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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">Arbor</journal-id>
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				<journal-title>ARBOR Ciencia, Pensamiento y Cultura</journal-title>
				<abbrev-journal-title>Arbor</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">0210-1963</issn>
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				<publisher-name>Consejo Superior de Investigaciones Cient&#x00ED;ficas</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="publisher-id">arbor.2014.766n2009</article-id>
			<article-id pub-id-type="doi">10.3989/arbor.2014.766n2009</article-id>
			 
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				<subject>HISTORIA, CULTURA Y DEPORTE DE PORTUGAL / HISTORY, CULTURE AND SPORT FROM PORTUGAL</subject>
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				<article-title>PORTUGAL, ESPA&#x00D1;A Y EL F&#x00DA;TBOL. LA CONSTRUCCI&#x00D3;N HIST&#x00D3;RICA DE UNA AMISTAD</article-title>
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					<trans-title>PORTUGAL, SPAIN AND FOOTBALL. THE HISTORICAL CONSTRUCTION OF A FRIENDSHIP</trans-title>
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				<alt-title alt-title-type="running-head">PORTUGAL, ESPA&#x00D1;A Y EL F&#x00DA;TBOL</alt-title>
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					 <surname>Pinheiro</surname>
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			<aff id="U1">Centro de investigação: CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do S&#x00E9;culo XX, Universidade de Coimbra, Portugal</aff>
			
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				<year>2014</year>
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			<year>2014</year>
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			<volume>190</volume>
			<issue>766</issue>
			
			<elocation-id content-type="doi">10.3989/arbor.2014.766n2009</elocation-id>

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					<license-p>Este es un art&#x00ED;culo de acceso abierto distribuido bajo los t&#x00E9;rminos de la licencia Creative Commons Attribution-Non Commercial (by-nc) Spain 3.0.</license-p>
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				<title>RESUMEN</title>
				<p>El f&#x00FA;tbol es uno de los principales fen&#x00F3;menos sociales y culturales en Portugal y Espa&#x00F1;a, habiendo creado importantes puentes de amistad entre los dos pa&#x00ED;ses en el siglo XX. Este art&#x00ED;culo tiene como objetivo identificar los motivos que llevaron a la construcci&#x00F3;n hist&#x00F3;rica de esta relaci&#x00F3;n ib&#x00E9;rica en el f&#x00FA;tbol, exponiendo algunos de los principales momentos que permitieron crear esta amistad. El an&#x00E1;lisis se centra en la primera mitad del siglo XX, periodo en el cual naci&#x00F3;, creci&#x00F3; y se desarroll&#x00F3; esta relaci&#x00F3;n. </p>
			</abstract>
			
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>Football is one of the most important social and cultural phenomena in Portugal and Spain, responsible for building solid ties of friendship between the two countries in the 20th century. This article aims to identify the reasons for the emergence of this Pan-Iberian relationship in football, focusing on how the friendship developed and became established over the first half of the 20th Century.</p>
			</trans-abstract>
			
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>PALABRAS CLAVE</title>
				<kwd>f&#x00FA;tbol</kwd>
				<kwd>iberismo</kwd>
				<kwd>prensa</kwd>
				<kwd>guerra</kwd>
				<kwd>pol&#x00ED;tica</kwd>
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				<title>KEYWORDS</title>
				<kwd>football</kwd>
				<kwd>Iberism</kwd>
				<kwd>press</kwd>
				<kwd>war</kwd>
				<kwd>politic</kwd>
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	<body>
		

		
		<sec id="S1">
		<title>INTRODUÇÃO </title>
		
		<p>No dia 2 de Dezembro de 2010, em Zurique, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, anunciou o resultado das votações do Comit&#x00E9; Executivo daquele organismo para as candidaturas à organização dos Campeonatos do Mundo de Futebol de 2018 e 2022. A candidatura ib&#x00E9;rica, de Espanha e Portugal, ficou em segundo lugar, preterida a favor da R&#x00FA;ssia, para a organização do Mundial de 2018. Apesar da natural desilusão, a candidatura ib&#x00E9;rica foi, em si mesma, uma demonstração das boas relações desportivas e pol&#x00ED;ticas existentes entre ambos pa&#x00ED;ses. &#x00C9; precisamente sobre a construção hist&#x00F3;rica desta relação ib&#x00E9;rica no futebol que ir&#x00E1; versar esta reflexão, pincelando alguns dos principais momentos que permitiram arquitectar esta amizade ib&#x00E9;rica num campo tão espec&#x00ED;fico como o futebol&#x00ED;stico, cingindo-se a an&#x00E1;lise à primeira metade do s&#x00E9;culo XX, per&#x00ED;odo durante o qual nasceu, cresceu e se consolidou esta relação. O objecto de estudo ser&#x00E1; assim o futebol, nas suas m&#x00FA;ltiplas dimensões, al&#x00E9;m da meramente desportiva.  </p>
		
		<p>O futebol transformou-se, ao longo do s&#x00E9;culo XX, numa das maiores paixões populares nos dois pa&#x00ED;ses, ocupando um lugar central em ambas sociedades e assumindo-se, sem d&#x00FA;vida, num dos temas preferidos das conversas, dominando os discursos medi&#x00E1;ticos e as audiências em Portugal e Espanha. E em certos momentos conseguiu mesmo parar os pa&#x00ED;ses, tornando-os mais felizes ou deprimidos conforme os resultados dos jogos, em especial das suas selecções nacionais. Ali&#x00E1;s, a condição de centralidade social e cultural do futebol, em Portugal e Espanha, permite claramente aplicar a este fen&#x00F3;meno o conceito de «facto social total» (Coelho, <xref ref-type="bibr" rid="CIT03">2001</xref>, 38), o qual Marcel Mauss definiu como «fen&#x00F3;menos que em certos casos mobilizam a totalidade da sociedade e das suas instituições» (Bromberger, <xref ref-type="bibr" rid="CIT02">1993</xref>, 145). Foi precisamente isso que sucedeu em Portugal durante a realização do Campeonato da Europa de Futebol de 2004, em 2010, na Espanha, com a conquista do Campeonato do Mundo de Futebol da &#x00C1;frica do Sul. Deste modo, o futebol, em si mesmo, diz-nos muito acerca de cada um dos dois pa&#x00ED;ses, merecendo por isso toda a atenção por parte das ciências sociais e humanas. </p>
		
		</sec>
		
		<sec id="S2">
		<title>INTERNACIONALIZAÇÃO PELA MÃO ESPANHOLA </title>
		
		
		<p>Os prim&#x00F3;rdios do futebol em Portugal remontam ao &#x00FA;ltimo quartel do s&#x00E9;culo XIX, estando a sua origem ligada às elites portuguesas que estudavam em Inglaterra, em col&#x00E9;gios ingleses (onde a modalidade nascera e se popularizara), e à comunidade inglesa radicada em Portugal, principalmente nos meios urbanos de Lisboa e Porto. Entre 1888 e os primeiros anos da d&#x00E9;cada de 1900 assistiu-se à «fase de descoberta» (Coelho; Pinheiro, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2004b</xref>, 33) do futebol por parte dos portugueses, verificando-se a partir de meados dessa d&#x00E9;cada um processo de crescente popularização e institucionalização da modalidade. Para o despoletar desse fen&#x00F3;meno foi essencial o papel da imprensa desportiva, assim como a organização dos primeiros torneios e a fundação daqueles que viriam a ser os clubes portugueses mais populares, denominados de «três grandes», como seriam o Sport Lisboa e Benfica (Lisboa, 1904), Sporting Clube de Portugal (Lisboa, 1906) e Futebol Clube do Porto (Porto, 1906). A conjugação destes factores permitiu ao futebol abandonar o berço de ouro das elites, em que nascera no s&#x00E9;culo XIX, e caminhar rapidamente para os braços do povo, tornando-se progressivamente num fen&#x00F3;meno de massas. </p>
		
		<p>A gradual popularização do futebol em Portugal, na primeira d&#x00E9;cada do s&#x00E9;culo XX, levaria as principais equipas de Lisboa e do Porto a procurarem internacionalizar-se, podendo assim comparar o n&#x00ED;vel do seu futebol com o das equipas estrangeiras. E numa &#x00E9;poca em que os meios de transporte eram escassos e muito morosas as viagens foi com naturalidade que se iniciaram os primeiros contactos com equipas da vizinha Espanha. A primeira visita de um clube português a Espanha sucedeu em in&#x00ED;cios de 1907, com o Clube Internacional de Futebol, mais conhecido por CIF (fundado pela elite lisboeta), a visitar Madrid, a convite de um clube da capital madrilena. Uma vez que se desconhecia o n&#x00ED;vel qualitativo do futebol espanhol, a equipa portuguesa reforçou-se com alguns dos melhores jogadores de outras equipas lisboetas e, inclusivamente, do Porto. Assim, no dia 5 de Janeiro, perante cerca de dez mil espectadores, o CIF enfrentou os anfitriões do Madrid Football Club, conseguindo impressionar o p&#x00FA;blico espanhol com uma exibição que valeu uma vit&#x00F3;ria lusa por 2-0. A imprensa portuguesa, atrav&#x00E9;s da revista <italic>Tiro e Sport</italic> (Lisboa, 1904-1913), faria eco da forma amistosa com que a equipa portuguesa foi recebida em Madrid, sendo a recepção espanhola considerada exemplar, envolvendo v&#x00E1;rias actividades sociais e festivas, como idas ao teatro e lautos banquetes. </p>
		
		<p>O sucesso deste primeiro intercâmbio ib&#x00E9;rico gerou uma onda de simpatia na imprensa desportiva portuguesa, incentivando as principais equipas lusas a fazerem a sua estreia internacional com clubes espanh&#x00F3;is. No Norte, o FC Porto estabeleceu contacto com alguns clubes da Galiza, convidando-os a visitarem o Porto. Uma equipa de Vigo, o Fortuna Football Club, aceitou o convite e em Dezembro de 1907 deslocou-se ao Porto, onde enfrentou a equipa portista, naquele que seria considerado o primeiro jogo internacional de um clube estrangeiro em Portugal (Coelho &amp; Pinheiro, <xref ref-type="bibr" rid="CIT04">2002</xref>, 109). Mais uma vez repetiram-se as imagens de amizade e simpatia entre ambos clubes, contribuindo decisivamente para a criação daquele que seria um dos elos mais fortes do futebol ib&#x00E9;rico ao longo da primeira metade do s&#x00E9;culo XX, formado pelas regiões da Galiza e do Norte de Portugal, em especial entre as cidades do Porto e Vigo. Esta relação de proximidade levaria mesmo, em in&#x00ED;cios de 1909, o Vigo Football Club a promover a organização de um Concurso Ib&#x00E9;rico de Futebol, prova que deveria ser disputada entre Janeiro e Fevereiro de 1909, tendo como pr&#x00E9;mio uma taça em prata. As equipas escolhidas teriam de pertencer à Pen&#x00ED;nsula Ib&#x00E9;rica e deveriam representar uma região. Em Portugal, a revista <italic>Tiro e Sport</italic> apoiaria a ideia na edição de 10 de Janeiro de 1909, sublinhando a importância do torneio para o desenvolvimento do futebol ib&#x00E9;rico e para o reforço das relações desportivas entre ambos pa&#x00ED;ses. Mas, apesar da receptividade da imprensa portuguesa, o concurso não avançaria devido às dificuldades impostas pela falta de meios de transporte entre as regiões e pela ausência de &#x00F3;rgãos associativos e federativos que garantissem uma boa organização. </p>
		
		<p>Apesar da tentativa frustrada de organizar o primeiro torneio ib&#x00E9;rico de futebol, os convites interclubes continuaram a suceder-se. Em Maio de 1909, o CIF, que tão boa imagem havia deixado em Madrid em 1907, recebeu um novo convite para jogar em Espanha, desta feita pelo Sport Club Bacense, de Badajoz. O grande atractivo para os portugueses era a possibilidade de conquistar uma magn&#x00ED;fica taça oferecida pela autarquia de Badajoz, que se associou à iniciativa. Deste modo, em 13 de Maio de 1909, perante uma multidão de quatro mil pessoas, a equipa do CIF demonstraria a sua classe em terras extremenhas, impressionando o p&#x00FA;blico espanhol pela sua t&#x00E9;cnica e capacidade f&#x00ED;sica, vencendo por um claro 3-0. A imagem do CIF ficaria, desta forma, ainda mais fortalecida em Espanha, trazendo de Badajoz a primeira taça conquistada no estrangeiro por uma equipa de futebol portuguesa. E, naturalmente, o prest&#x00ED;gio granjeado pelo CIF motivaria novos convites em 1910. Em meados desse ano, o Club Recreativo de Huelva endereçou um convite à equipa lisboeta para um jogo amig&#x00E1;vel, tendo o CIF declinado o apelo, apontando o Sporting CP como uma opção para o substituir. Embora a vontade de jogar pela primeira vez contra uma equipa estrangeira fosse muita, o clube sportinguista teve dificuldades em reunir jogadores suficientes e de qualidade para a viagem a Huelva, decidindo-se pela formação de um misto dos melhores jogadores lisboetas. Este misto jogou a Huelva em 27 de Agosto de 1910, goleando o Recreativo por 4-0, perante mais de oito mil espectadores, uma assistência numerosa com forte presença de mulheres e crianças. No final do jogo celebrou-se um animado banquete de homenagem à equipa portuguesa, findo o qual os portugueses encetaram a viagem de regresso a Lisboa, que demoraria cerca de 26 horas, envolvendo percursos de carro e comboio. </p>
		
		<p>A implantação da Rep&#x00FA;blica Portuguesa, em 5 de Outubro de 1910, ditando o fim do regime mon&#x00E1;rquico, motivaria algumas tentativas de mudança de mentalidades, com efeitos a n&#x00ED;vel desportivo. A ideia de desporto enquadrava-se agora no princ&#x00ED;pio de regeneração, robustecimento e criação do «novo» homem português, afastando-se da decadência associada à Monarquia e ao «velho» homem mon&#x00E1;rquico, apresentado na imprensa desportiva como corrupto, retr&#x00F3;grado e mais interessado na taberna do que na actividade f&#x00ED;sica. Nos primeiros anos da Rep&#x00FA;blica, entre 1910 e 1913, a popularidade do futebol cresceu, ultrapassando em fama outros desportos e espect&#x00E1;culos at&#x00E9; a&#x00ED; preferidos pelo povo, como eram as touradas ou o ciclismo.  </p>
		
		<p>Neste per&#x00ED;odo reforçou-se a ligação futebol&#x00ED;stica entre o Norte de Portugal e a Galiza, com as principais equipas do Porto e Vigo a visitarem-se regularmente. A boa relação entre ambas regiões estaria na origem da digressão pela Corunha e pelo Porto, em Abril de 1911, da equipa francesa do Vie au Grand Air du Medoc, de Bord&#x00E9;us, campeã do sudeste da França. No mês seguinte, por seu turno, Lisboa assistiu entusiasticamente à visita do primeiro clube estrangeiro de futebol, os franceses do Stade Bordelais Universit&#x00E9; Club. Estas visitas de clubes estrangeiros, alargadas agora ao meio desportivo francês, contribu&#x00ED;ram largamente para a popularização do futebol em Portugal, atraindo milhares de espectadores, quer pela novidade quer pelo despertar de sentimentos patri&#x00F3;ticos, muito em voga na &#x00E9;poca. E al&#x00E9;m de terem como objectivo melhorar o n&#x00ED;vel futebol&#x00ED;stico dos portugueses, eram tamb&#x00E9;m parte integrante de uma pol&#x00ED;tica de reconhecimento internacional do novo regime republicano. Este per&#x00ED;odo marcou um grande desenvolvimento da modalidade, correspondendo a uma segunda fase de estruturação do futebol português, agora virada para o movimento associativo (Coelho &amp; Pinheiro, <xref ref-type="bibr" rid="CIT06">2004b</xref>, 38), formando-se as associações regionais de futebol de Lisboa (1910), Portalegre (1911), Porto (1912), assim como a União Portuguesa de Futebol (1914), primeiro &#x00F3;rgão nacional de futebol (em 1926 seria convertida em Federação Portuguesa de Futebol). </p>
		
		<p>Prosseguindo a tendência de 1911, no ano seguinte realizaram-se v&#x00E1;rios jogos internacionais entre clubes portugueses e espanh&#x00F3;is. Em Março, o Real Vigo visitou a cidade do Porto, efectuando alguns encontros, o mais importante deles frente ao FC Porto, em 17 de Março, no Campo da Rainha, com a equipa portuense a vencer por 4-1, perante numeroso p&#x00FA;blico, angariando uma receita de bilheteira hist&#x00F3;rica. Pouco tempo depois, em Junho, seria a vez do SL Benfica visitar a Corunha, naquela que era a sua primeira digressão ao estrangeiro, a convite do Real Clube da Corunha. Estes encontros internacionais continuaram, assim, a reforçar a amizade ib&#x00E9;rica no futebol, contribuindo para o desenvolvimento t&#x00E9;cnico e t&#x00E1;ctico do futebol português, bem como para a criação de uma mentalidade desportiva mais forte por parte dos futebolistas portugueses. E obviamente os jogos entre equipas portuguesas e espanholas mantiveram-se no ano seguinte, em 1913, sublinhando-se a visita a Madrid do SL Benfica e do CIF, ambas convidadas pelo Madrid Football Club e pela Sociedad Gimnastica de Madrid.  </p>
		
		
		</sec>
		
		
		<sec id="S3">
		<title>GUERRA REFORÇA AMIZADE IB&#x00C9;RICA </title>
		
		
		<p>Entre 1914 e 1918, o desenrolar da Primeira Guerra Mundial contribuiu para uma maior aproximação entre o futebol português e espanhol. A imprensa desportiva portuguesa, escassa e confinada a Lisboa, publicava regularmente editoriais que defendiam uma crescente aproximação entre Portugal e Espanha no campo desportivo. Com o som das armas a dominar os di&#x00E1;logos entre as principais potências europeias, era aplaudido o aprofundamento das relações entre os dois vizinhos ib&#x00E9;ricos. Em 17 de Abril de 1915, no artigo «E a Espanha?», o principal jornal desportivo português, <italic>O Sport de Lisboa</italic> (Lisboa, 1915-1934), lembrava que os pa&#x00ED;ses mais desconhecidos para os portugueses eram aqueles a que estes estavam historicamente mais unidos: «Os dois pa&#x00ED;ses a que n&#x00F3;s estamos, h&#x00E1; s&#x00E9;culos, mais intimamente ligados são a Inglaterra e a Espanha – aquela, nossa aliada, esta, nossa vizinha. São justamente, de todo o globo terr&#x00E1;queo, os pa&#x00ED;ses que n&#x00F3;s menos conhecemos. Não admira, pois, que a arte, a literatura, a ciência, a ind&#x00FA;stria, o com&#x00E9;rcio espanh&#x00F3;is nos sejam absolutamente desconhecidos. Naturalmente o mesmo sucede no campo dos desportos. Desconhecemo-nos e desconhecemo-nos mutuamente.» </p>
		
		<p>Apesar desse desconhecimento m&#x00FA;tuo, o campo futebol&#x00ED;stico continuou a criar pontes entre ambos pa&#x00ED;ses durante os anos da guerra. Em 1915, os convites sucederam-se de lado a lado. O SL Benfica realizou uma digressão por Espanha, efectuando v&#x00E1;rios jogos em Madrid (onde venceu o Real Madrid por 5-4) e na Galiza. E em meados desse ano, Real Vigo e Real Club Deportivo Espa&#x00F1;ol, de Barcelona, visitaram Lisboa a convite dos principais clubes da capital portuguesa, repetindo-se o ambiente de amizade reinante at&#x00E9; então nestas partidas. Mas algo estava a mudar. Começou a notar-se um crescendo de competitividade entre as equipas, com o esp&#x00ED;rito de vit&#x00F3;ria a começar a sobrepor-se à tradicional ideia de fair-play.  </p>
		
		<p>A entrada de Portugal na guerra, em 1916, afectou todos os campos sociais, com o mundo do futebol a ficar debilitado com a sa&#x00ED;da de muitos jogadores para ingressarem nas fileiras do Corpo Expedicion&#x00E1;rio Português, criado especificamente para participar no conflito ao lado dos Aliados. No entanto, o futebol não parou, continuando a realizarem-se os campeonatos regionais, assim como as visitas de clubes espanh&#x00F3;is, embora em menor escala. Em in&#x00ED;cios de Junho de 1918, o Sevilla FC visitou Lisboa a convite dos principais clubes da cidade, realizando uma s&#x00E9;rie de jogos, assistindo-se mais uma vez a uma grande adesão por parte do p&#x00FA;blico lisboeta, com assistências de largos milhares de espectadores.  </p>
		
		<p>Esta aproximação entre o futebol de ambos pa&#x00ED;ses, durante a guerra, permitiria o surgimento de ideias que visavam o reforço da amizade ib&#x00E9;rica no futebol. Uma das principais ambições era a realização do primeiro encontro entre selecções nacionais representativas dos dois pa&#x00ED;ses, ideia lançada em 1919 pela imprensa desportiva portuguesa e espanhola – note-se que nesta altura nenhum dos pa&#x00ED;ses contava com uma selecção nacional de futebol e a ideia de cada um dos pa&#x00ED;ses criar a sua selecção, estreando-se juntas, recebia consensos. A necessidade de reforçar os laços ib&#x00E9;ricos era reflexo da pr&#x00F3;pria conjuntura pol&#x00ED;tica, dominada em parte, no caso português, pelo movimento que ficaria conhecido como Integralismo Lusitano<xref ref-type="fn" rid="NOTE01">1</xref>, defensor de uma «aliança peninsular» e caracterizado por um vasto conjunto de ideias conservadoras e mon&#x00E1;rquicas, o qual proliferou na sociedade portuguesa entre 1919 e 1922. </p>
		
		</sec>
		
		
		<sec id="S4">
		<title>FEN&#x00D3;MENO CHAMADO SELECÇÃO NACIONAL </title>
		
		<p>Estes movimentos pol&#x00ED;ticos tiveram &#x00F3;bvios reflexos no desporto português, sobretudo na imprensa desportiva, que ao longo dos anos havia apelado a uma maior aproximação entre os dois pa&#x00ED;ses, apresentando como prejudicial a tradicional separação em que ambos pa&#x00ED;ses haviam vivido ao longo da hist&#x00F3;ria. Um dos melhores exemplos dessa ret&#x00F3;rica desportiva de aproximação peninsular foi o editorial «Sport e boa pol&#x00ED;tica», publicado em <italic>Os Sports</italic> (Lisboa, 1919-1945) de 21 de Novembro de 1920, em que se afirmava: «N&#x00F3;s ignoramos a Espanha e Espanha desconhece Portugal. Vivemos lado a lado em regime de permanente desconfiança. A ciência, a arte e a cultura espanholas pouco ou nada nos interessa e poucos são entre n&#x00F3;s os que dão conta dos congressos realizados em Espanha sobre a agricultura e a ind&#x00FA;stria. Ignoramos mesmo a estrutura moral dos nossos vizinhos. Julgamo-la diferente da nossa. Imputamos-lhe v&#x00ED;cios e defeitos de que enfermamos tamb&#x00E9;m em larga escala. Muito melhor, e bem diferente da actual seria a vida peninsular se entre os dois pa&#x00ED;ses houvesse amistosas relações de intimidade, com a consequente troca intensiva de ideias em todos os campos.» A aproximação luso-espanhola chegou mesmo a ser apresentada na imprensa desportiva como a segunda prioridade para a pol&#x00ED;tica portuguesa, logo a seguir ao reforço das relações com o Brasil, como escreveria <italic>O Sport de Lisboa</italic> de 19 de Dezembro de 1921: «N&#x00F3;s somos partid&#x00E1;rios fervorosos da aproximação entre povos que têm pontos de contacto entre si. Somos, em primeiro lugar, pela aproximação luso-brasileira e, em segundo, pela aproximação luso-espanhola.» </p>
		
		<p>Foi neste contexto favor&#x00E1;vel à aproximação luso-espanhola que durante 1920 se intensificaram os contactos entre ambas federações para a realização do primeiro jogo entre as selecções nacionais de futebol dos dois pa&#x00ED;ses. E esperava-se que os problemas econ&#x00F3;micos surgidos em 1912, altura em que se tentou pela primeira vez levar a cabo o jogo entre as duas selecções, não surgissem novamente. Para Portugal tratava-se da estreia. Espanha, por seu lado, havia-se estreado durante a participação nos Jogos Ol&#x00ED;mpicos de Antu&#x00E9;rpia de 1920, na B&#x00E9;lgica, onde alcançou a medalha de prata. Desta feita, as negociações entre os dirigentes m&#x00E1;ximos do futebol dos dois pa&#x00ED;ses chegariam a bom porto, agendando-se o primeiro Portugal-Espanha para Maio de 1921, em Madrid. No entanto, dificuldades de v&#x00E1;ria ordem obrigariam a um adiamento da partida, at&#x00E9; que a 20 de Agosto se anunciou nova data, agora definitiva: 18 de Dezembro de 1921.  </p>
		
		<p>Na imprensa desportiva portuguesa, a deslocação a Espanha da primeira Selecção Nacional de Futebol de Portugal era vista com algum receio do ponto de vista desportivo. O futebol português continuava sem uma prova regular de cariz nacional, embora fosse uma aspiração antiga da União Portuguesa de Futebol. Em 1921, a maioria dos pa&#x00ED;ses europeus j&#x00E1; possu&#x00ED;a um campeonato nacional, fundamental para o desenvolvimento dos clubes e do pr&#x00F3;prio futebol. Espanha contava desde 1902 com uma prova deste g&#x00E9;nero. Em Portugal, eram muitos os clubes existentes, as associações regionais activas, sucedendo-se os campeonatos regionais e os jogos particulares, mas faltava uma competição organizada, calendarizada, com representatividade nacional, que permitisse aos clubes gerar receitas para investir em melhores instalações desportivas (a maioria dos campos eram pelados, sem condições para os jogadores e p&#x00FA;blico) e na qualidade do treino (o amadorismo era dominante). Durante 1921, as digressões de duas das principais equipas portuguesas por Espanha tinham-se saldado com sendas derrotas, denotando um claro dom&#x00ED;nio do futebol espanhol sobre o português. Em Março, o FC Porto perdeu os dois jogos que realizou na capital espanhola contra o Real Madrid, conseguindo unicamente um empate contra o Club Deportivo Europa, de Barcelona. E em Setembro, o SL Benfica foi goleado nos dois encontros que disputou na Catalunha contra o FC Barcelona. </p>
		
		<p>Al&#x00E9;m do desequil&#x00ED;brio competitivo que aparentemente existia entre o futebol dos dois pa&#x00ED;ses, a escolha dos jogadores portugueses para integrarem a primeira Selecção Nacional tamb&#x00E9;m não foi pac&#x00ED;fica, gerando controv&#x00E9;rsia a não convocação daquele que era considerado o melhor jogador português das duas primeiras d&#x00E9;cadas do s&#x00E9;culo XX, o m&#x00E9;dio Artur Jos&#x00E9; Pereira, mais conhecido como «AJ Pereira». A convocat&#x00F3;ria levaria tamb&#x00E9;m as duas principais associações de futebol, Lisboa e Porto, a desentenderem-se, com a imprensa portuense a chamar de «Selecção de Lisboa» à Selecção Nacional, uma vez que apenas estava convocado um futebolista que actuava no Campeonato do Porto.  </p>
		
		<p>Apesar das pol&#x00E9;micas, que viriam a ser recorrentes ao longo da hist&#x00F3;ria da Selecção Nacional de Futebol, a comitiva portuguesa partiu de Lisboa, rumo a Madrid, em 14 de Dezembro, sendo consensual na imprensa que os seleccionados não representavam o valor m&#x00E1;ximo do futebol português, como se lia no jornal <italic>Os Sports</italic> de 15 de Dezembro de 1921. A equipa portuguesa chegou à capital espanhola na madrugada fria do dia 15, aguardando-a alguns jornalistas e fot&#x00F3;grafos espanh&#x00F3;is. O campo escolhido para o encontro foi o do Atl&#x00E9;tico de Madrid, em terra batida, estreito e com bancadas totalmente descobertas, apresentando tamb&#x00E9;m algum desn&#x00ED;vel. E para agravar a situação, os dirigentes espanh&#x00F3;is impediram a Selecção Portuguesa de treinar no campo, alegando a necessidade de o conservar intacto para o jogo. Embora esta situação tivesse causado algum mal-estar na comitiva lusa, foi num contexto de grande euforia e amizade que na tarde de 18 de Dezembro de 1921, em Madrid, a Selecção Nacional de Futebol Portuguesa se estreou frente à cong&#x00E9;nere espanhola, numa partida dominada pelos espanh&#x00F3;is, dotados de uma qualidade t&#x00E9;cnica e t&#x00E1;ctica superiores. Apesar da boa r&#x00E9;plica dada pelos jogadores portugueses, Espanha venceu por 3-1, resultado natural devido ao d&#x00E9;fice qualitativo do onze luso quando comparado com o espanhol.  </p>
		
		<p>A derrota trouxe consigo, para as p&#x00E1;ginas dos jornais desportivos, muitos dos fantasmas que atormentavam o esp&#x00ED;rito nacional, sendo o futebol apresentado como um reflexo do resto da sociedade portuguesa, como afirmaria o jornal <italic>Os Sports</italic> em 15 de Janeiro de 1922: «Portugal, h&#x00E1; mais de 50 anos que se mant&#x00E9;m afastado do resto da Europa, não sabendo acompanhar o colossal movimento de renovação e de transformação que se realizou e se est&#x00E1; continuamente realizando em todos os ramos da actividade humana. O problema, pois, apresenta-se muito claro. De duas, uma: ou mudamos completamente de processos e nos resolvemos, por uma vez, a compreender que nada se consegue sem muito trabalho, ou continuamos persistindo nos mesmos erros e nos mesmos defeitos.»  </p>
		
		<p>Nos dois anos seguintes, as derrotas de Portugal com a selecção espanhola continuaram e cada uma delas terminava, nas p&#x00E1;ginas da imprensa desportiva e na opinião p&#x00FA;blica, numa introspecção sobre a identidade nacional, em que a pol&#x00ED;tica portuguesa era normalmente a visada, como sucedeu ap&#x00F3;s o desaire por 0-3, no terceiro jogo frente a Espanha, realizado em Sevilha, em 16 de Dezembro de 1923. Dias depois, em 26 de Dezembro, nas p&#x00E1;ginas da revista <italic>Sporting</italic> (Porto, 1921-1953), um dos mais prestigiados cronistas desportivos da &#x00E9;poca, Sousa Martins, a prop&#x00F3;sito da derrota portuguesa, afirmava que «a pol&#x00ED;tica portuguesa &#x00E9; a mais baixa, a mais reles, a mais ign&#x00F3;bil de toda a Europa, porque não h&#x00E1; pa&#x00ED;s nenhum no mundo, onde à sombra da pol&#x00ED;tica, tantos crimes impunemente se cometam». O futebol era assim o pretexto para se reflectir sobre os males que afectavam Portugal, com as derrotas da Selecção Nacional a serem encaradas como autênticos desaires nacionais e exemplos da decadência reinante. Mas quando sucedia uma vit&#x00F3;ria, escassas nos anos 1920, era vista como uma autêntica afirmação de regeneração nacional – a dicotomia decadência/regeneração, em que vivia a ideia de Portugal, dominava tamb&#x00E9;m o mundo da bola.  </p>
		
		<p>Al&#x00E9;m dos reflexos ideol&#x00F3;gicos, as derrotas com Espanha tiveram tamb&#x00E9;m efeitos pr&#x00E1;ticos. O primeiro aconteceu logo em in&#x00ED;cios de 1922, ap&#x00F3;s a derrota no jogo de estreia em Madrid. Como forma de acalmar as duras cr&#x00ED;ticas à União Portuguesa de Futebol, &#x00F3;rgão m&#x00E1;ximo do futebol português, esta decidiu avançar com a realização de uma competição de cariz nacional, o Campeonato de Portugal. Mas as dificuldades organizativas inerentes a uma prova do g&#x00E9;nero determinaram que em 1922 fosse apenas disputada pelos vencedores dos campeonatos regionais de Lisboa e Porto, deixando de fora outros campeões regionais, o que gerou forte indignação a n&#x00ED;vel regional. A derrota com Espanha nesse ano, em 17 de Dezembro de 1922, em Lisboa, naquele que foi o primeiro jogo da Selecção de Portugal em territ&#x00F3;rio nacional (perante 25 mil pessoas), e a derrota do ano seguinte, em Sevilha, gerariam novas e profundas reflexões sobre o futebol português, motivando a reformulação do Campeonato de Portugal de forma a transform&#x00E1;-lo numa competição de maior regularidade e de cariz nacional. O objectivo era melhorar o n&#x00ED;vel qualitativo das equipas portuguesas, que em 1922 sofreram pesadas derrotas frente a equipas espanholas, como sucedeu em Janeiro na digressão do SL Benfica a Sevilha (perdeu por 7-0 com o Sevilha FC) e a Madrid (derrota por 4-1 perante o Real Madrid), e em Dezembro ao FC Porto, goleado em Sevilha por 7-2. Esta superioridade dos clubes espanh&#x00F3;is iria manter-se ao longo da d&#x00E9;cada de 1920, assim como se mantiveram as digressões de equipas espanholas e portuguesas pelos dois pa&#x00ED;ses, reflexo da amizade ib&#x00E9;rica que existia no futebol. E que seria reforçada na d&#x00E9;cada seguinte com a amizade Franco-Salazar. </p>
		
		</sec>
		
		<sec id="S5">
		<title>FUTEBOL E FASCISMO </title>
		
		<p>O ano de 1926 seria de mudança pol&#x00ED;tica em Portugal, com implicações directas na vida desportiva. Chegou ao fim, de forma ingl&#x00F3;ria, a I Rep&#x00FA;blica, substitu&#x00ED;da em 28 de Maio de 1926, atrav&#x00E9;s de um golpe militar, por uma indefinida Ditadura Militar, a qual se transformaria numa ditadura civil (baptizada de Estado Novo) com a chegada ao poder do ditador Salazar, em 1932. Assim, o final da d&#x00E9;cada de 1920 seria marcada por uma forte instabilidade e indefinição pol&#x00ED;tica, em que primou a ausência de uma perspectiva estrat&#x00E9;gica, com a sociedade portuguesa a afundar-se, uma vez mais, num pântano de incertezas e inc&#x00F3;gnitas, levando a novas e profundas introspecções na imprensa, quase sempre negativas, sobre a identidade nacional. Os editoriais dos jornais desportivos passaram a reflectir essa mesma indefinição, agravada com a imposição da Censura pr&#x00E9;via à Imprensa. Mas era consensual entre os jornalistas desportivos que o dia-a-dia da imprensa desportiva não iria ser muito afectado pela Censura, j&#x00E1; que o jornalismo desportivo não era considerado priorit&#x00E1;rio, nem ideologicamente perigoso, para o censor. E isso devia-se ao facto do regime ditatorial português não ter seguido o modelo desportivo adoptado por Mussolini e Hitler nos anos 1930, que cedo reconheceram no desporto um importante meio de propaganda, tratando de cuidar ao m&#x00E1;ximo da preparação dos atletas, fomentando a sua participação nos encontros desportivos internacionais (Teja, <xref ref-type="bibr" rid="CIT08">2002</xref>, 241), e do controlo noticioso no campo desportivo.  </p>
		
		<p>A boa relação existente entre o futebol português e espanhol manteve-se nos primeiros anos da Ditadura Militar. As duas federações de futebol continuaram pr&#x00F3;ximas, agendando inclusivamente um jogo amig&#x00E1;vel entre selecções em 29 de Maio de 1927, altura em que se comemorava o primeiro anivers&#x00E1;rio do regime ditatorial em Portugal. Os encontros amig&#x00E1;veis entre ambas selecções mantiveram-se regulares nos anos seguintes, com clara superioridade competitiva por parte de Espanha. E foi com alguma naturalidade que em 11 de Março de 1934, em Madrid, Portugal sofreu uma humilhante derrota por 9-0 contra a Espanha, no primeiro jogo de apuramento para o Mundial de 1934. Uma semana depois, no dia 18, no jogo de volta, em Lisboa, nova derrota de Portugal, mas por n&#x00FA;meros menos escandalosos (1-2).  </p>
		
		<p>A goleada e o consequente falhanço na qualificação para o Campeonato do Mundo de 1934, assim como a clara inferioridade competitiva em relação a Espanha, obrigaram os dirigentes portugueses a uma profunda reflexão sobre o futuro do futebol português. Se as vit&#x00F3;rias traziam consigo rasgados elogios a Portugal e aos portugueses, as derrotas, quando pesadas, como foi o caso do 9-0, criavam verdadeiras ondas de contestação e exaltação. A mais importante revista ilustrada desportiva da d&#x00E9;cada de 1930, a <italic>Stadium</italic>, publicou em 28 de Março de 1934 a cr&#x00F3;nica «Caso in&#x00E9;dito, Inoportunas improvisações», onde sublinhava os efeitos morais da goleada: «Apareceram uns exaltados patriotas que, numa confusão tremenda, condensaram numa s&#x00F3; as sete cores do arco-&#x00ED;ris a transbordar patriotismo às mãos cheias, de tal forma que, se não os conhecêssemos, t&#x00ED;nhamo-nos alistado no primeiro regimento para combater os espanh&#x00F3;is. Aljubarrota, Alc&#x00E1;cer-Quibir e todas as passagens guerreiras entre castelhanos e portugueses foram chamadas à tela por causa do desastre de Chamartin.» </p>
		
		<p>A goleada frente a Espanha deixou patente a falta de qualidade t&#x00E9;cnica e t&#x00E1;ctica do futebol luso, confinado a lutas bairristas entre selecções regionais, aos campeonatos regionais e ao Campeonato de Portugal (prova a eliminar). Era not&#x00F3;ria a ausência de uma prova de regularidade de cariz verdadeiramente nacional. De forma a colmatar esta lacuna e para acalmar os ânimos exaltados com a humilhante derrota por 9-0, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) definiu para a &#x00E9;poca de 1934/35 a organização dos campeonatos da Liga da I e II Divisões, que viriam a ser um sucesso, quer a n&#x00ED;vel financeiro (as receitas dos clubes triplicaram), quer de popularidade. O aparecimento da r&#x00E1;dio permitiu tamb&#x00E9;m uma maior difusão da modalidade, sendo pela primeira vez poss&#x00ED;vel, a centenas de milhares de adeptos, acompanhar o espect&#x00E1;culo do futebol em directo e desde qualquer local, como sucedeu com o encontro amig&#x00E1;vel entre Portugal e Espanha, em 5 de Maio de 1935 (empate 3-3), realizado em Lisboa e transmitido radiofonicamente, pela primeira vez, para todo o Pa&#x00ED;s, Espanha, Can&#x00E1;rias e Brasil. A r&#x00E1;dio permitiu ao futebol cativar mais entusiastas, massificando a ideologia desportiva (futebol&#x00ED;stica) de uma forma at&#x00E9; então inimagin&#x00E1;vel, com a rivalidade entre Portugal e Espanha a revestir especial atenção popular e informativa.  </p>
		
		<p>Nos anos seguintes, a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) agravaria as dificuldades de passagem dos portugueses rumo ao resto da Europa e teria o condão de transformar a j&#x00E1; tradicional «barreira dos Piren&#x00E9;us»<xref ref-type="fn" rid="NOTE02">2</xref> num obst&#x00E1;culo ainda mais dif&#x00ED;cil de transpor. Mas esse muro psicol&#x00F3;gico dos Piren&#x00E9;us, se por um lado dificultou as relações de Portugal com a Europa, serviu algumas vezes como uma esp&#x00E9;cie de tapume aos ventos tr&#x00E1;gicos e incertos vindos desse mesmo espaço europeu, como iria ocorrer durante a Segunda Guerra Mundial. </p>
		
		<p>Face aos exemplos que vinham do estrangeiro, principalmente dos dois regimes totalit&#x00E1;rios de referência (Alemanha e It&#x00E1;lia), era incontorn&#x00E1;vel que a Selecção Nacional de Futebol Portuguesa entrasse gradualmente ao serviço da propaganda fascista durante os anos 1930, principalmente para reforçar a ideia de «bloco ib&#x00E9;rico» (Pinheiro, <xref ref-type="bibr" rid="CIT07">2006</xref>, 170-175). Foi no âmbito da amizade de Salazar e Franco que, em 28 de Novembro de 1937, a equipa nacional portuguesa se deslocou a Vigo para enfrentar a Selecção de Espanha (ou melhor, uma selecção espanhola falangista<xref ref-type="fn" rid="NOTE03">3</xref>), naquele que foi o &#x00FA;nico jogo realizado pela Selecção Portuguesa nesse ano. O ambiente propagand&#x00ED;stico foi cuidadosamente preparado: no est&#x00E1;dio, atr&#x00E1;s da tribuna central, foi erguida uma torre onde pendiam dois pain&#x00E9;is com as imagens de Salazar e Franco. Coube à banda militar de Vigo tocar os hinos nacionais, durante os quais a multidão se conservou de braço estendido, fazendo a saudação fascista. E para encerrar a pequena cerim&#x00F3;nia que antecedia o jogo, um legion&#x00E1;rio português ergueu a voz e gritou por três vezes as palavras Salazar, Franco, Espanha e Portugal, fazendo vivas no final aos dois pa&#x00ED;ses<xref ref-type="fn" rid="NOTE04">4</xref>. S&#x00F3; a FIFA recusou alinhar neste g&#x00E9;nero de estrat&#x00E9;gia pol&#x00ED;tica, invalidando a partida (que os portugueses venceram por 2-1) devido à falta de legitimidade da equipa espanhola, composta unicamente por jogadores falangistas. Mas o sucesso pol&#x00ED;tico foi o desejado.  </p>
		
		<p>Dois meses depois, em 30 de Janeiro de 1938, em Lisboa, a selecção portuguesa recebeu mais uma vez a cong&#x00E9;nere espanhola, numa partida em que Portugal venceu novamente, por 1-0, mas que a FIFA voltaria a não reconhecer oficialmente devido à falta de legitimidade da equipa de Espanha. Para al&#x00E9;m disto, o jogo ficaria tamb&#x00E9;m marcado pela revolta de alguns jogadores portugueses. Como era habitual, nos momentos que antecediam o in&#x00ED;cio das partidas, os futebolistas portugueses e os advers&#x00E1;rios saudavam a assistência com a tradicional saudação fascista, de braço direito bem esticado, ao alto, e mão aberta, no centro do terreno de jogo. Mas nesse dia três jogadores portugueses romperam o protocolo, furtando-se à saudação fascista: dois deles (Mariano Amaro e Jos&#x00E9; Simões) cerraram o punho e o outro (Artur Quaresma) nem sequer levantou o braço – na origem do acto estiveram desentendimentos entre os jogadores e a Federação Portuguesa de Futebol. A imprensa foi obrigada a silenciar o caso (a Censura a isso obrigava) e houve mesmo quem tentasse adulterar o momento, publicando fotografias retocadas de forma a parecer que os punhos cerrados afinal estavam abertos, como foi o caso da revista <italic>Stadium</italic>, na edição de 2 de Fevereiro de 1938. A indisciplina dos três jogadores não passou despercebida à Pol&#x00ED;cia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, rebaptizada em 1945 como PIDE – Pol&#x00ED;cia Internacional e de Defesa do Estado), que deteve os três internacionais para averiguações no final do encontro, sob suspeitas de pr&#x00E1;tica de «Crime contra a Nação». Simões e Amaro ficaram presos durante v&#x00E1;rios dias, mas o caso não teria maiores consequências, j&#x00E1; que a pol&#x00ED;cia pol&#x00ED;tica não quis medir forças com a popularidade do futebol, al&#x00E9;m de que o Belenenses (clube onde os três actuavam) contava com pessoas politicamente bem colocadas e afectas ao regime. Poucas semanas depois, Amaro e Simões voltaram mesmo a envergar novamente a camisola da selecção portuguesa. </p>
		
		<p>A amizade ib&#x00E9;rica no futebol iria reforçar-se a partir de 1939 com o in&#x00ED;cio da Segunda Guerra Mundial, que agravou o distanciamento português com outras convizinhas europeias, e com o fim da Guerra Civil de Espanha. O facto da beligerância portuguesa pouco interessar aos Aliados – mais preocupados em que Portugal conseguisse assegurar a neutralização da Pen&#x00ED;nsula Ib&#x00E9;rica, agarrando a Espanha franquista à ideia de neutralidade (Rosas, <xref ref-type="bibr" rid="CIT09">1991</xref>, 125) –, levou o governo de Salazar, ap&#x00F3;s consultar a velha aliada Inglaterra, a declarar a posição neutral de Portugal perante a guerra, o que sucedeu numa nota oficiosa emitida a 2 de Setembro de 1939 – Espanha faria o mesmo em 1942. Em termos futebol&#x00ED;sticos, o conflito b&#x00E9;lico teve efeitos negativos, uma vez que passou a impedir os contactos internacionais de clubes e selecção portugueses, forçando um reforço da amizade com Espanha.  </p>
		
		<p>Com os Pirin&#x00E9;us a servirem como uma barreira f&#x00ED;sica, e at&#x00E9; psicol&#x00F3;gica, aos ventos de guerra que se abateram sobre toda a Europa entre 1939 e 1945, foi perfeitamente compreens&#x00ED;vel o fortalecimento do bloco ib&#x00E9;rico tamb&#x00E9;m no futebol, o qual se iria manter durante todo o per&#x00ED;odo ditatorial português (ver <xref ref-type="table" rid="T1">Quadro 1</xref>). O estreitamento das relações luso-espanholas seria uma das grandes prioridades da pol&#x00ED;tica salazarista durante o decorrer da Segunda Guerra Mundial, com Salazar e Franco a prosseguirem com essa mesma pol&#x00ED;tica nas d&#x00E9;cadas que se seguiram ao t&#x00E9;rmino do mais nefasto conflito b&#x00E9;lico a que o Mundo assistiu. Essa amizade pol&#x00ED;tica teria reflexo no futebol, sendo regulares os jogos particulares entre as selecções de Portugal e Espanha, assumindo alguns deles fortes conotações pol&#x00ED;ticas. </p>
		
		<fig id="T1">
					<label>Quadro 1</label>
					<caption>
					<title>Pa&#x00ED;ses com quem Portugal realizou mais jogos particulares durante a Ditadura (Maio de 1926 a Abril 1974)</title>
					</caption>
					<graphic xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xlink:href="../images/T1.jpg"/>
				</fig>
		
		
		</sec>
		
		<sec id="S6">
		<title>CONCLUSÃO </title>
		
		<p>Durante a primeira metade do s&#x00E9;culo XX construiu-se claramente uma forte amizade ib&#x00E9;rica no futebol, fruto de seis importantes factores. O primeiro, geogr&#x00E1;fico. A proximidade e isolamento geogr&#x00E1;ficos de Portugal e Espanha, em relação ao resto da Europa, levaram a uma natural aproximação entre os clubes dos dois pa&#x00ED;ses, assente sobretudo em dois eixos geogr&#x00E1;ficos e futebol&#x00ED;sticos: Porto-Galiza (em especial Vigo) e Lisboa-Madrid-Andaluzia. Um segundo factor foi b&#x00E9;lico, determinado pelo efeito das duas guerras mundiais, que agravaram o isolamento dos dois pa&#x00ED;ses, determinando um natural reforço das relações futebol&#x00ED;sticas entre clubes e selecções de ambos pa&#x00ED;ses. O terceiro factor foi o apoio popular e medi&#x00E1;tico, criado pela opinião p&#x00FA;blica desportiva portuguesa (os jogos contra equipas espanholas atraiam sempre muito p&#x00FA;blico) e pela imprensa desportiva, apologista dos intercâmbios futebol&#x00ED;sticos entre Portugal e Espanha. O quarto factor seria de ordem competitivo, com as equipas portuguesas e &#x00F3;rgãos associativos lusos a olharem para os jogos e resultados contra equipas espanholas como uma forma de medir a qualidade do futebol português, tendo certas derrotas com a Selecção de Espanha determinado mudanças organizativas no futebol português, como sucedeu em 1921 e 1934. O quinto factor foi pol&#x00ED;tico, com o futebol a ser utilizado para fins propagand&#x00ED;sticos, como sucedeu logo ap&#x00F3;s 1910, com o objectivo de consolidar a jovem Rep&#x00FA;blica Portuguesa, ou nos anos 1930, para reforçar as relações entre os regimes fascistas portugueses e espanh&#x00F3;is, assentes nas figuras de Salazar e Franco, respectivamente. Finalmente, o sexto e &#x00FA;ltimo factor que contribuiu para a construção desta amizade ib&#x00E9;rica no futebol, ao longo da primeira metade do s&#x00E9;culo XX, foi o patriotismo, com cada embate frente aos espanh&#x00F3;is a ser visto como uma representação simb&#x00F3;lica da luta pela independência dos portugueses frente aos espanh&#x00F3;is e da afirmação de Portugal como nação: cada vit&#x00F3;ria redundava em euforia popular, reforçando os discursos medi&#x00E1;ticos sobre a regeneração nacional e sobre a grandeza de Portugal, enquanto as derrotas eram vistas como exemplos da decadência e degeneração nacional, desembocando em discursos negativos sobre a sociedade portuguesa. </p>

					 
		</sec>
		
	</body>

	<back>
	
	
		<sec id="notas">
			 <title>NOTAS</title>
			 <fn-group>
				<fn id="NOTE01"><label>1</label><p>Uma das vozes que pugnou por uma «Aliança Peninsular» foi o integralista Ant&#x00F3;nio de Sousa Sardinha, que em 1922 advogava o surgimento de um «Quinto Imp&#x00E9;rio» (Portugal e Espanha). Isto numa &#x00E9;poca em que o general Primo de Rivera iniciava uma experiência nacionalista em Espanha, a qual poderia envolver toda a Pen&#x00ED;nsula, situação que agradava a alguns integralistas (Barreira, <xref ref-type="bibr" rid="CIT01">1982</xref>, 1428).</p></fn>
				<fn id="NOTE02"><label>2</label><p>Reis, Ribeiro, Relações internacionais, <italic>Sporting</italic>, 9 Novembro 1937.</p></fn>
				<fn id="NOTE03"><label>3</label><p>La Falange foi um partido pol&#x00ED;tico criado em Espanha em 1933 e a sua ideologia assentava na defesa dos valores cat&#x00F3;licos contra o perigo do marxismo e na criação de um Estado totalit&#x00E1;rio sem classes, promovendo os interesses dos trabalhadores. Durante a guerra, teve mais de dois milhões de membros. Franco decidiu entregar-lhe em 1941 a tutela do desporto e do futebol.</p></fn>
				<fn id="NOTE04"><label>4</label><p>Reis, Ribeiro dos; Ornelas, Ricardo, A primeira vit&#x00F3;ria dos portugueses contra a Espanha, <italic>Di&#x00E1;rio de Not&#x00ED;cias</italic>, 29 Novembro 1937.</p></fn>
							
			 </fn-group>
		</sec>

		
		<ref-list>
			<title>BIBLIOGRAF&#x00CD;A</title>
				
			<ref id="CIT01">
			<element-citation publication-type="book">
			  <person-group person-group-type="author">
				  <name>
				  <surname>Barreira</surname>
				  <given-names>Cecília</given-names>
				  </name>  	  	  
			  </person-group>
			  <year>1982</year> 
			  <chapter-title>Três nótulas sobre o integralismo lusitano</chapter-title>
				  <collab>AAVV</collab>  	
			  <source>A Formação de Portugal Contemporâneo, 1900-1980</source>
			  <publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
			  <publisher-name>Revista do Instituto de Ciências Sociais</publisher-name>  
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			<ref id="CIT02"> 
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			  </person-group>
			  <year>1993</year> 
			  <chapter-title>Allez O. M., Forza Juve – The passion for football in Marseille and Turim</chapter-title> 
			  <person-group person-group-type="editor">
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			  <person-group person-group-type="author">
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				  <surname>Coelho</surname>
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			  <source>Sport y autoritarismos</source>
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			  <source>Portugal, España y Europa – Cien años de desafío (1890-1990)</source>
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			  <publisher-name>Universidad Nacional de Educación a Distancia</publisher-name>  
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			<p><bold>Imprensa peri&#x00F3;dica desportiva</bold></p>
			
			<p><italic>Sport de Lisboa, O</italic> (Lisboa, 1915-1934) </p>
			
			<p><italic>Sporting</italic> (Porto, 1921-1953) </p>
			
			<p><italic>Sports, Os</italic> (Lisboa, 1919-1945) </p>
			
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			<p><italic>Tiro e Sport</italic> (Lisboa, 1904-1913)</p>
			
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