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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">Arbor</journal-id>
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				<journal-title>ARBOR Ciencia, Pensamiento y Cultura</journal-title>
				<abbrev-journal-title>Arbor</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">0210-1963</issn>
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				<publisher-name>Consejo Superior de Investigaciones Cient&#x00ED;ficas</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="publisher-id">arbor.2014.766n2010</article-id>
			<article-id pub-id-type="doi">10.3989/arbor.2014.766n2010</article-id>
			 
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			<subject>HISTORIA, CULTURA Y DEPORTE DE PORTUGAL / <em>HISTORY, CULTURE AND SPORT FROM PORTUGAL</em></subject>
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				<article-title>A HIST&#x00D3;RIA ENCENADA: O PROCESSO DO REI, DE JOÃO MARIO GRILO, A IMAGEM MELANC&#x00D3;LICA DE UM PA&#x00CD;S</article-title>
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					<trans-title>THE STORY STAGED: JOAO M&#x00C1;RIO GRILO’S O PROCESSO DO REI, A MELANCHOLIC IMAGE OF A COUNTRY</trans-title>
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				<alt-title alt-title-type="running-head">JOÃO MARIO GRILO</alt-title>
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					 <surname>Tavares</surname>
					 <given-names>Mirian</given-names>
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				<aff id="U1">Professora Associada da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (FCHS), Universidade do Algarve (UALG). Diretora da FCHS - Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. da Universidade do Algarve. Coordenadora do CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação.</aff>
			
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				<year>2014</year>
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			<year>2014</year>
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			<volume>190</volume>
			<issue>766</issue>
			
			<elocation-id content-type="doi">10.3989/arbor.2014.766n2010</elocation-id>

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					<license-p>Este es un art&#x00ED;culo de acceso abierto distribuido bajo los t&#x00E9;rminos de la licencia Creative Commons Attribution-Non Commercial (by-nc) Spain 3.0.</license-p>
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			<abstract xml:lang="es">
				<title>RESUMEN</title>
				<p>En este texto analizar&#x00E9; la pel&#x00ED;cula <italic>O Processo do Rei</italic> (1989), de João M&#x00E1;rio Grilo. Basado en el proceso contra D. Afonso VI, el realizador consigui&#x00F3; ser fiel al tiempo hist&#x00F3;rico –siglo XVII-, pero tambi&#x00E9;n profundamente contempor&#x00E1;neo, explorando aspectos eternos y c&#x00ED;clicos de la propia Historia. El cine, en esta pel&#x00ED;cula, funciona como un escenario donde la Historia revela la escenograf&#x00ED;a que los libros de Historia acostumbran a ocultar. Para profundizar en esta cuesti&#x00F3;n comienzo por discutir las relaciones entre el cine y el teatro a partir do concepto de <italic>mise en sc&#x00E9;ne</italic>. ¿Qu&#x00E9; aproxima, y qu&#x00E9; distancia, a estas dos formas art&#x00ED;sticas? ¿De qu&#x00E9; manera el cine, a lo largo de su historia, construy&#x00F3; su propia <italic>puesta en escena</italic> recurriendo, sobre todo, al montaje?</p>
			</abstract>
			
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>This text analyses João M&#x00E1;rio Grilo’s film: <italic>O Processo do Rei</italic> (The King’s Trial) (1989). Based on the trial of Afonso VI, the director was able to remain faithful to the seventeenth century historical setting, but at the same time give it a contemporary feel, while exploring eternal and recurrent aspects of the story itself. Cinema, in this film, works as a stage where the story reveals the scenography that history books habitually conceal. In order to thoroughly examine the issues raised by this text, the article discusses the relationship between cinema and theatre starting with the concept of <italic>mise en sc&#x00E9;ne</italic>. What joins and separates these two artistic forms? How has cinema built its own <italic>mise en sc&#x00E9;ne</italic> throughout its history while resorting mostly to editing?</p>
			</trans-abstract>
			
			<kwd-group xml:lang="es">
				<title>PALABRAS CLAVE</title>
				<kwd>Cine</kwd>
				<kwd>historia</kwd>
				<kwd>montaje</kwd>
				<kwd>siglo XX</kwd>
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				<title>KEYWORDS</title>
				<kwd>movies</kwd>
				<kwd>history</kwd>
				<kwd>editing</kwd>
				<kwd>20th century</kwd>
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	<body>

				
		<sec id="S0">
		<p>O que fica da Hist&#x00F3;ria &#x00E9; o que dela se conta. </p>
		
		<p>João M&#x00E1;rio Grilo </p>
		</sec>
		
		
		<sec id="S1">
			<title>INTRODUÇÃO </title>
			
			<p>O cinema, no seu processo de criação, converteu-se numa moderna “janela para o mundo”. Contudo, esta ideia do cinema como janela aberta para o mundo, para alguns realizadores, não se aplica. Tomemos, como exemplo, Peter Greenaway, realizador inglês, em cujo cinema “ese mundo ya no es real, sino el de la tradici&#x00F3;n art&#x00ED;stica occidental, sobre la que el director crea su realidad” (Ortiz e Piquera, <xref ref-type="bibr" rid="CIT21">1995</xref>, 17). Sabemos que, em sua origem, o cinema não manteve grandes relações com a pintura. As artes que o ajudaram a estabelecer uma gram&#x00E1;tica pr&#x00F3;pria foram a literatura e o teatro (com algumas exceções, caso das vanguardas, e mais precisamente do Expressionismo). Mas &#x00E9; ineg&#x00E1;vel que o patrimônio visual ocidental, que era partilhado em maior ou menor grau para seus realizadores, não pode ser ignorado. At&#x00E9; porque a perspectiva renascentista &#x00E9; incorporada pelo olho da câmara, passando a recriar tal qual Alberti preconizava, universos paralelos dentro de um espaço geom&#x00E9;trico.  </p>
			
			<p>No princ&#x00ED;pio, o chamado “cinema primitivo”, de maneira instintiva, recupera a perspectiva linear, posicionando a câmara no lugar do pintor e fixando-a num ponto &#x00FA;nico - não h&#x00E1; movimento. Quando h&#x00E1; movimento, este ocorre perpendicularmente no ecrã, vis&#x00ED;vel apenas enquanto permanece dentro do enquadramento. Outra relação que os primitivos mantinham com a pintura eram os <italic>tableaux vivants</italic>, onde cen&#x00E1;rios pintados ao fundo eram habitados por personagens reais, recriando para um p&#x00FA;blico leigo, imagens pict&#x00F3;ricas que j&#x00E1; fazia parte do seu repert&#x00F3;rio (muitas vidas de Cristo da &#x00E9;poca baseavam-se na reprodução de pinturas presentes no imagin&#x00E1;rio popular). Podemos dizer que os <italic>tableaux vivants</italic> sobrevivem, at&#x00E9; hoje, em alguns filmes hist&#x00F3;ricos. Nestes casos, o realizador, buscando reconstituir o facto e recoloc&#x00E1;-lo temporalmente no s&#x00E9;culo onde o mesmo decorreu, recorre a fonte frequente e &#x00F3;bvia de referências: a pintura da &#x00E9;poca. Muitas vezes os filmes sucumbem ao peso da cenografia e, em alguns casos, a cenografia &#x00E9; mero pano de fundo, ou seja, não h&#x00E1; um di&#x00E1;logo entre pintura e cinema e sim a utilização, como nos <italic>tableaux vivants</italic>, de referências pict&#x00F3;ricas que localizam uma cena no repert&#x00F3;rio imag&#x00E9;tico de cada um. </p>
			
			<p>Jos&#x00E9; Lu&#x00ED;s Borau, ao analisar ligações entre o cinema e a pintura, afirma que h&#x00E1; dois tipos de relações que se podem estabelecer: uma &#x00E9; a de presenças e outra de influências. Na primeira h&#x00E1; uma escolha consciente do realizador. Na segunda h&#x00E1; a interferência do repert&#x00F3;rio visual deste, sem que, em muitos casos, o mesmo se dê conta. <italic>O Processo do Rei</italic>, de João M&#x00E1;rio Grilo (1989), est&#x00E1; no primeiro caso. As escolhas são conscientes porque ele queria que o espaço c&#x00E9;nico transportasse os espectadores ao s&#x00E9;c. XVII. Sabendo da impossibilidade da tarefa, procura, no cinema e na pintura, recursos que o ajudem a chegar perto do seu intento. O filme &#x00E9; baseado num documento hist&#x00F3;rico que fala sobre o processo ao qual foi submetido o Rei D. Afonso VI, o Vitorioso.  </p>
			
			<p>Por que razão recuperar da Hist&#x00F3;ria aquilo que deveria ser esquecido? Um rei doente, hemipl&#x00E9;gico, incapaz f&#x00ED;sica e mentalmente, tomado de paixões violentas; um rei que o foi por acaso, j&#x00E1; que seu irmão mais velho morrera. Um rei preterido pela mãe, que preferia o outro irmão e que foi, por isso, obrigada a entregar o poder a D. Afonso VI e a fechar-se num convento. Um rei que foi processado porque a sua rainha o acusara de não consumar o matrim&#x00F3;nio. Um rei melanc&#x00F3;lico, que reflectia a melancolia e o desamparo de um pa&#x00ED;s entre nações poderosas, guiado por interesses que não eram os seus pr&#x00F3;prios. Por que razão, em 1989, recuperar esta hist&#x00F3;ria? Para o realizador, “o que fica da Hist&#x00F3;ria &#x00E9; o que dela se conta”, e entra então num processo de anamnese: &#x00E9; preciso voltar às mem&#x00F3;rias para que elas sejam revividas e para que o seu luto se faça presente. S&#x00F3; assim poderemos então deneg&#x00E1;-las. </p>
			
			<p>O que fica da Hist&#x00F3;ria &#x00E9; o que dela se conta, diz João M&#x00E1;rio Grilo. E não s&#x00F3; o que dela se conta mas, sobretudo, a maneira como ela &#x00E9; contada. Ao longo dos s&#x00E9;culos fomos incorporando um repert&#x00F3;rio imag&#x00E9;tico que condiciona a maneira como vemos os filmes e as personagens que os povoam. “¿Qui&#x00E9;n aceptar&#x00ED;a un Enrique VIII que no se pareciera al rostro que aparece en los cuadros de Holbein y que tantas veces hemos visto repetidos en los libros de texto y en las enciclopedias?” (&#x00CD;dem, 60). Para o filme <italic>O Processo do Rei</italic> o realizador tinha tamb&#x00E9;m um repert&#x00F3;rio de imagens de &#x00E9;poca e retratos de D. Afonso VI. Mas estes retratos não pareciam fieis e não retratavam aquilo que o realizador queria para seu filme: um rei melanc&#x00F3;lico e vencido j&#x00E1; a partida. Um rei que era, na altura, o autêntico retrato de um povo que não queria ver-se assim espelhado. Era preciso recri&#x00E1;-lo. </p>
			
			<p>O processo de construção do filme recorre à vasta tradição cinematogr&#x00E1;fica de recriação hist&#x00F3;rica. Recorre aos <italic>tableaux vivants</italic>, à pintura da &#x00E9;poca, a documentos hist&#x00F3;ricos e recorre, fundamentalmente, a uma ideia que define, por excelência, o S&#x00E9;c. XVII – o conceito de encenação. Toda a arte barroca assenta na encenação e assim, João M&#x00E1;rio Grilo abre mão de recursos puramente cinematogr&#x00E1;ficos para recuperar a Hist&#x00F3;ria. Despe seu filme da narrativa <italic>decimon&#x00F3;nica</italic>, t&#x00ED;pica do cinema cl&#x00E1;ssico, e dispõe as personagens num palco mais adequado para o desenrolar desta hist&#x00F3;ria. </p>
		
		</sec>
		
		
		<sec id="S2">
			<title>CINEMA E ENCENAÇÃO </title>
			
			<p>Toda encenação tem a ver com teatro e teatralidade, pois foi o teatro que “desde cedo definiu formas, pr&#x00E1;ticas e noções que modelaram a nossa vida social e o seu imagin&#x00E1;rio” (Aumont, <xref ref-type="bibr" rid="CIT03">2008</xref><italic>,</italic> 12). A questão que surge &#x00E9;: como &#x00E9; que o cinema adequa o princ&#x00ED;pio da cena teatral ao seu pr&#x00F3;prio meio? Eisenstein, ao falar da relação entre o cinema e o teatro dizia que, enquanto no teatro temos a <italic>mise en sc&#x00E9;ne,</italic> no cinema temos <italic>a mise en cadre.</italic> Este realizador, que tamb&#x00E9;m foi encenador, conhecia a fundo as duas formas art&#x00ED;sticas e, desde cedo, reconheceu que era necess&#x00E1;rio estabelecer para o cinema, arte ainda muito jovem, uma s&#x00E9;rie de categorias pr&#x00F3;prias para evitar que ele sucumbisse às outras artes e ficasse apenas como um subsidi&#x00E1;rio das mesmas. </p>
			
			<p>As relações entre o teatro e o cinema não foram ainda devidamente exploradas, apesar de alguns autores se terem debruçado sobre a questão. Aumont e Michel Marie distinguem três modos principais de relação destas duas formas art&#x00ED;sticas: o teatro filmado, a “areação” da peça, – ou seja, o trazer da cena para o exterior – e, ainda, a assunção da teatralidade do texto e da representação pelo realizador. Neste &#x00FA;ltimo caso, assume-se claramente que tanto uma quanto outra forma art&#x00ED;stica estão baseadas numa s&#x00E9;rie de convenções que se alteram com o tempo, o que ocorre em todas as artes, mas que são perfeitamente distingu&#x00ED;veis, em determinados momentos. Assumir a teatralidade no filme &#x00E9; negar a sua filiação ao realismo, ou seja, &#x00E9; assumir a impossibilidade de o cinema revelar, efectivamente, o real.  </p>
			
			<p>Falar sobre a questão da representação entre teatro e cinema implica, antes de tudo, dizer de que teatro e de que cinema se est&#x00E1; a falar. Porque h&#x00E1; muitos pontos de contacto entre os dois, inclusive no que diz respeito às convenções da representação, j&#x00E1; que o cinema acaba por herdar do teatro uma s&#x00E9;rie de modelos. Basta pensar no cinema mudo e no cinema produzido pelas vanguardas hist&#x00F3;ricas: tanto num como no outro, o cinema e o teatro partilham concepções formais e de conte&#x00FA;do. O certo &#x00E9; que, para o cinema se afirmar, enquanto s&#x00E9;tima arte, teve de cometer um parric&#x00ED;dio necess&#x00E1;rio e fundamental para seu desenvolvimento enquanto arte aut&#x00F3;noma. Parric&#x00ED;dio não s&#x00F3; em relação ao teatro, mas tamb&#x00E9;m em relação às outras artes referidas por Ricciotto Canudo, no seu <italic>Manifesto das sete artes</italic> de 1911. </p>
			
			<p>Antes de o cinema surgir, havia j&#x00E1; um desejo mundano de transformar a vida em espect&#x00E1;culo, em entretenimento, em deleite para os olhos. E Paris, centro do mundo ocidental no s&#x00E9;culo XIX, atra&#x00ED;a todos os olhares. O Guia Casell de Paris, de 1884, sublinhava que na cidade havia sempre algo “para ser visto”. Vanessa R. Shwartz, num ensaio sobre o espectador cinematogr&#x00E1;fico antes do cinema, diz que “a vida real era vivenciada como um <italic>show</italic>, mas, ao mesmo tempo, os <italic>shows</italic> tornavam-se cada vez mais parecidos com a vida” (Shwartz, <xref ref-type="bibr" rid="CIT23">2001</xref>). Assim, a vida convertida em espet&#x00E1;culo pelo cinema era a resposta perfeita, a este desejo hedonista e burguês presente, diga-se de passagem, em toda a arte do fim-de-s&#x00E9;culo. </p>
			
			<p>O cinema &#x00E9; filho da cultura burguesa, com tendência realista-naturalista, e nasce como uma arte que incorpora a questão da tecnologia, da produção e da distribuição massivas. &#x00C9;, portanto, filho dos grandes centros urbanos que começam a espalhar-se pelo velho e pelo novo mundo. Na passagem do s&#x00E9;culo XIX para o s&#x00E9;culo XX, a literatura e o teatro eram discursos hegem&#x00F3;nicos. Se algu&#x00E9;m queria mergulhar na narrativa e no drama, dirigia-se a um ou a outro. O cinema foi, paulatinamente, ocupando o lugar deste discurso. Talvez por ser, à partida, mais adequado à nova realidade, ao novo homem, ao novo s&#x00E9;culo. O que em nada prejudicou, nem a literatura, nem o teatro, que puderam, finalmente, libertar-se e seguir caminhos diversos e mais experimentais, ao longo do s&#x00E9;culo XX.  </p>
			
			<p>O cinema industrial, feito para o grande p&#x00FA;blico, busca um modo de representação que quer ocultar a representação. Quer ser visto como algo que <italic>apresenta</italic> a vida mesma e não algo que a <italic>representa</italic>. Usa o ecrã como uma janela e convida os espectadores a espreitar o que se passa, a participar, de alguma maneira, desta outra vida que se instala ali. O in&#x00ED;cio do cinema, antes do cinemat&#x00F3;grafo dos Irmãos Lumière, est&#x00E1; profundamente ligado à pulsão escopof&#x00ED;lica. Afinal, o quinetosc&#x00F3;pio de Edson incitava as pessoas a olharem imagens por um buraco, semelhante ao buraco de uma fechadura, e a gozar voyeuristicamente imagens feitas à medida para este prazer solit&#x00E1;rio. </p>
			
			<p>Ao contr&#x00E1;rio do teatro que, enquanto arte do espet&#x00E1;culo, &#x00E9; arte p&#x00FA;blica e para o p&#x00FA;blico, o cinema nasce como um ato solit&#x00E1;rio, um prazer não compartilhado. O espectador do cinema começa como um <italic>voyeur</italic> e, mesmo quando as imagens saltam para fora do quinetosc&#x00F3;pio, a pulsão permanece. Ver cinema &#x00E9; espreitar a vida alheia. E &#x00E9; isto que o cinema do M.R.I. procura incentivar. E para isto usa o teatro, dentro dos filmes, como o espaço da representação. Uma peça, dentro de um filme, tem, antes de tudo, a função de demarcar uma zona entre a apresentação do mundo, feita pelo cinema, e a representação do mundo promovida pelo teatro. </p>
			
			<p>Eis o paradoxo da imagem do cinema: de um lado ela d&#x00E1;-nos a sensação de que quase tocamos a realidade que nos circunda, mas somos limitados pelos enquadramentos e s&#x00F3; temos permissão para ver o que se passa dentro do espaço <italic>in</italic>. Tornamo-nos <italic>voyeurs</italic>, volunt&#x00E1;ria ou involuntariamente. E como <italic>voyeurs</italic>, o que espreitamos são fragmentos do real. Ou assim o cinema nos quer fazer crer: não h&#x00E1; representação, mas apresentação.  </p>
			
			<p>No filme <italic>O Processo do Rei</italic>, encontramos a encenação marcada pelo lugar calculado do espectador. O realizador mostra-nos, no ecrã, um palco que vai alterando os cen&#x00E1;rios, e que não &#x00E9; um palco sequer, pois as locações são feitas em espaços reais, mais o desenrolar da acção &#x00E9; feito a pensar na <italic>mise-en-scène</italic>, não na <italic>mise-en-cadre</italic>. Os actores realizam, em cena, movimentos limitados de entradas e sa&#x00ED;das, como num palco italiano. Movem-se na horizontal ou na perpendicular, cruzando o espaço c&#x00E9;nico que aparece, no filme, limitado, como se a sa&#x00ED;da de cena s&#x00F3; pudesse ser feita para os bastidores. </p>
			
			<p>A limitação do espaço c&#x00E9;nico &#x00E9; uma maneira de obrigar o espectador a permanecer em seu lugar: expectante. Não pode interferir na acção e nem sente que deva fazê-lo. O filme, neste caso, não se apresenta como janela para o mundo, mas como um espaço privilegiado de representação em <italic>mise-en-abîme</italic>, tão t&#x00ED;pica do per&#x00ED;odo barroco e tamb&#x00E9;m da obra de arte na contemporaneidade. Deste <italic>processo</italic> não somos voyeurs, somos testemunhas oculares. </p>
			
			<p>O cinema aprendeu, muito cedo, a mentir. E a chave da construção desta ilusão da realidade, que ele vende, est&#x00E1; na montagem. A ideia de montagem, conforme Vicente S&#x00E1;nchez-Biosca, est&#x00E1; presente em toda a arte do s&#x00E9;culo XX (S&#x00E1;nchez-Biosca, <xref ref-type="bibr" rid="CIT22">1996</xref>, 15-22). Nesse sentido João M&#x00E1;rio Grilo expande os limites do palco atrav&#x00E9;s do cinema ao insinuar a presença dos bastidores em cena. Ali&#x00E1;s, podemos afirmar que a sempiterna presença dos bastidores funciona como um maneira de o filme afirmar-se enquanto documento hist&#x00F3;rico, tecido por outrem, e vis&#x00ED;vel apenas mais tarde, quando &#x00E9; lido e re-apresentado, reconhecendo, no entanto, a impossibilidade de, na contemporaneidade, revelar alguma verdade sobre o tema, optando por apresentar, conscientemente, uma poss&#x00ED;vel versão. A montagem aqui &#x00E9; cinematogr&#x00E1;fica, unifica os fragmentos e cria um tempo-espaço particular, mas aquilo ao que o espectador tem acesso, o que &#x00E9; vis&#x00ED;vel no ecrã, não &#x00E9; o procedimento, ou gesto, que intensifica a ideia de montagem, pelo contr&#x00E1;rio, parece estar sentado diante de uma cena fixa, que se altera com o abrir e fechar das cortinas.  </p>
		
		</sec>
		
		<sec id="S3">
			<title>O PROCESSO DO REI - O CINEMA COMO LINGUAGEM </title>
			
			<p>No c&#x00E9;lebre ensaio “Ontologia da imagem fotogr&#x00E1;fica”, Bazin revela a sua posição em relação às imagens fotogr&#x00E1;fica e cinematogr&#x00E1;fica ao construir uma interessante teoria sobre o cinema: se, por um lado, a imagem fotogr&#x00E1;fica possui um car&#x00E1;ter ontol&#x00F3;gico, pois a realidade acaba por colar-se à sua reprodução, por outro lado ele reconhece que o cinema, fotografia em movimento, &#x00E9; uma linguagem. Assim, o cinema, ao mesmo tempo que revela o mundo, possui uma linguagem que o constitui e o distancia do real. O cinema não &#x00E9; s&#x00F3; revelação, mas tamb&#x00E9;m construção, manipulação. Mas a manipulação existe para que se tenha uma ilusão de continuidade espacial, muito pr&#x00F3;xima daquela calcada na realidade<xref ref-type="fn" rid="NOTE01">1</xref>. </p>
			
			<p>O cinema industrial escamoteia a montagem, mostrando os eventos como que dotados de uma continuidade esp&#x00E1;cio-temporal que de facto eles não possuem. Bazin d&#x00E1;-nos uma definição deste tipo de cinema no seu livro sobre Orson Welles:  </p>
			
			<p>“Qualquer que seja o filme, seu objetivo &#x00E9; dar-nos a ilusão de assistir a eventos reais que se desenvolvem diante de n&#x00F3;s como na realidade cotidiana. Essa ilusão esconde, por&#x00E9;m, uma fraude essencial, pois a realidade existe em um espaço cont&#x00ED;nuo, e a tela apresenta-nos de fato uma sucessão de pequenos fragmentos chamados “planos”, cuja escolha, cuja ordem e cuja duração constituem precisamente o que se chama «decupagem» de um filme. Se tentarmos, por um esforço de atenção volunt&#x00E1;ria, perceber as rupturas impostas pela câmera ao desenrolar cont&#x00ED;nuo do acontecimento representado e compreender bem por que eles nos são naturalmente insens&#x00ED;veis, vemos que os toleramos porque deixam subsistir em n&#x00F3;s, de algum modo, a impressão de uma realidade cont&#x00ED;nua e homogênea” (Aumont, <xref ref-type="bibr" rid="CIT05">1995</xref>, 74). </p>
			
			<p>Apesar de o cinema ter absorvido o modelo da cena italiana como modelo de exibição, o lugar do espectador aqui não &#x00E9; o mesmo do lugar do espectador do teatro. Não &#x00E9; o mesmo porque o cinema, atrav&#x00E9;s da manipulação do ponto de vista, dos movimentos da câmara, do uso dos recursos que possui para a construção da imagem, leva o seu espectador a sair do lugar, a penetrar no ecrã, a saltar da cadeira para dentro daquela realidade outra, criada pelo realizador. O que possibilita ao cinema ampliar, ainda mais, a ilusão de realidade. Tomemos como exemplo um filme como <italic>Otelo</italic>, de Welles, que foi realizado ao longo de três anos, em lugares diversos, &#x00E9; visto pelo espectador como um <italic>continuum</italic> esp&#x00E1;cio-temporal. Atrav&#x00E9;s da manipulação das imagens, feita no processo de montagem do filme, o espectador vê, no ecrã, apenas uma cidade: Veneza. </p>
			
			<p>Orson Welles, atrav&#x00E9;s da montagem, faz com que o espectador não perceba que a Veneza do ecrã não existe. &#x00C9; apenas um comp&#x00F3;sito de fragmentos de locações diversas. E esta &#x00E9; uma das diferenças marcantes entre o teatro e o cinema: a capacidade que o segundo possui de encenar o espaço, de torn&#x00E1;-lo &#x00FA;nico ou multifacetado conforme a proposta do realizador. O que vemos existe apenas no ecrã, não tem uma realidade palp&#x00E1;vel como a de um cen&#x00E1;rio teatral. N’<italic>O Processo do Rei</italic>, terceiro longa-metragem do diretor português João M&#x00E1;rio Grilo, este utiliza um procedimento semelhante ao de Welles, por motivos diversos, mas com um resultado similar. Reconstr&#x00F3;i, atrav&#x00E9;s de fragmentos de lugares reais, o lugar onde a trama do seu filme se desenrola.  </p>
			
			<p>O filme &#x00E9; baseado num documento hist&#x00F3;rico, de 12 p&#x00E1;ginas, que fala sobre o processo ao qual foi submetido o Rei D. Afonso VI, o Vitorioso. O processo, no filme, não &#x00E9; meramente narrativa, mas &#x00E9; apresentado em toda a sua força imag&#x00E9;tica e presencial. Não h&#x00E1; ficcionalização intencional, mesmo que a hist&#x00F3;ria seja tamb&#x00E9;m ela, uma narrativa sujeita à pena de quem conta (h&#x00E1; dois registos deste processo: um contra e outro a favor). Como apresentar um processo e ao mesmo tempo não tomar partido? Como reconstruir o momento hist&#x00F3;rico sem recriar cen&#x00E1;rios? O realizador tentou reconstituir o Paço da Ribeira, espaço onde se desenrola a hist&#x00F3;ria, recorrendo a um recurso profundamente cinematogr&#x00E1;fico: a montagem. Correu pelo pa&#x00ED;s e, de fragmentos de espaço, montou um todo convincente. Mas, como j&#x00E1; foi dito, o espectador não tem consciência deste procedimento.  </p>
			
			<p>Aumont afirmou certa vez que toda a pol&#x00ED;tica era encenação, João M&#x00E1;rio Grilo, atrav&#x00E9;s do seu filme, revela-nos v&#x00E1;rios n&#x00ED;veis de encenação: a pol&#x00ED;tica, que comanda o espet&#x00E1;culo; a visual, que nos remete para o tempo/espaço onde a narrativa se vai desenrolar e a <italic>mise en sc&#x00E9;ne</italic> do filme, onde os atores e o cen&#x00E1;rio nos fazem ter consciência, o tempo inteiro, de que estamos a ver um espet&#x00E1;culo e não um fragmento do real. </p>
			
			<p>O filme nos faz saltar directamente dentro da Hist&#x00F3;ria, não por uma elaborada criação narrativa mas pela elaborada criação visual (escudada pela fotografia de Eduardo Serra). Os ambientes fazem com que os espectadores sejam reenviados para o s&#x00E9;culo XVII, e assistam a um espet&#x00E1;culo que ali vai se desenrolar. Ao reconstituir o Paço da Ribeira com fragmentos do real, João M&#x00E1;rio Grilo tece um espaço c&#x00E9;nico que nos envolve a todos, espectadores e personagens, numa atmosfera &#x00FA;nica. A <italic>mise en scène</italic> tamb&#x00E9;m &#x00E9; trabalhada ao pormenor: os atores têm a aguda consciência da representação e cumprem o duplo papel de participar de um processo hist&#x00F3;rico que foi, como tal, uma farsa urdida nos bastidores para levar D. Pedro II ao poder, e de estar num filme, onde nele são atores.  </p>
			
			<p>Cada plano &#x00E9; desenvolvido como um <italic>tableaux vivant</italic>, apesar de não o ser. H&#x00E1; referências expl&#x00ED;citas, na iluminação e composição de alguns enquadramentos, ao Barroco, mas não h&#x00E1; reproduções, nas imagens do filme, de quadros deste per&#x00ED;odo. H&#x00E1; a lentidão do filme, que nos convida a entrar num outro tempo, e assim, o realizador, recupera o cinema primitivo: na imobilidade da câmara, na teatralidade do seu princ&#x00ED;pio e nos enquadramentos do cen&#x00E1;rio que apesar de calcado no Real, parece constru&#x00ED;do. O pr&#x00F3;prio Barroco &#x00E9; aqui recuperado/retratado na sua essência: um grande palco onde se desenrolava a Hist&#x00F3;ria.  </p>
			
			<p>No filme a presença do Barroco não &#x00E9; mero pano de fundo, mas um elemento narrativo e presentificador da Hist&#x00F3;ria. Por exemplo, o Barroco português nutriu um verdadeiro amor pela simulação, de tal forma que grandes pinturas portuguesas do per&#x00ED;odo, mais do que criações originais, eram, na verdade, composições de um novo espaço cênico baseado em imagens alheias, tomadas de empr&#x00E9;stimo de outras gravuras e quadros. No filme vemos uma reprodução do quadro o <italic>Cordeiro M&#x00ED;stico</italic> de Josefa de &#x00D3;bidos, obra emblem&#x00E1;tica da arte portuguesa. A escolha do quadro não serve apenas para dar mais credibilidade ao cen&#x00E1;rio e para nos situar na &#x00E9;poca do acontecimento hist&#x00F3;rico. Este quadro &#x00E9; um modelo t&#x00ED;pico do barroco português, criado a partir de outro quadro, <italic>Agnus Dei</italic>, do pintor espanhol Zurbar&#x00E1;n. Ao mostrar o quadro de Josefa de &#x00D3;bidos, João M&#x00E1;rio Grilo revela-nos parte do seu pr&#x00F3;prio procedimento: recria, atrav&#x00E9;s de citações e referências, as paisagens de Chardin, os interiores de Vermeer, o requintado mundanismo dos retratos de Ticiano, a Vênus no espelho e os anões de Vel&#x00E1;quez, toques de Rembrandt... Sem recriar os quadros recria, atrav&#x00E9;s de fragmentos, um tempo e um espaço onde a imagem teve importância fundamental. D. Afonso VI foi o rei, que, segundo o realizador, teve toda a sua vida comandada pelo espelho. E João M&#x00E1;rio Grilo consegue, atrav&#x00E9;s da encenação proposta e da realização do filme, refletir (na dupla acepção da palavra), sobre as relações da Hist&#x00F3;ria com o teatro, do teatro com o cinema e deste com todas as artes que o rodeiam.</p>
					 
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	<sec id="notas">
			 <title>NOTAS</title>
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				<fn id="NOTE01"><label>1</label><p>“O sistema de Bazin baseia-se num postulado ideol&#x00F3;gico de base, articulado em duas teses complementares, que seria poss&#x00ED;vel formular da seguinte maneira: na realidade, no mundo real, nenhum evento &#x00E9; dotado de um sentido totalmente determinado a priori (&#x00E9; o que Bazin designa pela id&#x00E9;ia de uma «ambiguidade imanente ao real»); a vocação «ontol&#x00F3;gica» do cinema &#x00E9; reproduzir o real respeitando ao m&#x00E1;ximo essa caracter&#x00ED;stica essencial: o cinema deve portanto produzir representações dotadas da mesma «ambiguidade» – ou se esforçar para isso” (Aumont, <xref ref-type="bibr" rid="CIT05">1995</xref>, 72).</p></fn>

			
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