do territ&#x00F3;rio nacional . A minha hip&#x00F3;tese de trabalho &#x00E9; que, em Portugal, o Estado nunca desempenhou cabalmente nenhum destes pap&#x00E9;is, pelo que, como consequência, a cultura portuguesa teve sempre uma grande dificuldade em se diferenciar de outras culturas nacionais, ou, se preferirmos, uma grande capacidade para não se diferenciar de outras culturas nacionais e, por outro lado, manteve at&#x00E9; hoje uma forte heterogeneidade interna. O facto de o Estado português não ter desempenhado cabalmente nenhuma das duas funções – diferenciação face ao exterior e homogeneização interna – teve um impacte decisivo na cultura dos Portugueses, o qual consistiu em as esp&#x00E1;cio-temporalidades culturais local e transnacional terem sido sempre mais fortes do que a esp&#x00E1;cio-temporalidade nacional.” Explica tamb&#x00E9;m: “A manifestação paradigm&#x00E1;tica desta matriz interm&#x00E9;dia, semiperif&#x00E9;rica, da cultura portuguesa est&#x00E1; no facto de os Portugueses terem sido, a partir do s&#x00E9;culo XVII, (…) o &#x00FA;nico povo europeu que, ao mesmo tempo que observava e considerava os povos das suas col&#x00F3;nias como primitivos ou selvagens, era, ele pr&#x00F3;prio, observado e considerado, por viajantes e estudiosos dos pa&#x00ED;ses centrais da Europa do Norte, como primitivo e selvagem.” (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1994</xref>, 132-133).</p></fn>
				<fn id="NOTE25"><label>25</label><p>“Para as culturas dotadas de fortes centros, as fronteiras são pouco vis&#x00ED;veis, e isso &#x00E9; a &#x00FA;ltima causa do seu provincianismo. Ao contr&#x00E1;rio, o acentrismo da cultura portuguesa &#x00E9; o outro lado do seu cosmopolitanismo, um universalismo sem universo feito da multiplicação infinita dos localismos” (Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1994</xref>, 134).</p></fn>
				<fn id="NOTE26"><label>26</label><p>O pr&#x00F3;prio Boaventura Sousa Santos o faz quando, por exemplo, fala do fen&#x00F3;meno de “carnavalização da pol&#x00ED;tica” (cf. Santos, <xref ref-type="bibr" rid="CIT26">1994</xref>, 61-63).</p></fn>
				<fn id="NOTE27"><label>27</label><p>“Uma ferramenta não &#x00E9;, não pode ser uma simples gaveta de arquivo e, seja em que campo for, a sua bondade e pertinência dependem sempre da utilização que lhe &#x00E9; dada. Uma coisa ser&#x00E1; detectar na obra daqueles ou de outros autores sintomas de uma atitude atenta a vectores de um ‘regionalismo’, formulação esta male&#x00E1;vel, de âmbito puramente critico ela tamb&#x00E9;m, em que j&#x00E1; nem sequer interessa saber se o autor est&#x00E1; ou não de acordo, porque a obra vive independente do seu autor e permanece aberta às leituras cr&#x00ED;ticas que dela queiramos fazer. Outra bem diferente e muito question&#x00E1;vel ser&#x00E1; querer entender o regionalismo cr&#x00ED;tico, enquanto <italic>categoria</italic> para classificar autores tendo em vista a comodidade e simplificação de enquadramento. No campo interpretativo-cr&#x00ED;tico, creio que a ideia de Frampton se constituiu inegavelmente como uma s&#x00F3;lida contribuição. At&#x00E9; na prevenida e clara rejeição de uma interpretação articulada com qualquer populismo de teor mais ou menos romântico. Suponho portanto ter sido importante esse gen&#x00E9;rico conferir nome a uma sensibilidade que permanecia difusa e dispersa.” (Almeida, <xref ref-type="bibr" rid="CIT01">2007</xref>, 83-84).</p></fn>
				<fn id="NOTE28"><label>28</label><p>Pedro Lapa &#x00E9; o autor que primeiro sustenta esta hip&#x00F3;tese considerando a obra de Amadeo; escreve: “The place of enunciation of Amadeo Souza Cardoso’ s project is drawn up on this edge of the dominant cultural value, without having a specifically constituted and identity-oriented cultural alterity as a reference.” E, orientando-se para a leitura de obras espec&#x00ED;ficas como <italic>Procissão do Corpus Christi</italic>, <italic>Canção Popular e o p&#x00E1;ssaro do Brasil </italic>e <italic>Canção popular a russa e o Figaro</italic>: “Among signs of a local culture – the Minho region of his birth – and those of an avant-garde transnational culture – with marks of cubism, futurism and orphism – there is a hybrid aspect characteristic of this forntier culture. The ease in articulating a local (regional) specificity with an international, centralist, hegemonic context is a clear example of this national characteristic.” (Lapa, <xref ref-type="bibr" rid="CIT18">1999</xref>, 107-108).</p></fn>
				<fn id="NOTE29"><label>29</label><p>A noção, fixada no subt&#x00ED;tulo do artigo de Frampton, &#x00E9; caracterizada por Pedro Vieira de Almeida nos seguintes termos: “Mas respons&#x00E1;vel e gravemente, aquela <italic>estrat&#x00E9;gia de resistência</italic> (…) opõe-se a uma visão cultural, assutadoramente niveladora, global, ‘totalizante’. Visão em que a partir de reconhecidos ou autopromovidos centros culturais, noções de arquitectura são soberanamente distribu&#x00ED;das às <italic>periferias</italic>, num gesto largo que alardeia a duvidosa generosidade de quem se limita a alimentar capoeiras culturais. Podemos polidamente recusar o alimento. &#x00C9; que em definitivo s&#x00F3; &#x00E9; bicho de capoeira quem quer.” (Almeida, <xref ref-type="bibr" rid="CIT01">2007</xref>, 85).</p></fn>
				<fn id="NOTE30"><label>30</label><p>Creio que isso nos permite compreender que sendo ac&#x00E9;rrimo defensor do moderno, no sentido rimbaudiano do termo, o autor declare o seu &#x00F3;dio ao modernismo (cf. França, <xref ref-type="bibr" rid="CIT12">1956</xref>).</p></fn>
				<fn id="NOTE31"><label>31</label><p>Nas palavras de Kenneth Silver: “‘foreign-ness’ became a kind of nationality of its own in early-twentienth-century Paris, a cosmopolite identity of both self assured belonging and undeniable difference” (Silver,<xref ref-type="bibr" rid="CIT29">1999</xref>, 55). Ver tamb&#x00E9;m Marjory Perloff (<xref ref-type="bibr" rid="CIT23">2003</xref> [1986]).</p></fn>
				<fn id="NOTE32"><label>32</label><p>“Growing fears of international and inter-class conflict ensured that the traditionalist and solidarist discourses were dominant in the literary and artistic avant-garde formation as they were in society at large, and contributed crucially to the pre-war hegemony of Radicalism. Yet the reality of any hegemony is that is never total or exclusive, and the artistic avant-garde was also one of the primary sites of resistance to nationalist pressures; first because of its cosmopolitan character – the &#x00E9;migr&#x00E9;s who were preponderant in many of its milieux had little incentive to rally to the tricolore – and second, because the collapse in 1905 of the Bloc des Gauches left its participants with diminished interest in politics. For the &#x00E9;migr&#x00E9;s, self-referenciality and isolation encouradge a notion of the artist as necessarily estranged; for those whose attempts at class collaboration had ended in desillusionment, the idealism that had driven them was tranferred to aesthetic practice. Fot both, resistance was grounded in the values of art in and for itself, as uniquely free from commodification and instrumentality.This was the discourse of aestheticism.” (Cottington, 1998, 5)</p></fn>
				<fn id="NOTE33"><label>33</label><p>Uma cegueira de algum modo antit&#x00E9;tica da que D. Arasse (<xref ref-type="bibr" rid="CIT02">2000</xref>) ou H. Damisch (1993 [1987]), por exemplo, denunciam e discutem, mas que, quando falamos da historiografia do modernismo, parece ocupar uma posição sim&#x00E9;trica à da vertigem descodificadora das investidas iconogr&#x00E1;ficas ou das versões da teoria do reflexo dominantes em muita hist&#x00F3;ria social da arte.</p></fn>
				<fn id="NOTE34"><label>34</label><p>Veja-se no <italic>Cat&#x00E1;logo Raisonn&#x00E9;.</italic> <italic>Fotobiografia </italic>(2007: 278) a imagem nº 9 legendada como “Prov&#x00E1;vel maqueta para a pintura Sem T&#x00ED;tulo (entrada) [Amadeo, 1917-1918]. Esp&#x00F3;lio ASC-BA”.</p></fn>
				<fn id="NOTE35"><label>35</label><p>Um dos pontos centrais da revisão que J. Rancière (<xref ref-type="bibr" rid="CIT25">2010</xref>) faz dos pressupostos da modernidade passa por esta questão. Defende Rancière que a ruptura com a mimesis não significou de modo algum o fim da figuração. Estabelecer uma linha de ruptura entre o representativo, o não-representativo e o anti-representativo, escreve, reporta-se a uma historicização simplista sustentada na “passagem à não figuração que ocorreu na pintura”. Essa passagem foi teorizada “com base numa assimilação sum&#x00E1;ria a um destino global antimim&#x00E9;tico da ‘modernidade’ art&#x00ED;stica”, destino esse que sustentou a redução dessa modernidade ao esvaziamento da sua autoproclamação, como famosamente fez Clement Greenberg.</p></fn>
				
				
				
				
			 </fn-group>
		</sec>


		<ref-list>
			<title>BIBLIOGRAF&#x00CD;A</title>
				
				
			<ref id="CIT01">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Almeida</surname>
				  <given-names>Pedro Vieira de</given-names>
				  </name>		  
			  </person-group>
			  <year>2007</year>
			  <source>Apontamentos – para uma teoria da arquitectura</source> 
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>Horizonte</publisher-name>  
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT02"> 
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Arasse</surname>
				  <given-names>Daniel</given-names>
				  </name>	  	  
			  </person-group>
			  <year>2000</year>  
			  <source>On n’y voit rien: Descriptions</source>
			  <publisher-loc>Paris</publisher-loc>
			  <publisher-name>Folio</publisher-name>  
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT03">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Arnaldo</surname>
				  <given-names>Javier</given-names>
				  </name>	  	  
			  </person-group>
			  <year>2008</year>  
			  <source>1914! La vanguardia y la gran guerra</source>
			  <publisher-loc>Madrid</publisher-loc>
			  <publisher-name>Museo Thyssen-Bornemiza</publisher-name>  
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT04">
			<element-citation publication-type="thesis">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Crua</surname>
				  <given-names>Catarina</given-names>
				  </name>    
			  </person-group>
			  <year>2011</year> 
			  <source>Revistas Córnio: Modernidade e Discurso Crítico na Cultura Portuguesa da Primeira Metade do Século XX</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>FCSH-UNL</publisher-name>  
			  <comment>(dissertação de mestrado)</comment>
			</element-citation>  
			</ref>

			<ref id="CIT05">
			<element-citation publication-type="journal">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Damisch</surname>
				  <given-names>Hubert</given-names>
				  </name>  
			  </person-group>
			  <year>2007</year> 
			  <article-title>Hubert Damisch entrevistado por Joana Cunha Leal</article-title>
			  <source>Revista de História da Arte</source>
			  <issue>3</issue>
			</element-citation>  
			</ref>

			<ref id="CIT06">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Ferreira</surname>
				  <given-names>Paulo</given-names>
				  </name>  
			  </person-group>
			  <year>1972</year> 
			  <source>Correspondance de quatre artistes portugais</source>
			  <publisher-loc>Paris</publisher-loc>
			  <publisher-name>PUF</publisher-name> 
			</element-citation>  
			</ref>

			<ref id="CIT07">
			<element-citation publication-type="journal">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Ferro</surname>
				  <given-names>António</given-names>
				  </name>  
			  </person-group>
			  <year>1925</year> 
			  <article-title>Os artistas do salão de Outono</article-title>
			  <source>Diário de Noticias</source>
			  <issue>(16 Dezembro)</issue>
			</element-citation>  
			</ref>

			<ref id="CIT08">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Frampton</surname>
				  <given-names>Kenneth</given-names>
				  </name> 
			  </person-group>
			  <year>1985</year>
			  <chapter-title>Hacia um regionalismo crítico: Seis puntos para uma arquitectura de resistencia</chapter-title>
			  <source>La Postmodernidad</source> 
			  <publisher-loc>Barcelona</publisher-loc>
			  <publisher-name>Kairos</publisher-name> 
			  <comment>(ed. Hal Foster)</comment> 
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT09">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>França</surname>
				  <given-names>José-Augusto</given-names>
				  </name>  	  		  
			  </person-group>
			  <year>1985 [1957]</year>
			  <chapter-title>Amadeo de Souza-Cardoso, o Português à Força</chapter-title>
			  <source>Amadeo &#x0026; Almada</source> 
			  <publisher-loc>Venda Nova</publisher-loc>
			  <publisher-name>Bertrand</publisher-name>  
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT10"> 
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>França</surname>
				  <given-names>José-Augusto</given-names>
				  </name>  	  		  
			  </person-group>
			  <year>1997 [1974]</year>
			  <chapter-title>O ‘facto artístico’ na sociologia da arte</chapter-title>
			  <source>(In)definições de Cultura</source> 
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>Presença</publisher-name>  
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT11">
			<element-citation publication-type="journal">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>França</surname>
				  <given-names>José-Augusto</given-names>
				  </name>  	  		  
			  </person-group>
			  <year>1968</year>
			  <article-title>Amadeo (e Santa Rita) 1918-1968</article-title>
			  <source>Colóquio: revista de artes e letras</source> 
			  <issue>51</issue>
			  <comment>(Dezembro)</comment>
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT12">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>França</surname>
				  <given-names>José-Augusto</given-names>
				  </name>  	  		  
			  </person-group>
			  <year>1956</year>
			  <chapter-title>Il faut être absolument moderne, Rimbaud</chapter-title>
			  <source>Pentacórnio</source> 
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <comment>s.n.</comment>
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT13">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="editor">
				  <name>
				  <surname>Freitas</surname>
				  <given-names>M. Helena</given-names>	  
				  </name>  	    
			  </person-group>
			  <year>2007</year>
			  <source>Catálogo Raisonné Amadeo Souza Cardoso: Fotobiografia</source> 
			  <comment>Volume I</comment>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>FCG</publisher-name>  
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT14">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Freitas</surname>
				  <given-names>M. Helena</given-names>	  
				  </name>  	    
			  </person-group>
			  <year>2006</year>
			  <chapter-title>Amadeo de Souza-Cardoso, Diálogo de Vanguardas</chapter-title>
			  <source>Diálogo de Vanguardas</source> 
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>FCG-CAM</publisher-name>  
			</element-citation>
			</ref>

			<ref id="CIT15">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Gonçalves</surname>
				  <given-names>Rui Mário</given-names>
				  </name>  	  		  
			  </person-group>
			  <year>2006</year>
			  <source>Amadeo de Souza-Cardoso: A ânsia de originalidade</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>Caminho</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT16">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Krauss</surname>
				  <given-names>Rosalind</given-names>
				  </name>  	  		  
			  </person-group>
			  <year>1996 [1985]</year>
			  <source>La originalidad de la Vanguardia y otros mitos modernos</source>
			  <publisher-loc>Madrid</publisher-loc>
			  <publisher-name>Alianza Forma</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT17">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Krauss</surname>
				  <given-names>Rosalind</given-names>
				  </name>  	  		  
			  </person-group>
			  <year>1985</year>
			  <chapter-title>La escultura como campo expandido</chapter-title>
			  <source>La Postmodernidad</source>
			  <publisher-loc>Barcelona</publisher-loc>
			  <publisher-name>Kairos</publisher-name>  
			  <comment>(ed. Hal Foster)</comment> 
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT18">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Lapa</surname>
				  <given-names>Pedro</given-names>
				  </name>	  		  
			  </person-group>
			  <year>1999</year>
			  <chapter-title>A Modernist Through the Memory of a Distant Present</chapter-title>
			  <source>At the Edge: A Portuguese Futurist</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>GRI, Corcoran Gallery</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT19">
			<element-citation publication-type="journal">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Lopes</surname>
				  <given-names>Silvina Rodrigues</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>2007</year>
			  <article-title>Resistir às máquinas identitárias</article-title>
			  <source>Intervalo</source>
			  <issue>3</issue>
			  <comment>A Fuga (Maio)</comment>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT20">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Lourenço</surname>
				  <given-names>Eduardo</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>1981</year>
			  <source>O Espelho Imaginário. Pintura, anti-pintura, não pintura</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>IN-CM</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT21">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Ó</surname>
				  <given-names>Jorge Ramos do</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>1999</year>
			  <source>Os anos de Ferro</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>Estampa</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT22">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>O’Neill</surname>
				  <given-names>Rosemary</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>1999</year>
			  <chapter-title>Modernist Rendez-vous: Amadeo de Souza Cardoso and the Delaunays</chapter-title>
			  <source>At the Edge: A Portuguese Futurist</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>GRI, Corcoran Gallery</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT23">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Perloff</surname>
				  <given-names>Marjory</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>2003 [1986]</year>
			  <source>The Futurist Moment: Avant-Garde, Avant-Guerre, and the Language of Rupture</source>
			  <publisher-loc>Chicago</publisher-loc>
			  <publisher-name>The University of Chicago Press</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT24">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Pessoa</surname>
				  <given-names>Fernando</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>2001</year>
			  <source>Crítica – Ensaios, Artigos e Entrevistas</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>Assírio e Alvim</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT25">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Rancière</surname>
				  <given-names>Jacques</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>2010</year>
			  <source>Estética e Política: A Partilha do sensível</source>
			  <publisher-loc>Porto</publisher-loc>
			  <publisher-name>Dafne</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT26">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Santos</surname>
				  <given-names>Boaventura Sousa</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>1994</year>
			  <source>Pela Mão de Alice. O Social e o Político na Pós-Modernidade</source>
			  <publisher-loc>Porto</publisher-loc>
			  <publisher-name>Afrontamento</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT27">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Santos</surname>
				  <given-names>Mariana Pinto dos</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>2010</year>
			  <chapter-title>‘Estou atrasado! Estou atrasado!’ — Sobre o atraso da arte portuguesa diagnosticado pela historiografia</chapter-title>
			  <source>Representações da Portugalidade</source>
			  <publisher-loc>Covilhã</publisher-loc>
			  <publisher-name>Universidade da Beira Interior</publisher-name>
			  <comment>[no prelo]</comment>
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT28">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Santos</surname>
				  <given-names>Rui Afonso</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>1999</year>
			  <chapter-title>Entrada</chapter-title>
			  <source>At the Edge: A Portuguese Futurist</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>GRI, Corcoran Gallery</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT29">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Silver</surname>
				  <given-names>Kenneth</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>1999</year>
			  <chapter-title>Amadeo in the Tower of Babel</chapter-title>
			  <source>At the Edge: A Portuguese Futurist</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>GRI, Corcoran Gallery</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>

			<ref id="CIT30">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Silver</surname>
				  <given-names>Kenneth</given-names>
				  </name> 	  		  
			  </person-group>
			  <year>1989</year>
			  <source>Esprit de Corps: The Art of the Parisian Avant-Garde and the First World War, 1914-1925</source>
			  <publisher-loc>London</publisher-loc>
			  <publisher-name>Thames and Hudson</publisher-name>  
			</element-citation> 
			</ref>


		</ref-list>
		
		<app-group>
		<app>
		
		<title>ANEXO 1- NOTA BIOGR&#x00C1;FICA </title>
		
		<p>Amadeo nasceu na quinta dos seus pais em Manhufe (Amarante, Portugal) a 14 de Novembro de 1887. Cresceu entre 9 irmãos, no seio de uma fam&#x00ED;lia de propriet&#x00E1;rios rurais. Passou a sua infância entre a casa de Manhufe e as estâncias de veraneio na praia de Espinho. Ai conheceu Manuel Laranjeira cuja amizade foi determinante para incentivar a pr&#x00E1;tica do desenho, pr&#x00E1;tica que Amadeo desenvolveu em Lisboa no âmbito dos estudos preparat&#x00F3;rios de Arquitectura na Academia de Belas Artes de Lisboa iniciados em 1905. </p>
		
		<p>A viagem para Paris em Novembro do ano seguinte não tinha data de regresso. Financiado pelos pais, Amadeo instalou-se no Boulevard Montparnasse para prosseguir os estudos de Arquitectura na &#x00C9;cole des Beaux Arts. Contudo, o ambiente parisiense reforçou a sua inclinação para o desenho e a caricatura, contribuindo para afast&#x00E1;-lo de vez do campo da Arquitectura. Particularmente influenciado pela ilustração que circulava na imprensa francesa, Amadeo não tardar&#x00E1; a dedicar-se ao desenho e à pintura. </p>
		
		<p>Os primeiros anos de estadia em Paris ficaram marcados pelo conv&#x00ED;vio com outros portugueses emigrados. O est&#x00FA;dio que alugou no 14, Cit&#x00E9; Falguière converteu-se num espaço de tert&#x00FA;lias e bo&#x00E9;mia com a presença ass&#x00ED;dua de artistas como Manuel Bentes, Eduardo Viana (que o acompanhar&#x00E1; em 1907 numa viajem à Bretanha), Emm&#x00E9;rico Nunes, Domingos Rebelo e Smith.  </p>
		
		<p>O final de 1908 e o in&#x00ED;cio do ano seguinte trazem importantes alterações à vida de Amadeo: conhece Lucia Pecetto, com quem casar&#x00E1; em 1914, e começa a frequentar as classes da Academia Viti, do pintor espanhol Anglada-Camarasa. Muda então o seu atelier para a rue des Fleurus num espaço cont&#x00ED;guo ao apartamento de Gertrude Stein. Estas alterações terão contribuido para distanci&#x00E1;-lo do circuito dos artistas portugueses. Mas esse afastamento volunt&#x00E1;rio traduzia tamb&#x00E9;m um corte de sentido pl&#x00E1;stico, uma vontade de romper com a “rotina atrasada” que lhes atribui. Amadeo mergulhava então plenamente nas pesquisas do modernismo internacional em desenvolvimento em Paris. &#x00C9; nesse contexto que, em 1910, o veremos entusiasmado com as pinturas dos “primitivos” flamengos (numa estadia de 3 meses em Bruxelas). &#x00C9; neste per&#x00ED;odo tamb&#x00E9;m que o veremos aprofundar a sua amizade com Amedeo Modigliani. </p>
		
		<p>Em 1911, Amadeo muda outra vez de est&#x00FA;dio. Instala-se pr&#x00F3;ximo do Quai d’Orsay, na rue du Colonel Combes. Em Outubro realiza neste espaço uma exposição com Modigliani. Esta não seria, contudo, a primeira exposição da sua obra. Alguns meses antes, Amadeo apresentara um conjunto de 6 pinturas no Salon des Ind&#x00E9;pendents. Volta a expôr neste Salão no ano seguinte e em 1914. De igual modo, mostra o seu trabalho no Salon d’Automne entre 1912 e 1914. Entretanto, o seu c&#x00ED;rculo de amizades e conhecimentos estende-se e internacionaliza-se. Conhece Umberto Boccioni, Gino Severini, e Walter Pach, que mais tarde o convidar&#x00E1; a participar no Armory Show. Est&#x00E1; tamb&#x00E9;m em contacto com Juan Gris, Max Jacob, Sonia e Robert Delaunay, Brancusi, Archipenko, Umberto Brunelleschi e Diego Rivera, entre outros. </p>
		
		<p>O interesse de Amadeo pelo desenho consolida-se neste per&#x00ED;odo com a preparação do manuscrito ilustrado da L&#x00E9;gende de Saint Julien L’Hopitalier de Flaubert e pela publicação do &#x00E1;lbum XX Dessins com pref&#x00E1;cio de Jerôme Doucet, &#x00E1;lbum que mereceria uma apreciação muito favor&#x00E1;vel do c&#x00E9;lebre cr&#x00ED;tico Louis Vauxcelles. </p>
		
		<p>Amadeo esforçar-se-&#x00E1; tamb&#x00E9;m por mostrar a sua pintura fora do circuito parisiense. Os contactos que estabelece nestes anos permitir-lhe-ão participar numa s&#x00E9;rie de importantes exposições colectivas, entre as quais a Exposição Internacional de Arte Moderna de 1913, tamb&#x00E9;m conhecida como Armory Show, que mostraria pela primeira vez a moderna arte europeia nos EUA (Nova Iorque, Chicago e Boston). Amadeo apresenta um total de 8 obras, ao lado de Braque, Matisse, Duchamp, Gleizes, Herbin y Segonzac. Três das suas telas foram compradas pelo coleccionador de Chicago, Arthur J. Eddy, o qual, ao publicar Cubist and Post-Impressionism (1914), cita e reproduz algumas das obras do pintor português, destacando-o pelo seu colorido. Outros importantes contactos vão lev&#x00E1;-lo à Alemanha. Em Setembro de 1913, j&#x00E1; depois de outra mudança de est&#x00FA;dio (que o leva a instalar-se em Montparnasse, na rua Ernest Cresson), estar&#x00E1; representado no I Herbstsalon de Berlim, organizado pela Galeria Der Sturm. Amadeo j&#x00E1; havia trabalhado com esta galeria berlinense em Novembro de 1912, data em que pela primeira vez expôs no seu espaço. &#x00C9; muito prov&#x00E1;vel que em 1914 tenha participado em mostras em Col&#x00F3;nia e Hamburgo e &#x00E9; certo que em Abril desse mesmo ano enviou 3 trabalhos para a Royal Academy de Londres, tendo todavia a exposição sido cancelada com o deflagrar da Guerra. </p>
		
		<p>Tamb&#x00E9;m em 1914, antes de deixar Paris para passar o Verão em Portugal, como era habitual, Amadeo volta a mudar de atelier para a Vila Louvat, no nº38 bis da rua Boulard. Não chegou todavia a utilizar este espaço. Ap&#x00F3;s uma breve passagem por Barcelona em que visita o seu amigo, escultor, Ant&#x00F3;nio Sola, e conhecer&#x00E1; Gaud&#x00ED;, Amadeo regressa a Manhufe onde ser&#x00E1; surpreendido pelo deflagrar da Guerra que o impedir&#x00E1; de regressar a Paris. </p>
		
		<p>A estadia forçada de Amadeo em Portugal não foi sin&#x00F3;nimo de apatia criativa. Se ainda em Paris a sua obra explorara os dom&#x00ED;nios da abstracção e, depois, enveredara por vias de compromisso expressionismo, o ex&#x00ED;lio em Portugal acabar&#x00E1; por constituir-se como um momento de plena maturação da sua pintura que se aproximar&#x00E1; então de muitas das questões equacionadas no dom&#x00ED;nio colagem. </p>
		
		<p>Em 1915, o isolamento de Amadeo em Amarante foi quebrado pelo contacto com Sonia e Robert Delaunay que a Guerra fizera tamb&#x00E9;m, inesperadamente, aportar a Vila do Conde. Por esta via, o c&#x00ED;rculo das suas relações recupera Eduardo Viana alarga-se a Almada Negreiros. No seio deste n&#x00FA;cleo de amizades geram-se diversos projectos, nomeadamente a criação de uma Corporation Nouvelle destinada a promover exposições internacionais itinerantes, ideia que nunca chegou a concretizar-se. Entretanto, atrav&#x00E9;s de Almada, Amadeo entra em contacto com o grupo dos “Futuristas” lisboetas, reunidos inicialmente em torno da revista Orpheu. </p>
		
		<p>Na batalha pela agitação do meio art&#x00ED;stico português, Amadeo teve um papel discreto, mas relevante. No final de 1916, numa conhecida entrevista que deu ao jornal O Dia, parafraseia largamente os manifestos de Marinetti. Não que as propostas do Futurismo o cativassem enquanto solução formal. A postura radical, modernista, nacionalmente identificada com o movimento, convieram todavia a Amadeo como forma de intervenção e motor de ruptura com as estruturas tradicionalistas dominantes e que haviam atacado por ocasião das suas duas &#x00FA;nicas exposições realizadas em vida em Portugal. </p>
		
		<p>Em Dezembro de 1916 Amadeo promoveu, primeiro no Porto e depois em Lisboa, uma mostra em que reuniu sob o t&#x00ED;tulo de Abstraccionismo 114 pinturas. O desfasamento da cultura est&#x00E9;tica nacional impediu uma recepção favor&#x00E1;vel das propostas pict&#x00F3;ricas de Amadeo, ganhando os certames uma aura de escândalo (coroada no limite pela agressão f&#x00ED;sica ao pintor). Neste contexto importa destacar o protagonismo de Almada Negreiros e Fernando Pessoa na defesa p&#x00FA;blica do pintor. Ambos o reconheceram como o pintor mais significativo do seu tempo. Mas não deixaram de ser manifestações excêntricas e isoladas. </p>
		
		<p>Amadeo morreu em Espinho em Outubro de 1918 v&#x00ED;tima da epidemia de pneum&#x00F3;nica que deflagrou nesse ano. Tinha apenas 30 anos.</p>



		</app>
		</app-group>
		
	</back>
</article>